Célula BIM possibilita ambiente diferenciado em modelagem e análise digital

Laboratório foi implantado na UFMS de Campo Grande e permite maior qualificação dos estudantes, além de incrementar atividades de pesquisa e extensão

Entre modelos digitais, protótipos impressos em 3D, imagens captadas por drone e experimentações tecnológicas, estudantes da UFMS já vivenciam, na prática, o futuro da Arquitetura e Urbanismo. Após ser selecionada para receber uma das Células BIM apoiadas pelo Projeto Construa Brasil, a Universidade colocou em funcionamento o Lab.BIM, espaço que reúne ensino, pesquisa e inovação para fortalecer a formação acadêmica e ampliar a inserção dos futuros profissionais na transformação digital da construção civil.

BIM ou Modelagem da Informação da Construção é o conjunto integrado de processos e tecnologias que permite criar, utilizar, atualizar e compartilhar, colaborativamente, modelos digitais de uma construção, de forma a servir potencialmente a todos os participantes do empreendimento durante o ciclo de vida da construção. O seu uso antecipa eventuais problemas que não eram possíveis de serem identificados no método tradicional de elaboração de projetos, além de diminuir tempo de execução de obra.

“O Lab.BIM foi concebido como um ambiente de inovação capaz de conectar graduação, pós-graduação, pesquisa, extensão e sociedade. Ao mesmo tempo em que contribui para a implementação do BIM no ensino e para a atualização curricular do curso de Arquitetura e Urbanismo, também fortalece as pesquisas desenvolvidas nos programas de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo e em Eficiência Energética e Sustentabilidade, da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia. O Laboratório também amplia o diálogo com o mercado e consolida a participação da universidade em redes nacionais voltadas à transformação digital da construção civil”, destaca a coordenadora, professora Mayara Dias.

A partir da implantação dos equipamentos, o Lab.BIM passou a oferecer aos estudantes um ambiente de aprendizagem mais dinâmico e conectado às demandas contemporâneas da Arquitetura e Urbanismo. “Os alunos têm participado de reuniões coletivas, mentorias, desenvolvido projetos de pesquisa e realizado experimentações práticas e ampliado suas competências em processos digitais de projeto. O Laboratório se tornou um espaço de troca, investigação e construção coletiva do conhecimento”, conta Mayara.

“Atualmente, o laboratório desenvolve também um projeto de extensão voltado à promoção do diálogo sobre BIM e transformação digital da construção civil. A proposta é criar espaços permanentes de troca de experiências e compartilhamento de conhecimento, discutindo como o BIM vem sendo incorporado na prática profissional, nos processos de ensino e pesquisa e nas demandas da indústria da construção”, explica a professora.

De acordo com ela, as ações contribuem para aproximar os estudantes das realidades do mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que permitem que profissionais externos conheçam as pesquisas e iniciativas desenvolvidas na universidade. “Por meio de encontros, palestras, rodas de conversa e atividades formativas, o projeto busca fortalecer uma rede colaborativa de atores envolvidos com a transformação digital do setor, ampliando as oportunidades de aprendizagem e estimulando a construção conjunta de soluções para os desafios contemporâneos”, acrescenta.

Estrutura e equipamentos

Além da coordenação pela professora Mayara, o laboratório conta com a participação de professores e técnicos colaboradores da FAENG, estudantes de graduação bolsistas e de pós-graduação. Sobre a infraestrutura, no local há computadores de alto desempenho, impressora 3D, drone, kits arduínos e projetor. “Os computadores permitem o desenvolvimento de modelagens BIM, simulações, levantamentos, processamento de dados e produção de materiais gráficos. Eles são a base para que os estudantes possam explorar ferramentas digitais avançadas, realizar análises e desenvolver projetos com maior qualidade técnica e integração entre diferentes etapas do processo de projeto”, detalha Mayara.

“A impressora 3D tem sido utilizada como ferramenta de experimentação e materialização de ideias. Os estudantes podem transformar modelos digitais em protótipos físicos, testar soluções projetuais, analisar volumetrias e compreender melhor aspectos construtivos. Esse processo aproxima o pensamento digital da experiência concreta, ampliando as possibilidades de investigação e aprendizagem”, conta a coordenadora.

