Ao unir ciência, criatividade e compromisso social, projeto demonstra que a democratização do conhecimento pode ser uma poderosa aliada na luta contra o câncer
Em um cenário em que o câncer continua sendo um dos maiores desafios da saúde pública, tornar a informação acessível pode ser tão importante quanto o avanço dos tratamentos. Com essa proposta, o projeto Onco Criação aposta na produção de materiais didáticos inovadores para ampliar a conscientização sobre a doença, fortalecer ações de prevenção e diagnóstico precoce e oferecer suporte informativo a pacientes e familiares. A iniciativa, desenvolvida pela Liga Acadêmica de Oncologia (Laon) da UFMS de Três Lagoas, une educação, pesquisa e extensão para transformar conhecimento científico em conteúdos acessíveis, criativos e capazes de alcançar diferentes públicos.
“A ideia surgiu da compreensão de que informação acessível salva vidas. Quando observamos os números crescentes da doença e entendemos que prevenção e diagnóstico precoce dependem diretamente da informação, percebemos que precisávamos comunicar a oncologia de forma mais próxima e compreensível. Os materiais didáticos criativos surgiram justamente como uma estratégia de aproximar a ciência da comunidade, tornando temas complexos mais claros, acessíveis e humanizados”, destaca a coordenadora do projeto e da Laon, professora Julie Massayo Maeda Oda.
Sobre a experiência de traduzir termos médicos complexos da oncologia para linguagem mais acessível, Julie avalia que tem sido um exercício de equilíbrio entre linguagem simples e responsabilidade científica. “Nosso objetivo não é simplificar excessivamente a ponto de perder a precisão, mas tornar o conhecimento mais compreensível. Para isso, trabalhamos com recursos visuais, analogias, linguagem acessível e estratégias lúdicas que facilitam a compreensão de temas que, muitas vezes, geram medo ou confusão. A música, os jogos e os símbolos ajudam a tornar o aprendizado mais leve e memorável, especialmente porque respeitam diferentes formas de aprender e se comunicar”.
Além de promover conhecimento sobre prevenção e diagnóstico precoce, o Onco Criação também fortalece o compromisso social da instituição ao aproximar universidade e comunidade por meio de ações educativas presenciais e digitais. “O projeto fortalece a conexão entre universidade e sociedade ao transformar o conhecimento científico em informação acessível e próxima da comunidade. Além da produção de conteúdos digitais para divulgação nas redes sociais, ampliando o alcance das ações educativas, também levamos essas informações presencialmente por meio de palestras em escolas, indústrias e na Rede Feminina”, fala Julie.
Segundo ela, os encontros vão além da transmissão de conhecimento: promovem acolhimento, escuta ativa e espaços para esclarecimento de dúvidas, permitindo uma troca mais humana e direta com a população. “Ao mesmo tempo, essas ações também contribuem para divulgar a Liga e o próprio projeto, reforçando o compromisso social da faculdade com uma formação que ultrapassa a sala de aula e gera impacto real na vida das pessoas”, afirma.
Desenvolvimento de competências
O impacto da iniciativa não se restringe à comunidade externa. Os próprios estudantes envolvidos no projeto têm desenvolvido competências essenciais para a atuação profissional, ao assumirem o papel de comunicadores científicos. “Essa tem sido uma das transformações mais valiosas do projeto. Quando os estudantes passam a traduzir conteúdos científicos para diferentes públicos, eles desenvolvem não apenas conhecimento técnico, mas também empatia, senso crítico, comunicação e responsabilidade social. Eles compreendem que ser profissional da saúde também envolve educar, acolher e tornar a ciência acessível. Tenho observado um amadurecimento importante na forma como enxergam o cuidado em saúde e o impacto que a informação pode ter na vida das pessoas”, ressalta Julie.
Participam das atividades 16 estudantes dos cursos de Medicina e Enfermagem da UFMS de Três Lagoas: Amanda Moreira Colletti, Ana Beatriz Rodrigues Gualdi, Ana Carolina Dorigon Moço, Ana Carolina Rodrigues Gualdi, Anna Beatriz Pereira Lima, Beatriz Andrade Vargas, Eliza Vitória Siviero de Oliveira, Guilherme Pereira de Melo Catossi, Heloisa Costa Warken, Luis Otavio Micheletti Tinois, Maria Clara Abrahão Albuquerque, Maria Luisa Terra Rangel, Raíssa Malheiro Dourado, Rosa de Felipe Nsang Viñel Nfono, Tatiane de Oliveira Borges e Thays Inacio Rodrigues da Silva.
Os estudantes Heloisa e Luis Otávio contaram o quanto desafiador é o processo de criação. “O nosso processo de criação começa sempre com uma busca em bases científicas confiáveis, como Medline, Scielo e Lilacs. A partir dessas evidências, a gente seleciona os temas mais relevantes e transforma esse conteúdo em materiais acessíveis para diferentes públicos. Esse trabalho dá origem a diversas iniciativas, como posts e vídeos para as redes sociais, casos clínicos para os ligantes, cartilhas, palestras, campanhas educativas e outras ações voltadas à conscientização da população. Também participamos de projetos científicos e eventos acadêmicos da faculdade, além de desenvolver atividades em instituições parceiras e com outros estudantes, buscando levar informação de qualidade para diferentes públicos e contextos”.
