Bacia hidrográfica do Rio da Prata corre sérios riscos com erosão

Fauna, flora e aspectos geológico-geomorfológicos ímpares fazem do Rio de Prata um dos principais destaques turísticos de Mato Grosso do Sul, procurado por brasileiros e estrangeiros na busca de conhecer suas ricas peculiaridades. Ocupando uma área de 1393 km², a bacia hidrográfica do Rio da Prata corre sérios riscos, em especial pela erosão que assola a região.

Essa realidade está sendo constatada pelo pesquisador Elias Rodrigues da Cunha, técnico do Laboratório de Geoprocessamento no Campus de Aquidauana (CPAQ) e doutorando em Geografia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) que coordena a pesquisa “Predições do uso e ocupação do solo e seus impactos na erosão do solo no ecótono Cerrado/Mata Atlântica: estudo de caso da bacia hidrográfica do Rio da Prata”.

A expansão das áreas de monocultura agrícola na região do banhado sugere um
cenário futuro preocupante para bacia do rio Prata; imagem de 21/06/2018. Fonte
Instituto do Homem Pantaneiro- IHP.

A pesquisa foi dividida em três etapas: na primeira, foram analisadas as mudanças no uso e ocupação do solo nas últimas três décadas (1986- 2016); a segunda trata da simulação de cenários futuros de uso e ocupação do solo para os anos de 2033, 2050, 2080 e 2100. Por último, ainda em desenvolvimento pelo pesquisador, estão sendo avaliados os cenários futuros de uso e ocupação do solo, de mudanças climáticas e seus os impactos na erosão do solo.

O estudo desenvolvido por Elias aponta que as atividades agropastoris foram as que mais influenciaram na mudança do uso e ocupação do solo, sendo as nascentes, vegetação ciliar dos afluentes e principalmente o banhado as áreas da bacia mais afetadas.

“Além do desmatamento da vegetação nativa, a existência de canais de drenagens artificiais no banhado é um fator alarmante. O objetivo destes canais é drenar o excesso de água dessa região alagada para incorporar essas áreas na produção agrícola. Esse tipo de intervenção compromete todo o ecossistema local, e tem sido um dos fatores que vem causando a turbidez das águas do Rio da Prata, visto que esses canais potencializam o escoamento superficial das águas pluviais aumentando a capacidade da chuva em levar sedimentos para o rio, impacto que tem ocorrido nos últimos anos”, expõe o pesquisador.

As análises apontam que a bacia passou por um rápido processo de degradação no século XXI, em especial pelas demandas de ordem econômica, o que levou a área a perder rapidamente sua integridade ambiental e biótica.

“Os resultados demonstraram que as mudanças no uso e ocupação do solo na bacia do Rio da Prata ao longo das três décadas foram causadas pela expansão da agropecuária. Inicialmente, com a pecuária extensiva, que se desenvolve no Estado desde o início dos anos 70. Essa expansão teve impacto direto na redução da vegetação nativa dos biomas Cerrado e Mata Atlântica (banhado, cerrado, mata ciliar, floresta estacional semidecidual e campos graminosos úmidos). E recentemente, pela agricultura – com destaque para lavouras de milho e soja, que se desenvolvem nas áreas que antes eram ocupadas por pastagens”, afirma.

Foi possível identificar que entre 1986 e 2007, as áreas agrícolas não se expandiram tanto quanto as áreas de pastagem. “No entanto, o crescimento das áreas agrícolas ocorreu exclusivamente nas nascentes e no banhado, que são as áreas mais importante da bacia do Rio Prata, e de maneira mais dinâmica e intensa a partir de 2007. O avanço das monoculturas agrícolas na região do banhado foi influenciado pelas suas características que favorecem as atividades agropastoris como relevo plano e solo com boa aptidão agrícola”, completa Elias.