Sobre o drone, Mayara fala que o equipamento contribuirá para atividades de levantamento e documentação de áreas urbanas e edificações. “A captura de imagens aéreas permitirá uma compreensão mais ampla do território, auxiliará na produção de registros digitais e geração de informações importantes para pesquisas relacionadas à cidade, ao patrimônio e ao ambiente construído. É uma ferramenta que aproxima os estudantes de tecnologias cada vez mais presentes na prática profissional”, diz.

“Já os kits Arduino ampliam as possibilidades de experimentação ao permitir o desenvolvimento de protótipos e sistemas interativos. Os estudantes têm a oportunidade de explorar conceitos relacionados à automação, monitoramento ambiental e integração entre tecnologias digitais e o ambiente construído. Essa experiência contribui para uma formação mais interdisciplinar e alinhada aos desafios da inovação tecnológica”, completa.

Impactos e oportunidades para estudantes

O principal impacto, segundo a professora, é a ampliação das oportunidades de aprendizagem. “Os estudantes têm acesso a tecnologias, metodologias e experiências que complementam a formação em sala de aula. Além do desenvolvimento de competências técnicas, o laboratório fortalece habilidades de pesquisa, trabalho em equipe, resolução de problemas e inovação. São experiências que contribuem significativamente para a formação acadêmica e para a atuação profissional futura”.

Paulo Alexandre Cáceres conta que soube da conquista da Célula BIM quando fez a disciplina optativa de Metodologia BIM. “A gente se interessou pelo tema, participou da disciplina e teve mais contato com a professora Mayara. Com o desenrolar das atividades, entramos em contato para tentar desenvolver uma iniciação científica também voltada para a metodologia BIM. Com isso, fomos acompanhando os editais que surgiram na época. Conseguimos participar, fomos aprovados e conquistamos esse edital. Foi assim que chegamos ao laboratório”, conta o estudante.

A estudante Nicole Ortiz destaca que os primeiros meses de atividades têm sido dedicados tanto à exploração dos equipamentos quanto ao aprofundamento dos conhecimentos em BIM. “Estamos testando os equipamentos da célula de pesquisa e participando de cursos para entender melhor como relacionar o BIM às tecnologias disponíveis no laboratório. Minha equipe tem trabalhado bastante com a impressora 3D, buscando integrar o que aprendemos sobre modelagem às possibilidades de materialização dos projetos”, explica.

Entre as iniciativas em desenvolvimento, Nicole cita a produção de plantas arquitetônicas, elementos de mobiliário e estudos relacionados à topografia. “Também estamos conhecendo aplicações voltadas à acessibilidade, como plantas táteis impressas em 3D para pessoas com deficiência visual. A ideia é entender como essas tecnologias podem contribuir para o aprendizado e se conectar às disciplinas do curso e aos projetos acadêmicos”, acrescenta.

Para o estudante Thiago de Souza Maram, uma das principais descobertas proporcionadas pelo Laboratório foi compreender que o BIM vai muito além da modelagem digital. “A primeira impressão que muita gente tem é que o BIM se resume ao Revit, mas aqui eu percebi que existem muitas outras possibilidades, como impressão 3D, inteligência artificial e automação de processos. Além de trazer mais agilidade para os projetos, a metodologia permite compatibilizar diferentes áreas, como elétrica, hidráulica e estrutural, identificando conflitos antes da execução da obra. Isso gera mais segurança, reduz riscos, economiza tempo e auxilia até no orçamento. Hoje vejo o BIM como uma metodologia muito mais ampla, com um potencial enorme para o futuro, especialmente com o avanço da inteligência artificial”, avalia.

O estudante Pedro Dias Lourenço destaca que a participação no Lab.BIM tem ampliado seu contato com diferentes ferramentas e tecnologias digitais. “Enquanto muitos alunos utilizam apenas alguns softwares ao longo da graduação, no laboratório estamos sempre pesquisando e aprendendo novas soluções. Isso nos ajuda a desenvolver uma visão mais ampla sobre representação digital e sobre as diferentes formas de aplicar os conhecimentos da Arquitetura”, diz.

