Com inscrições abertas até 10 de julho, no Sistema de Gestão de Projetos, o UFMS Tech Labs vai capacitar professores, técnicos-administrativos e estudantes de graduação e pós-graduação para desenvolver negócios de base científica, estruturar startups, ampliar ações de transferência de tecnologia e criar soluções com impacto econômico e social. Desenvolvida em parceria com a consultoria Emerge, referência latino-americana em deep techs, a iniciativa é gratuita.
O Brasil ocupa a 14ª posição mundial em produção científica, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar pesquisa em inovação e competitividade econômica. Por isso, um dos principais desafios das universidades brasileiras é transformar pesquisas acadêmicas em soluções que cheguem à sociedade. Na UFMS, esse novo programa quer aproximar ciência, mercado e inovação. “Tenho observado, em fóruns, workshops e eventos, uma discussão muito forte sobre como as instituições, universidades e centros de ciência e tecnologia podem transformar aquilo que é desenvolvido nas pesquisas, nos laboratórios e nas salas de aula em tecnologia, negócios, startups e empreendimentos que levem resultados concretos para a sociedade. Por meio da transferência de tecnologia, de spin-offs, startups e modelagens de negócios, conseguimos levar a ciência produzida dentro da universidade para a sociedade sul-mato-grossense e para a sociedade brasileira como um todo”, ressalta o diretor da Agência de Inovação (Aginova), João Sarmento.
Segundo o diretor, a UFMS já vem acompanhando o movimento conhecido como “Do paper ao PIB”. “Isso significa valorizar aquilo que é produzido nos laboratórios e nas pesquisas de mestrado, doutorado e iniciação científica, transformando esse conhecimento em negócios e soluções reais que alcancem a sociedade. Muitas pesquisas já geram publicações científicas, mas elas também podem gerar patentes, propriedade intelectual, startups e impacto econômico e social”.
“As universidades públicas são essenciais para o desenvolvimento de tecnologias de impacto, porque são responsáveis por gerar conhecimento, invenções e impulsionar a inovação científica no país. A UFMS chamou a atenção pelo elevado potencial de produção científica e pelo interesse em ampliar sua atuação em programas de inovação e conexão com o mercado”, afirma o gerente de projetos da Emerge Brasil, Douglas Veronez.
A Emerge trabalha com tecnologias de base científica junto a indústrias, governos, startups, investidores e universidades. Com empresas, é comum realizar programas de inovação aberta cujo objetivo é conectar desafios do setor produtivo a grupos de pesquisa e startups capazes de apresentar soluções.
A proposta não se limita às áreas tecnológicas tradicionais. Segundo os organizadores, projetos de impacto social e iniciativas das ciências humanas também fazem parte da estratégia institucional de inovação.
“Muitas vezes, quando se fala em tecnologia e propriedade intelectual, o foco acaba sendo direcionado às áreas exatas e tecnológicas, mas o empreendedorismo também acontece no campo social, por meio de tecnologias sociais e iniciativas de impacto desenvolvidas inclusive nas ciências humanas. Por isso, a capacitação é aberta a todas as áreas do conhecimento”, destaca o diretor.
A capacitação será realizada em cinco etapas, entre julho e outubro, com conteúdos sobre propriedade intelectual, modelagem de negócios, financiamento, transferência de tecnologia, mercado e desenvolvimento de startups. O programa prevê 20 horas de formação online, cinco encontros síncronos e mentorias com especialistas nacionais em inovação científica.
“De forma bastante objetiva, o curso traduziu metodologias já consolidadas do ambiente empreendedor, criadas principalmente no contexto do empreendedorismo digital, para o dia a dia do pesquisador e o contexto do ambiente de pesquisa. Esta tradução consistiu em adaptar ferramentas já existentes e criar novas ferramentas para orientar a forma de pensar da academia aos requisitos de projetos inovadores”, explica Douglas.
“Caso a capacitação apresente resultados positivos, nossa intenção é expandi-la até atingir toda a comunidade acadêmica. Durante a formação, os participantes poderão apresentar ideias de negócios, e as dez melhores propostas terão a oportunidade de aproximação com o mercado. A ideia é consolidar essa ação anualmente para transformar o que é desenvolvido nos laboratórios em soluções que gerem impacto social e econômico”, reforça João.
Casos de sucesso
Na UFMS, há exemplos de como a pesquisa pode se transformar em inovação, soluções de mercado e impacto social. Um deles é a Dual Link, fundada pelo pesquisador do Instituto de Física Cauê Martins em 2024. A startup combina desenvolvimento tecnológico com validação acadêmica para resolver problemas relacionados à previsão de vigor de sementes e à logística.
As spin-offs Damine e ENG Tecnologias também surgiram a partir de pesquisas desenvolvidas pelo pesquisador da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia Edson Batista. Os negócios gerados pelas spin-offs empregam ex-alunos e ampliam o impacto dos laboratórios para além das publicações científicas. A Damine utiliza inteligência artificial aplicada a processos industriais e a ENG apresenta soluções para o setor energético.
Outra iniciativa que nasceu da observação de um problema real e da busca por soluções que conectassem conhecimento, prática e oportunidade é a República das Arteiras. Fundada por Ivani Marques, a iniciativa transforma habilidades artesanais em uma estrutura de geração de renda e impacto social.
Principais desafios e expectativas
O gerente de projetos da Emerge comenta que o principal desafio nas universidades ainda é a falta de conhecimento sobre os processos de inovação, transferência de tecnologia e mecanismos de aproximação com o setor produtivo.
“Dentro das instituições, os maiores desafios costumam estar na construção de um business case, envolvendo análise de mercado, perfil de clientes e modelo de negócio para as tecnologias desenvolvidas. A resistência à inovação dentro da academia hoje é pequena e geralmente está ligada à falta de entendimento sobre os processos e garantias legais envolvendo inovação”, avalia Douglas.
“O curso e a metodologia da Emerge ajudam a esclarecer que existe fundamento legal, ritos e processos muito claros para garantir que a inovação não seja predatória, nem retire a autonomia do pesquisador ou da universidade”, completa.
“A UFMS já vem se destacando em ações de empreendedorismo e inovação. Esta iniciativa busca apoiar pesquisadores, estudantes e servidores, aproximando a universidade do mercado para que as soluções desenvolvidas nos laboratórios alcancem cada vez mais a sociedade. Nossa expectativa é ampliar as ações de transferência de tecnologia, tanto por meio do licenciamento de tecnologias quanto pela criação de startups e empresas formadas por pesquisadores e estudantes”, finaliza o diretor da Aginova.
Texto: Vanessa Amin