“O banhado é considerado um dos ecossistemas mais importantes da bacia do rio Prata, pois desempenha um papel ambiental fundamental. Ele é responsável pelo armazenamento de água e filtragem de sedimentos, que associado com o calcário depositado nessa região alagada garantem a transparência e a qualidade da água”, aponta.

O problema é sério: para o pesquisador, com base nos resultados dos cenários futuros se a tendência atual de uso do solo continuar, a estimativa é de que até o ano de 2100 sua área será reduzida pela metade. “E essas mudanças na paisagem alterarão inquestionavelmente todo o ecossistema da bacia. Vale ressaltar que os impactos negativos na vegetação nativa, principalmente no banhado, influenciam diretamente o setor econômico das cidades de Bonito e Jardim, pois a preservação da qualidade ambiental da bacia do rio Prata é essencial para o desenvolvimento de atividades de ecoturismo”, expõe.

Como foi feito

O pesquisador explica que a análise das mudanças no uso e ocupação do solo entre os anos de 1986 e 2016 foi baseada em séries temporais de imagens dos satélites Landsat 5 e 8 e na análise de imagem baseada em objetos (Object-Based Image Analysis -OBIA).

“Em seguida, foi aplicado o estimador de transição markoviana nos mapas de 1999 e 2007 com objetivo de calcular a matriz de probabilidade de transição de uma classe de uso e ocupação do solo para todas as outras classes no ano de 2016”.

A pesquisa prosseguiu com a produção do mapa de probabilidade com 13 fatores naturais e socioeconômicos, definidos a partir da expertise do pesquisador e conhecimento da área de estudo, como canais de drenagem artificiais, focos de incêndio, desmatamento, estradas e etc.

“No módulo CA-Markov usamos como mapa base o ano de 2007 e os dados da probabilidade de transição do período 1999-2007 para simulação do mapa para ano de 2016 (mapa de referência). Além disso, foi empregado o mapa de adequação de transição com objetivo de otimizar o desempenho do modelo CA- Markov. O próximo passo foi a avaliação do mapa simulado para o ano de 2016 originado a partir do mapa de 2007. Para calibrar o modelo foi realizado um total de 30 testes. Por afim, com o modelo CA- Markov calibrado e validado, usando como base o mapa de 2016, foram simulados os cenários futuros de uso e ocupação do solo para os anos de 2033, 2050, 2080 e 2100”, explica Elias.

O que fazer

A conciliação das atividades agrícolas com a conservação ambiental se faz essenciais e imediatistas para reverter essa situação de degradação. “A  cooperação entre os setores governamentais, institutos de pesquisa e iniciativas privadas é crucial para a criação de ações com planejamento e gestão integradas; assim como a criação de uma unidade de conservação em toda região do banhado, para criar o potencial de preservação de seu ecossistema único e de fragmentos de vegetação nativa remanescente do  bioma Cerrado e Mata Atlântica”, afirma o pesquisador.

Elias destaca que a substituição da vegetação nativa pela agricultura, principalmente na área do banhado, também irá afetar as atividades turísticas desenvolvidas na bacia do rio Prata, sempre diretamente relacionadas à alta biodiversidade e qualidade da água, causando impactos na permanência do ecoturismo e na economia das cidades de Bonito e Jardim.

Recentemente, o pesquisador publicou alguns resultados na revista Environmental Monitoring and Assessment – “Mapping LULC types in the Cerrado-Atlantic Forest ecotone region using a Landsat time series and object-based image approach: A case study of the Prata River Basin, Mato Grosso do Sul, Brazil”. https://doi.org/10.1007/s10661-020-8093-9  .Outro artigo está em avaliação na revista Land Use Policy, em que o autor apresenta resultados dos cenários futuros de uso e ocupação do solo.

O projeto de pesquisa tem colaboração de pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS/Aquidauana) e ainda conta o apoio do Laboratório de Manejo e Conservação do Solo e Água e Laboratório de Matéria Orgânica, Microbiologia e Gênese do Solo, (UEMS/Aquidauana).

 

Texto: Paula Pimenta