Projeto de extensão Mão na Massa traz o solopunk ao público de língua portuguesa

Colaboração entre UFMS e Tractor Beam traduz a edição inaugural de revista digital americana e aproxima leitores brasileiros de narrativas que imaginam futuros regenerativos e ecológicos

Uma carta enviada de Campo Grande para os Estados Unidos abriu caminho para que uma nova corrente da ficção especulativa chegasse aos leitores de língua portuguesa. Coordenado pela UFMS, o projeto de extensão Mão na Massa foi responsável pela versão brasileira de “Geração”. A publicação é a primeira da revista digital Tractor Beam, referência internacional na divulgação do chamado solopunk — gênero literário que imagina futuros construídos a partir da regeneração ambiental, do conhecimento ancestral e da relação sustentável com a terra.

“Porque trabalhamos com a tradução de contos africanos da Revista Omenana, e tivemos muita alegria e aprendizado com o processo, comecei a buscar outras revistas digitais que pudessem se interessar pela proposta de parceria. Encontrei uma revista que tinha acabado de lançar seu primeiro número, e por ser uma revista nova, achei que eles estariam mais abertos ao meu contato. E foi exatamente isso que aconteceu. Na minha busca, me pautei por revistas especializadas em contos de ficção especulativa, que englobam a ficção científica, fantasia e o horror. A proposta da revista era o solopunk. Como eu não conhecia essa terminologia, apesar de conhecer vários gêneros do punk, como o cyberpunk e o solarpunk, quis aproveitar essa inovação conceitual também”, explica o professor da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (Faalc) e coordenador do projeto Elton Furlanetto.

O professor conta que decidiu enviar uma carta propondo a colaboração. “Não realizamos uma parceria formal. Bastou a carta, com minha apresentação e uma amostra do projeto anterior, para que a equipe da revista conversasse e me desse um retorno. Nos reunimos via zoom para conversar um pouco e as editoras, Lana Porter e Claire Gustavson, estavam muito empolgadas com a possibilidade de ter os contos publicados em outras línguas. Tanto que a ideia que surgiu dessa nossa conversa foi a de fazer uma chamada global, para tradução em outros idiomas”. A Tractor Beam é uma publicação independente de ficção especulativa, criada pela Tractor Beverage Company, companhia de bebidas orgânicas certificadas naturais e sustentáveis, como parte de seu compromisso com a agricultura regenerativa e com a saúde do solo.

Geração (Generation reúne nove trabalhos originais de ficção especulativa que imaginam futuros enraizados em solo, sementes e em conhecimento herdado. A edição inclui: “Fica quieto e coma sua terra, filho”, de Christopher R. Muscato; “As flores onde costumava ser a 580”, de T.K. Rex; “Canção dos besouros do deserto”, de Gunnar de Winter; “Plataformalândia”, de Suyi Davies Okungbowa; “A meia-vida da memória”, de L.R. Lam; “Timelapse: o caminho dos ecos”, de Tlotlo Tsamaase; “O que realmente aconteceu na Sombra Da Noite”, de Sarena Ulibarri; “Dádiva dos ancestrais”, de Chisom Umeh; e “Maitake à beira-mar”, de Renan Bernardo. Os textos em português podem ser conferidos no perfil da Tractor Beam na plataforma Substack.

O projeto de tradução da revista Geração reuniu algumas coincidências significativas. Entre elas está a participação do escritor brasileiro Renan Bernardo, autor de “Maitake-by-the-Sea”, conto que inspirou a criação da Tractor Beam. Publicada originalmente em inglês, a narrativa retornou ao português por meio da iniciativa coordenada pela UFMS, com o próprio autor acompanhando o processo como revisor. A parceria também aproximou as editoras da tradutora, autora e editora brasileira Jana Bianchi, que integra a edição mais recente da revista.

Para Lana o percurso da obra simboliza um movimento de retorno às suas origens. “A ironia que nossa primeira história tenha sido escrita em inglês por um autor brasileiro e depois traduzida de volta para o português não deixa de ser sentida”, afirma. Segundo ela, a iniciativa demonstra que a ficção especulativa produzida no Brasil não é uma influência externa, mas parte de uma tradição literária própria. “Esse gênero não é uma importação, mas uma herança”.

Claire explica que Geração reúne histórias que imaginam futuros baseados na renovação, no conhecimento ancestral e na relação com a natureza. Segundo ela, a edição parte da ideia de que o solo e o mundo natural podem ser vistos como tecnologias capazes de inspirar novas formas de viver e construir mundos, em diálogo com temas já presentes na tradição da ficção especulativa brasileira.

A editora afirma ainda que a tradução para o português está alinhada à missão da revista de tornar essas narrativas acessíveis a diferentes públicos. “Como podemos ter um futuro verdadeiramente coletivo se ele não estiver disponível para todo mundo?”, questiona. Para ela, assim como os rios atravessam fronteiras, as histórias também devem circular entre diferentes idiomas e culturas, ampliando as possibilidades de imaginar futuros em comum.

Processo colaborativo: importância e desafios

Criado inicialmente por integrantes da UFMS e da Universidade Federal de Alagoas, o projeto expandiu-se e hoje conta com a participação de estudantes, pesquisadores e tradutores de instituições como Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Universidade Estadual do Rio de Janeiro, além de profissionais independentes da área. Para o coordenador Elton Furlanetto, essa diversidade fortalece a integração entre universidade e sociedade, amplia as trocas de experiências e contribui para o crescimento contínuo da iniciativa.

O grupo Mão na Massa reúne, atualmente, mais de 40 participantes, dos quais cerca de 20 atuam de forma recorrente na tradução dos contos da Tractor Beam. O trabalho é realizado individualmente ou em duplas e passa por diversas etapas colaborativas, desde a tradução dos textos e materiais complementares até a revisão por pares, quando outros integrantes analisam e sugerem ajustes antes da publicação final.