“Ao longo da graduação, trabalhamos muito com ferramentas como CAD e SketchUp, mas hoje já percebo, tanto nos estágios quanto nas conversas com outros alunos, que muitos escritórios estão migrando para o BIM. A metodologia facilita diversos processos, desde a compatibilização entre arquitetura, instalações elétricas e hidráulicas até a geração de planilhas e o apoio aos orçamentos. Isso traz mais eficiência, reduz erros e gera economia de tempo”, observa Julia Perondi Nágera.

Na avaliação da estudante, a tendência é que o BIM se torne cada vez mais presente na atuação profissional. “O mercado busca profissionais que dominem essa tecnologia, e estar no laboratório representa uma grande vantagem. Enquanto muitos colegas terão contato com essas ferramentas apenas quando ingressarem no mercado de trabalho, nós já estamos desenvolvendo essas competências durante a graduação. Isso nos permite chegar mais preparados para as exigências dos escritórios e empresas”, destaca.

O estudante Matheus Gil Calegari avalia que o Lab.BIM vai além do aprendizado técnico ao estimular o desenvolvimento do senso crítico e da pesquisa. “Passamos a analisar as tecnologias de forma mais investigativa, buscando compreender não apenas como utilizar as ferramentas, mas também suas diferentes possibilidades de aplicação”, afirma. Segundo ele, o contato com diversos softwares e metodologias também amplia a compreensão sobre a interdisciplinaridade da Arquitetura e Urbanismo. “Muitas dessas ferramentas podem ser utilizadas em áreas como instalações, infraestrutura e planejamento urbano. Isso nos ajuda a desenvolver uma visão mais ampla dos processos e das possibilidades de atuação profissional”, explica. Para o estudante, essa experiência representa um diferencial importante para o futuro. “Ao conhecer diferentes soluções e formas de trabalho, desenvolvemos maior capacidade de adaptação e chegamos ao mercado com uma formação mais abrangente”.

Contexto Nacional

“A importância do Lab.BIM no contexto nacional da implementação do BIM no ensino de Arquitetura e Urbanismo possui um papel estratégico nesse processo ao integrar o Projeto Construa Brasil do MDIC, que tem como objetivo apoiar instituições de ensino superior na implementação e consolidação do BIM em seus cursos, fortalecendo a formação de profissionais alinhados às transformações digitais da construção civil”, enfatiza a coordenadora.

Para Mayara, mais do que acompanhar tendências, o Lab.BIM passa a atuar como agente de difusão e fortalecimento da cultura BIM no ambiente acadêmico. “Essa atuação é especialmente relevante diante das atualizações das Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Arquitetura e Urbanismo, que reforçam a necessidade de formação alinhada às transformações tecnológicas, à inovação e aos processos contemporâneos de projeto”, fala.

“Nesse contexto, a inserção do BIM nas disciplinas de graduação deixa de ser apenas uma atualização tecnológica e passa a representar uma demanda formativa fundamental para preparar os futuros arquitetos e urbanistas para os desafios da profissão. Ao aproximar os estudantes das metodologias BIM ainda durante a graduação, o laboratório amplia suas oportunidades de aprendizagem e inserção profissional. Os alunos passam a desenvolver competências cada vez mais valorizadas pelo mercado, ao mesmo tempo em que participam de projetos de pesquisa, inovação e extensão que dialogam com os desafios reais da sociedade e da transformação digital da construção civil”, avalia.

Sobre as expectativas, a professora acredita que o mais importante é consolidar o Lab.BIM como um ambiente cada vez mais integrado ao ensino, à pesquisa e à extensão. “Queremos ampliar parcerias institucionais, fortalecer projetos interdisciplinares, expandir as oportunidades para os estudantes e contribuir para a produção de conhecimento e inovação em Arquitetura e Urbanismo. O laboratório representa um investimento no futuro da formação acadêmica e na capacidade da universidade de responder aos desafios contemporâneos da sociedade”, finaliza Mayara.

Texto e fotos: Vanessa Amin