Pesquisadores da UFMS participam de “Classificação de áreas úmidas do Brasil”

Regido pela água e pelo fogo, o Pantanal pulsa o ciclo da vida ao abrigar uma biodiversidade ímpar adaptada às nuances da inundação e da seca. A maior planície inundável em todo o mundo é um dos biomas que compõem o trabalho de pesquisa de “Classificação das áreas úmidas do Brasil”, comandada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas (INCT Áreas Úmidas ou Inau).

Em Mato Grosso do Sul, as pesquisas são encabeçadas por professores do Instituto de Biologia (Inbio) e Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Alimentos e Nutrição (Facfan) e ajudarão a compor a nova classificação a ser publicada.

Mata ciliar sem queima. Foto: Geraldo Alves Damasceno Junior

O projeto engloba várias ações de investigação em áreas úmidas no Pantanal. Entre as pesquisas estão a do professor Geraldo Alves Damasceno Junior (Inbio), que trabalhou a dinâmica e efeito do fogo em áreas de mata ciliar do rio Paraguai. O professor Arnildo Pott (Inbio) assumiu a distribuição e dinâmica sazonal de vegetação em diferentes habitats do Pantanal (MS). Já a professora Iêda Maria Novaes Ilha (Inbio) avaliou a ocorrência e distribuição de pássaros em campos alagáveis do Pantanal (MS), enquanto o professor Carlos Alexandre Carollo (Facfan) analisou o banco de extrato e plantas da região.

A proposta do Inau é congregar pesquisadores de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e de outras regiões do Brasil e do exterior, para realizar o levantamento e desenvolver um sistema para a classificação das áreas úmidas, de forma a contribuir para a elaboração de políticas públicas de conservação e manejo sustentável dos biomas.

Segundo o coordenador cientifico do Inau Áreas Úmidas, professor Wolfgang Junk “o estudo integrado permitirá produzir conhecimentos, levando em conta a realidade das áreas úmidas como planícies alagáveis e não retratos específicos de momentos de seca ou inundação”.

Pesquisador em áreas inundáveis, o professor Geraldo destaca que as áreas úmidas são um recurso estratégico por serem importantes fontes de água doce. “Então, para protege-los é preciso saber que recursos são esses, onde ocorrem e quais as características”, acrescentando que o projeto veio para fazer uma macro classificação dessas áreas úmidas e tentar prover para o Brasil um sistema que possa legislar em cima dessa classificação, com o intuito de proteger os recursos hídricos brasileiros.

Fogo x água 

A Planície inundável do Pantanal  tem cerca de 150 mil Km2 e desses, cerca de 140 mil estão no Brasil. O bioma tem curso de inundação anual, com uma fase cheia e outra seca, tudo bem pronunciado. Com estações úmida e seca, o período de cheia é bastante quente, e há grande produção de matéria orgânica, muita biomassa, que quando seca esturrica e vira combustível, facilitando o trabalho do fogo, corriqueiro em lugares de clima sazonal.

Rebrota pós fogo no rio Paraguai.
Foto: Fernando Alves Ferreira

A inundação e o fogo são filtros ecológicos, com efeitos em separado bem conhecidos pelos pesquisadores, mas o que ocorre quando trabalham junto foi a proposta levantada pelo professor Geraldo Damasceno. “Trabalhamos na área de mata ciliar do Rio Paraguai e Abobral – na base da UFMS. A ideia era averiguar o efeito do fogo na vegetação sujeita a inundação”, expõe.

Dentro do sistema de classificação das áreas úmidas que pegam fogo, o pesquisador aponta suas características, como essas áreas reagem ao fogo, o que acontece com as vegetações arbórea, herbácea e aquática, quais as espécies mais tolerantes, de rápida rebrota, quais as áreas úmidas sujeitas ao fogo, além de informações sobre o manejo – que tipo de atividade pode ser feita, se a queimada é permitida, com que intensidade e frequência.