Furlanetto destaca que a esse trabalho de tradução amplia o acesso a diferentes perspectivas sobre os desafios climáticos, sociais e culturais da atualidade, enriquecendo o repertório de ideias e possibilidades disponíveis aos leitores. Para ele, a ficção especulativa é uma ferramenta poderosa para imaginar alternativas de justiça, cooperação e cuidado com a natureza, contribuindo para inspirar mudanças sociais e novos modos de pensar o futuro. O professor observa ainda que o gênero vive um momento de crescimento no Brasil, com maior reconhecimento editorial e acadêmico.

Sobre os desafios na tradução dos textos que compõem a edição Geração, o maior deles é, segundo Elton Furlanetto, o fato de que os gêneros fantásticos costumam construir mundos muito imaginativos, com lógicas e funcionamentos diferentes da realidade cotidiana. “Precisamos entender as características desse mundo outro para não cometer nenhum anacronismo, nenhum deslize. Outra coisa que aparece bastante nos textos são neologismos, palavras e expressões que não tem um referente no nosso mundo, então precisamos do dobro da criatividade para pensar em soluções. Por fim, os contos apresentam comentários feitos por especialistas convidados. Neles, temos um uso de vocabulário mais técnico, mais científico, o que nos obriga a pesquisar mais detidamente. Mas, os comentários ensinam coisas muito valiosas, fazendo uma mediação entre o conhecimento científico e os elementos da narrativa, então, não dá para ignorá-los”, comenta.

Para o professor Elton Furlanetto, tornar essas narrativas acessíveis ao público de língua portuguesa significa ampliar o repertório de ideias e perspectivas disponíveis para refletir sobre os desafios contemporâneos. Segundo ele, a ficção especulativa permite imaginar alternativas de justiça, cooperação e cuidado com a natureza, funcionando como um espaço de experimentação de futuros possíveis. O pesquisador observa ainda que o gênero vive um momento de expansão no Brasil, com crescente reconhecimento editorial e acadêmico, impulsionado por iniciativas como a inclusão da categoria Romance de Entretenimento no Prêmio Jabuti e pela valorização de autores nacionais por editoras especializadas.

Ao comentar a relação entre o solopunk e a literatura brasileira, Furlanetto afirma que, embora o país não tenha desenvolvido um subgênero específico centrado na temática do solo, a preocupação com questões ambientais e sociais está presente há décadas na ficção especulativa nacional. Ele cita obras como Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, além de títulos recentes de autoras como Aline Valek, Natalia Borges Polesso e Morgana Kretzmann. Na avaliação do professor, o interesse da Tractor Beam pela tradução para o português reforça justamente esse diálogo entre o solopunk e uma tradição literária brasileira já comprometida com a reflexão sobre meio ambiente, território e transformação social.

A experiência na visão dos tradutores

Os participantes do projeto destacam tanto os ganhos profissionais quanto a experiência colaborativa construída ao longo da tradução. Para Juliana Schaidhauer, da UFRGS, a admiração pelo trabalho do professor Elton Furlanetto e a qualidade dos contos da Tractor Beam foram decisivas para sua participação. Ela ressalta que o projeto oferece uma oportunidade importante para tradutores em formação ganharem experiência e confiança por meio do trabalho coletivo.

Pesquisador de ficção científica da USP, Frank Rudiger Lopes, afirma que a iniciativa ampliou seus conhecimentos sobre tradução na prática e na academia, além de proporcionar um rico ambiente de aprendizado e troca entre os integrantes. Já João Gabriel Arruda, da UFMS, considera o projeto um marco em sua formação, por aproximar estudantes e tradutores de diferentes regiões do país e oferecer experiência concreta de trabalho com textos.

Para Lucas Durães Fernandes, também da UFMS, a oficina permitiu articular teoria e prática da tradução, além de aproximá-lo de produções contemporâneas em língua estrangeira. Diego Silva, da UFAL, por sua vez, destaca que a participação realizou um antigo interesse pela tradução, especialmente de quadrinhos, ampliando suas habilidades profissionais e o contato com novas culturas e perspectivas por meio da colaboração com colegas de todo o Brasil.

Próximos passos do projeto Mão na Massa

Além de proporcionar experiência prática em tradução literária, o grupo Mão na Massa pretende ampliar sua atuação acadêmica e profissional nos próximos anos. Segundo o coordenador Elton Furlanetto, a iniciativa deverá integrar o futuro Laboratório de Literatura Estrangeira e Tradução Literária da Faalc, atualmente em fase de criação. A expectativa é que as traduções já publicadas contribuam para a formação de um portfólio profissional dos participantes e, com a obtenção de recursos por meio de editais, possibilitem a realização de oficinas, eventos especializados e outras ações voltadas à formação de tradutores. “Quem sabe vamos criar um polo de tradução literária no Mato Grosso do Sul”, projeta.

Após a tradução de Geração, o grupo já trabalha nas edições seguintes da Tractor Beam, com textos das edições 2, 3, 4 e 5 em processo de revisão. Paralelamente, os integrantes participam do projeto internacional Caixa de Pandora/Pandora’s Box, dedicado à publicação bilíngue de ficção científica escrita por mulheres dos séculos 19 e 20. Furlanetto afirma que a meta é ampliar as parcerias com outras revistas e editoras interessadas em projetos de tradução colaborativa. Entre as perspectivas futuras está ainda a expansão internacional do trabalho: uma pesquisadora, vinculada à Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, já articula a tradução dos contos da Tractor Beam para o espanhol, em parceria com equipes universitárias do México e do Chile.

Texto: Vanessa Amin

Fotos: Guilherme Cigerza