UFMS tem equipe de liquenólogos brasileiros pesquisando na Antártica

Uma equipe de liquenólogos do Brasil já vem há quatro anos fazendo pesquisa na Antártica. Professores, pós-graduandos e graduandos da UFMS participam, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e outras oito instituições, do projeto “Evolução e Dispersão de Espécies Antárticas Bipolares de Briófitas e Liquens”, aprovado pelo Programa Antártico Brasileiro.

Professor Adriano Spielmann

O professor do Instituto de Biociências (INBIO) Adriano Spielmann e o pós-doutorando Marcos Junji Kitaura acabam de chegar de mais uma expedição ao continente gelado austral, onde estiveram por 23 dias acampados em fevereiro último, e de onde retornaram com mais 500 amostras do que é chamado pelo professor Adriano de “paraíso de um liquenólogo”. Isso acontece porque, na Antártica, os liquens são dominantes, tanto em número de espécies (cerca de 500) como em cobertura nas áreas livres de gelo.

O projeto é preconizado pela UnB – coordenado pelo professor Paulo Câmara, com direcionamento as briófitas-, e pela UFMS, onde os pesquisadores locais debruçam-se sobre os liquens, mini-ecossistemas resultantes de associações simbióticas entre fungos e algas, com importante papel ecológico e até medicinal, e que na Antártica são especialmente abundantes.

“Montamos um projeto para irmos e coletarmos juntos – briólogos e liquenólogos. Todo o material colhido recebe um número, é catalogado, secado logo após a coleta e vai ser entregue ao herbário da UFMS”, explica o professor Adriano Spielmann, responsável pela parte de coleta, reconhecimento das espécies e análise morfológica.

A proposta dos pesquisadores da UFMS é averiguar a veracidade do nome cientifico que está sendo dado às espécies, para saber se o comportamento e a distribuição geográfica delas estão de acordo com o que a literatura científica apresenta. “Dentro desse enfoque buscamos priorizar as espécies bipolares, ou seja, que têm um padrão de distribuição nos dois polos do Globo – Ártico e Antártico”, expõe o pesquisador.

Das cerca de seis mil amostras de liquens do herbário da UFMS, quase metade é proveniente da Antártica, compondo assim o maior banco de liquens do Brasil, e talvez um dos maiores da América Latina. Dessas unidades já foi retirado material testemunho para fazer estudo genético, e uma boa parcela já foi sequenciada.

Com cerca de 150 espécies de liquens bipolares, a proposta dos pesquisadores foi trabalhar nesse projeto com 20 espécies-alvo no período de três anos. Para definir quais seriam, o grupo escolheu as mais chamativas, as que pudessem ser reconhecidas em campo e as que pudessem ser coletadas mais facilmente.

Das espécies que se acredita serem bipolares, apenas seis tem a comprovação científica de que realmente o são. “Comparativamente se acreditava que por ter uma morfologia e uma química semelhante seriam a mesma. Por isso, aplicavam um nome de uma espécie que ocorria nos dois Polos, mas ainda faltava o veredito genético para atestar realmente que são similares. O que tem acontecido é que algumas espécie já confirmamos ter tem essa padrão de distribuição e outras não”, afirma.

Nesse processo, os pesquisadores descobriram pelo menos três espécies novas para a Ciência. “Havia um desconhecimento do aspecto genético dessas espécies que fazia com que as pessoas dessem o nome errado a elas e, dando o nome errado, se desconhecia o padrão de distribuição geográfica real que elas exibem”, diz o professor, que foi responsável pela descoberta de uma delas.

Esse foi o caso com o gênero Leptogium, que se pensava só haver uma espécie na Antártica, mas na verdade são cinco. O trabalho será publicado na The Lichenologist, um dos periódicos mais conceituados na área. “Nenhuma dessas espécies é bipolar, mas é um trabalho paralelo que acabou dando resultado”, completa o pesquisador.

Expedição

Apaixonado por liquens desde a graduação no Rio Grande do Sul, o professor Adriano Spielmann chegou a UFMS em 2010 para o pós-doutoramento com a professora Neli Honda (Instituto de Química), pesquisadora de referência internacional na área de liquens, que também ingressa o projeto.

No quadro de docentes do INBIO desde 2013, o professor conta ainda com a parceria da professora Aline Pedroso Lorenz Lemke, responsável pela análise genética das espécies, além de outros pesquisadores da graduação e pós-graduação.

Com o ganho de experiência, o grupo aproveita todos os momentos de tempo bom, já que ventos de até 160 quilômetros por hora ou nevascas fazem com que permaneçam por até três dias dentro das barracas sem condições de realizar coletas. O acampamento precisa ser autossuficiente, para isso os pesquisadores recebem comida e água da Marinha. No verão, saem cedo e voltam tarde, aproveitando a demora do anoitecer, que em muito favorece pesquisa.

“Quando conseguimos sair já nos direcionamos para determinados habitats onde essas espécies ocorrem – algumas preferem nitrogênio, que está abundante nas fezes de pinguins, por isso procuramos as pinguineiras. Outras achamos em rochas, sobre musgos ou outras formações locais”, diz o professor, que já esteve 14 vezes na Antártica.

Nessa última expedição, o grupo de 13 pesquisadores acampou na região do arquipélago Shetland do Sul, onde chegam por meio de navio e são lançados de helicóptero. No ano passado, eles passaram um mês na Patagônia e Terra do Fogo, com acampamento de 15 dias dentro do Parque Nacional Tierra del Fuego, na Bahia Lapataia, área montanhosa no extremo sul da Argentina.

Em meio ao continente mais preservado no Planeta, em mais de 14 milhões de quilômetros quadrados, o professor afirma ser superanimador poder pesquisar na Antártica, onde há liquens por todos os lados.

“Encontrar as espécies-alvo gera uma expectativa muito boa. É uma satisfação poder ver que o trabalho esta rendendo, principalmente quando se ama o que se faz. Vamos ter um bom banco de dados que não serve apenas as nossas pesquisas, mas é público e irá atender aos acadêmicos e demais interessados em Ciência por muitos anos”, finaliza.