“Verificamos que quando ocorre o fogo, combinado com a inundação, há restrição do número de espécies que conseguem nascer depois. Após o fogo, rebrota muita coisa nova. A inundação completa o papel do fogo, que mata as espécies, não as deixando nascer, ocasionando um efeito de limpeza nas áreas, o que diminui a quantidade a quantidade de espécies arbóreas”, explica.

Trabalhos mostram histórico de fogo há 12 mil anos no Pantanal, por isso o bioma é uma paisagem que está adaptada a sua ocorrência. De acordo com o professor Geraldo, são efeitos notáveis, mas que não necessariamente são prejudiciais a biota como um todo, sendo apenas uma dinâmica temporária.

Os estudos usam como base as imagens de satélite com histórico de fogo e a medição a posteriori dos efeitos. A queimada, afirma o professor, não é bem vista como instrumento de manejo, e pela legislação ambiental está em desuso. Contudo, eventos, episódios, como os fenômenos climáticos El Nino e La Nina, ocasionam falhas de chuvas proporcionando um ambiente muito quente, propício ao incêndio não provocado pelo homem.

Área queimada nas margens do Rio Paraguai. Foto: Fernando Alves Ferreira

A frequência da queima está assim atrelada também ao ano, ao regime de chuva e ao de cheia. “O Pantanal, de uma maneira em geral, pega bastante fogo, mas não sempre no mesmo lugar”, completa.

De acordo com levantamento da Universidade Federal de Goiás, entre 2002 e 2010, foram registrados de mil a 14 mil Km2 queimados por ano no Pantanal, com média anual de quatro a cinco mil Km2.

Os estudos demonstram que, comumente, a vegetação no Pantanal é sim resistente ao fogo. “Algumas espécies podem não ser beneficiadas, outras sim, mas o fogo não ocorre todo ano no mesmo lugar. Enquanto uma área descansa, aquelas espécies que seriam eliminadas pelo fogo voltam. Quando a inundação ocorre traz muitos nutrientes e sementes, dispersadas pela água, aves e peixes, é o efeito Nilo. A dinâmica do ambiente é muito viva, muito forte. O fogo em si não consegue deixar o sistema abalado”, conclui.

Sementes

Localização geográfica da área de estudo e limites das sub-regiões do Pantanal, Brasil. a Localização do Pantanal brasileiro na América do Sul, b sub-regiões do Pantanal, modificadas da Embrapa Pantanal (2009) e locais de amostragem c no satélite LANDSAT 5 imagem (INPE 2009). Brazilian Journal of Botany.

Com objetivo de estudar padrões de distribuição e dinâmica sazonal de tipos de vegetação lenhosa e herbácea de distintos habitats em relação a características de solo, níveis topográficos e respectivos níveis de inundação no Pantanal em Mato Grosso do Sul, o subprojeto coordenado pelo professor Arnildo Pott teve entre as principais ações a avaliação dos bancos de sementes em três níveis de campo natural em algumas regiões do Abobral, de Miranda e na mata ciliar do Rio Paraguai.

Publicação do professor Arnildo Pott e de outros pesquisadores em 1999 levantou a existência de 1.865 espécies de plantas no Pantanal. A nova listagem, em execução, apresenta 2.250 espécies, com suas formas, famílias, gêneros, funções, entre outras informações. “Em termos totais de riqueza de espécies, não é excepcional, porque o Pantanal é muito rigoroso. Não é qualquer planta que consegue se estabelecer lá”, diz.

A dinâmica significa essa mudança sazonal que ocorre durante o ano e também entre anos, de acordo com o pesquisador. “Alguns anos ocorre mais inundação, outros menos. A dinâmica tem esse componente de plantas que desaparecem em uma época, aparecem em outra, e existem as que estão sempre ali”, explica o professor Arnildo.

Um dos aspectos muito importante em conservação do Pantanal é a regeneração da vegetação, formas como ela consegue retornar depois de um distúrbio, seja ele inundação, fogo, pastoreio do gado, seca ou ações causadas pelo homem.