Os posts e vídeos para as redes sociais são, para os ligantes, os materiais que exigem mais habilidades durante o processo de criação. “Esses costumam ser alguns dos materiais mais desafiadores de desenvolver. Isso porque, além de exigir pesquisa e planejamento, eles nos desafiam a pensar em maneiras criativas de apresentar o conteúdo, tornando temas importantes mais interessantes e atrativos para o público. Também é necessário considerar como transmitir as informações de forma clara e objetiva, para que possam ser compreendidas por pessoas com diferentes níveis de conhecimento sobre o assunto”, contam.
“Em um ambiente com tantas informações disputando atenção diariamente, buscamos construir materiais que não apenas informem, mas também despertem a curiosidade e incentivem o interesse da população por temas relacionados à saúde, à prevenção e à conscientização. Então, o nosso diferencial é justamente pegar informações científicas de qualidade e traduzir esse conhecimento para uma linguagem mais simples, acessível e aplicável à realidade das pessoas, sem perder o embasamento científico que sustenta todo o nosso trabalho”, comentam.
Para Ana Carolina, também é preciso equilibrar o rigor técnico da ciência com o acolhimento emocional. “Acreditamos que na oncologia não há como separar totalmente a parte técnica da parte humana, porque por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa vivendo inúmeros sentimentos, como o medo, a insegurança e muitas mudanças ao mesmo tempo, seja ela de perspectivas psicológicas, quanto sociais. Então, para nós, o equilíbrio vem justamente de conseguir transmitir a informação científica de forma correta, mas sem transformar o paciente em ‘só um caso clínico’ que discutimos”, ressalta.
“Nos materiais didáticos, focamos em uma linguagem acessível, porque conhecimento também diminui a ansiedade. Não adianta trazer um conteúdo extremamente técnico se a pessoa não consegue entender ou se sente ainda mais assustada depois do que passamos. Ao mesmo tempo, entendemos que é importante, ainda sim, manter o padrão científico, mas de forma amena, principalmente em oncologia, onde desinformação pode impactar diretamente o tratamento e a qualidade de vida. Então vemos esse equilíbrio como traduzir a ciência sem perder a sensibilidade que precisamos na oncologia: explicar com muita responsabilidade, empatia e clareza, sempre lembrando que o cuidado começa também na forma como a informação é passada”, acrescenta.
Os ligantes Ana Carolina, Rosa e Eliza avaliam como tem sido a recepção do público ao ter contato com as novas ferramentas educativas. “A recepção do público tem sido bastante positiva. Durante as palestras educativas, observamos grande interesse e participação dos ouvintes, que contribuem para um ambiente acolhedor, interativo e enriquecedor. As ferramentas utilizadas, como quizzes, perguntas interativas e apresentações com imagens, gráficos e informações simplificadas, facilitam a compreensão dos conteúdos, tornam os encontros mais dinâmicos e favorecem o esclarecimento de dúvidas. Além da disseminação do conhecimento, as atividades promovem a troca de experiências entre os participantes e estimulam discussões sobre prevenção, diagnóstico precoce e cuidados com a saúde. O engajamento da comunidade e os frequentes agradecimentos recebidos demonstram o reconhecimento da relevância da liga na conscientização e promoção da saúde”.
Legado
Sobre a participação no projeto e a contribuição para o exercício da futura profissão, os estudantes afirmam que contribui muito para uma perspectiva mais humanizada do cuidado da saúde, a partir de uma abordagem centrada no paciente, de modo que ele se torne o protagonista do seu processo de tratamento. “Essa desconstrução da hierarquia do cuidado em que o ‘médico manda e o paciente obedece’ é muito importante, visto que possibilita a criação de um momento mais acolhedor e sensível diante da situação. A vivência que obtivemos foi muito além de apenas nos instruir acerca do conteúdo técnico, o Onco Criação foi responsável por ampliar nosso entendimento sobre cuidado em saúde e também nos ensinou caminhos para aprimorarmos esse contato médico-paciente da melhor forma possível, nos aproximando da realidade clínica desde a graduação”, avaliam Ana Beatriz, Maria Clara e Raíssa.
“Ver um material produzido por nós auxiliando na prevenção do câncer é a certeza de que a educação e a informação de qualidade podem transformar realidades, promover conscientização e salvar vidas”, conclui Guilherme. Para a coordenadora, o legado do Onco Criação também vai muito além da produção de materiais educativos, consolidando a informação como uma ferramenta permanente de cuidado e acolhimento. “O principal legado é tornar a informação uma ferramenta de cuidado. Para a Liga, o projeto deixa uma base de materiais educativos que pode ser ampliada e atualizada ao longo do tempo, fortalecendo ações de ensino e extensão. Para os pacientes, familiares e comunidade, esperamos deixar ferramentas que auxiliem na compreensão da doença, reduzam inseguranças e incentivem o cuidado, a prevenção e o diagnóstico precoce. Mais do que produzir materiais, queremos contribuir para que a informação seja uma ponte entre conhecimento, acolhimento e qualidade de vida”.
Texto: Vanessa Amin
Fotos e imagens: Liga Acadêmica de Oncologia
