Revista destaca pesquisa sobre ações para redução de pegada de carbono na exportação de carne bovina brasileira

Uma das principais fontes de proteína animal para os seres humanos, a carne bovina tem importante participação na economia, ao mesmo tempo em que é uma das atividades humanas que mais emitem Gases de Efeito Estufa (GEE). A quantidade emitida desses gases também é conhecida como “pegada de carbono” e é uma preocupação crescente, dada a sua contribuição para as mudanças climáticas, um impacto ambiental cada vez mais percebido.

Com uma pegada de carbono elevada, o setor pecuário está no front das preocupações diante das mudanças climáticas. Consumidores mais exigentes já cobram por carne com menor emissão de gases, como o metano (CH4), valorizando o produto que respeita  indicadores ambientais pré-estabelecidos.

Essa realidade levou uma equipe multidisciplinar a pesquisar e apresentar uma proposta da aplicação conjunta de ações a serem implementadas para reduzir a pegada de carbono das exportações de carne bovina brasileira. O estudo foi recém-publicado em uma importante revista científica mundial sobre o tema – Journal of Cleaner Production – com o artigo “Application of the multiple criteria decision-making (MCDM) approach in the identification of Carbon Footprint reduction actions in the Brazilian beef production chain”, assinado pelos professores do Câmpus de Chapadão do Sul (CPCS/UFMS) Thiago José Florindo e Giovanna Isabelle B. de Medeiros e pesquisadores de outras instituições.

Importante elo na pecuária internacional, o Brasil responde por 22% da população mundial de bovinos – cerca de 216 milhões de cabeças e produziu 15% de toda a carne bovina consumida em 2016. “Assim, o país tornou-se o maior exportador desse produto relativo ao valor monetário durante esse período, com receita de US $ 5,5 bilhões (USDA, 2016).

Nesse cenário, obter um bom desempenho em relação a indicadores ambientais pode fornecer aos produtores brasileiros uma estratégia diferenciada, que lhes permita manter (ou aumentar) as participações em seus mercados, além de ocupar nichos atualmente dominados pelos concorrentes”, afirmam os pesquisadores. As significativas variações nos sistemas de produção e alimentação acabam por gerar impactos diretos na produtividade e nas externalidades ambientais, tornando a pecuária responsável por cerca de 15% das emissões de GEE acumuladas do planeta, com aproximadamente 44% deste total resultante da fermentação entérica dos bovinos.

Cadeia produtiva

A região Centro-Oeste foi selecionada como modelo dos diversos estágios da pecuária, frente a sua significativa contribuição para a produção nacional. Os pesquisadores mensuraram a pegada de carbono da cadeia de suprimentos para exportações de carne bovina, por meio da metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida.

Assim, a Pegada de Carbono foi inicialmente estimada considerando a produção até a fase final, além do processamento e transporte de carne bovina até sua entrega em três destinos finais de exportação: Rotterdam na Holanda, Shangai na China e São Petersburgo na Rússia.

O estudo mostrou que a fase de produção animal representou os principais impactos da mudança climática sobre o sistema (acima de 96% para todos os destinos de exportação) devido à fermentação digestiva dos animais, levando às emissões de metano (CH4).

“Apesar de o Brasil ser o maior exportador mundial de carne bovina em volume, enfrenta longas distâncias para entrega nos principais destinos de exportação, quando comparado a outros exportadores. Na maioria dos produtos alimentares, longas distâncias até o mercado de consumo são responsáveis pela maior parte das emissões de carbono e isto poderia ser considerado como um fator negativo para exportações brasileiras de carne bovina”, explica o professor Thiago.

Contudo, o fato de a produção animal ser realizada exclusivamente a pasto no sistema avaliado, leva ao cômputo do potencial de sequestro de carbono orgânico das pastagens, o que segundo o professor, pode reduzir significativamente as emissões por animal produzido ou mesmo neutralizar.

Para diminuir essa pegada de carbono, os pesquisadores apontam que é importante obter um diagnóstico consistente que quantitativamente descreva os impactos da mudança climática associada à cadeia de suprimentos do produto sob uma perspectiva de ciclo de vida, a partir da preparação de recursos pecuários (como as pastagens), abate, etapas de processamento de carne até a chegada ao consumidor.“Uma maneira robusta e ao mesmo tempo conceitual de realizar tais verificações é através da aplicação de métodos multicritério de tomada de decisão (MCDM).

“Em geral, os métodos MCDM consistem em abordagens capazes de classificar, comparar, identificar e selecionar soluções para problemas complexos de um número limitado de alternativas predeterminadas. Levando em conta esse contexto, os pesquisadores também utilizaram no estudo técnicas de MCDM para identificar potenciais ações de melhoria que possibilitassem a redução da pegada de carbono da carne bovina brasileira de exportação”, apontam os pesquisadores.

Em artigo, os autores expõem que a busca por melhores índices de pegada de carbono, relativos ao setor pecuário brasileiro, poderiam resultar em importantes ganhos ambientais coletivos. Como a bovinocultura de corte em economias emergentes possuem alta dependência de recursos naturais, a adoção de práticas de gestão eficientes poderiam reduzir as emissões globais de GEE em até um terço.

Melhorias

Entre as ações de melhorias avaliadas para a cadeia, o uso de suplementação protéico-energética, pastejo rotacionado em pastagens fertilizadas e integração lavoura-pecuária, ambas para a fase de produção animal, e substituição de unidades de transporte rodoviário por veículos mais modernos na indústria, foram identificadas como alternativas que diminuem o potencial de impacto ambiental com baixas restrições para adoção”, garantem os pesquisadores.

“A eficiência brasileira em termos de pegada de carbono nesta cadeia de produção pode, além de proporcionar diferencial estratégico em termos de produção e comercialização, contribuir para reduzir os impactos decorrentes do setor em nível global. No entanto, é necessário buscar medidas que facilitem a implementação dessas ações, principalmente no nível do produtor rural, considerando aspectos técnicos e de qualificação, treinamento, consultoria e aspectos financeiros, como crédito e subsídios, melhorando o desempenho ambiental dessa cadeia, com o objetivo de equilibrá-lo com as dimensões econômica e social”, explicam.

Além de tudo isso, o manejo adequado das pastagens também poderia reduzir impactos nas mudanças climáticas, associados à produção de carne bovina por conta do potencial de absorção de carbono orgânico no solo. “No entanto, torna-se necessário uma rigorosa verificação da capacidade de absorção de CO2 das pastagens, permitindo a compreensão dessa dinâmica em diferentes regiões de pastagem brasileiras. Tais avanços serão possíveis apenas com a sinergia de ações que ocorram em duas frentes: da pesquisa acadêmica na interface estabelecida entre o processo produtivo e seus efeitos sobre o entorno, e da gestão do processo, exercitada também tendo em conta a variável ambiental.

Texto: Paula Pimenta