“Uma estratégia das plantas é a rebrota, a partir da base ou das gemas que sobreviveram. Outra forma importante é por sementes, que quando são liberadas pela planta, geralmente não germinam de imediato”, diz.

As plantas nativas geralmente germinam uma parte e o restante fica num estado chamado de dormente. As sementes se acumulam no solo, formando um banco, ou seja, uma reserva. Podem viajar de várias maneiras, sendo levadas pelas águas, cair das árvores, serem expulsas de frutos que explodem no calor, serem carregadas por animais, ou espalhadas pelo vento.

Proliferação

A pós-graduanda Francielli Bao, que trabalhou com campo de sementes no Abobral, recolheu, durante o Mestrado, tijolos de solo onde estava plantada Brachiaria há vários anos e pode constatar que depois de um quinquênio ainda havia muitas sementes no estoque.

Já no Doutorado, as bandejas foram postas nos tanques embaixo d’água pelo tempo simulado da inundação – três meses. Do solo silvestre emergiram plantas aquáticas. “Quando as bandejas são mantidas drenadas, nascem plantas que não são aquáticas. Isso acontece também na natureza, alternância entre as terrestres e as aquáticas, o que chamamos de banco de semente flex”, aponta o professor Arnildo.

Para a pesquisa foram tiradas sementes em três níveis: pouca, média e grande profundidade, conforme a inundação. “Havia espécies comuns as três áreas – isso mostra que nos anos que enche menos as sementes de cima, que foram parar embaixo, tem chances de germinar. Já quando a cheia é maior, a reserva de sementes de aquáticas pode aparecer, é um jogo oportunista”.

Os pesquisadores conseguiram encontrar em mostras de dez centímetros sementes vivas, algo que deve ter levado cerca de dez anos para constituir o depósito.

Os baceiros – vegetação flutuante – acumulam muitas sementes e são bastante presentes no Pantanal. Algumas plantas aquáticas só florescem com a baixa da água – quando sentem que está chegando seu fim – e esse princípio da fisiologia vegetal é usado em produção agrícola, como no plantio de frutas no Nordeste, segundo o professor Arnildo.

Na segunda fase do Doutorado, Francielli Bao utilizou outro método de contagem de sementes do solo, a triagem, feita a partir da lavagem do solo, com peneiras de diferentes tamanhos, que permitem separar as sementes e depois contar as espécies presentes.

“Ambos métodos são difíceis, porque não germina tudo, já que sempre há um estoque dormente e na triagem existem as sementes que não são mais viáveis”, completa o professor.

Surpreendeu os pesquisadores o fato de em um campo inundável, que foi arado, e onde plantou-se a espécie africana Brachiaria humidicula, que tende a excluir as outras plantas por meio da alelopatia (guerra química no solo, causada por algumas plantas dominantes que inibem a germinação ou o crescimento de outras), as plantas germinarem. “Depois de cinco anos ainda existe a capacidade de recuperação da vegetação nativa, isso se chama resiliência”.

O pós-graduando Thiago Kohagura trabalhou em outro banco de sementes em floresta ripária (mata ciliar). Entre as poucas árvores que nasceram na bandeja colhida, somente apareceram espécies pioneiras, que são as primeiras colonizadoras, apontando mais uma estratégia da natureza: primeiro cobrir o solo, para depois as espécies florestais se estabelecerem.

“Uma das árvores é a embaúba, grande alimento para a fauna. Onde nasce uma árvore ocorre a nucleação, nascendo outras plantas a seu redor. Depois vem as trepadeiras, até retomar a floresta”, explica Arnildo.

Prova disso são as beiras do Rio Paraguai e outros rios do Pantanal, que abrigaram roças nos anos 1980, depois proibidas. As áreas se regeneraram, segundo o professor Arnildo, não deixando muitos vestígios do que um dia houve de desmatamento no local.

Paula Pimenta