Foto: www.caliandradocerrado.com.br

Pesquisadora valida conhecimento popular em ação anti-inflamatória e anti-hiperalgésica da casca de raiz de pequi

Casca da raiz de pequi

Pesquisa etnobotânica e farmacológica conseguiu validar informação popular de utilização da casca da raiz do pequi como anti-inflamatório e anti-hiperalgésico.

Fruto de dissertação de Mestrado, a pesquisa nasceu da procura de uma moradora do bairro Jardim Noroeste (Campo Grande) a pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Alimentos e Nutrição (FACFAN), que descreveu o uso de extrato de casca da raiz do pequi por ela, familiares e vizinhos, como forma de reduzir dores e o processo inflamatório em articulações, na coluna, após atividades, entre outras situações.

A utilização dessa planta tão rica do Cerrado, que até então não dispunha de descrição literária comprovatória, levou a mestranda do Programa de Biologia Vegetal Ellen Maciel a validar o conhecimento na dissertação “Etnofarmacologia da utilização da casca da raiz do pequi (Caryocar brasiliense Cambess.) como anti-inflamatória e anti-hiperalgésica”.

“O pequi é uma espécie arbórea utilizada pelas comunidades locais tanto na alimentação quanto por seu potencial medicinal no tratamento de dores e inflamações. Apesar da vasta utilização popular, pouco se conhece sobre seus compostos químicos e potencial medicinal, assim, tendo como premissa que a casca das raízes do pequi são utilizadas popularmente na forma de macerados a frio e utilizadas para combater a dor e processos inflamatórios”, expõe a mestranda.

Processo

Mestranda Ellen Maciel e o orientador, professor Carlos Carollo

Para a pesquisa, a mestranda reproduziu em laboratório o modo do preparo dos populares do Jardim Noroeste. Colheu a raiz do pequi, retirou a casca, higienizou e depois depositou um punhado em garrafa de vidro.

Esse preparado é consumido três vezes ao dia, durante uma semana, quando os populares o renovam, com a utilização de outro punhado da casca da raiz do pequi, repetindo o consumo até o completo desaparecimento das dores.

“Nós fizemos nove extrações, uma a cada 24 horas. Percebemos que durante o tempo de uso popular a composição química não era alterada, sendo a mesma do primeiro ao sétimo dia na geladeira, quando o preparado começava a se deteriorar e era preciso fazer um novo. Eles realmente sabiam o que estavam fazendo”, explica a pesquisadora Ellen Maciel.

A partir do extrato, a mestranda analisou as propriedades químicas e realizou testes farmacológicos, em parceria com o LABFAR – coordenado pela professora Mônica Kadri, para averiguar a atividade anti-inflamatória e a anti-hiperalgésica que foram comprovadas, assim como a forte ação antioxidante da raiz do pequi.

“Esse trabalho vale como uma validação da informação popular e é um indicativo que essa planta realmente possa ter essas atividades”, afirma o professor e orientador Carlos Alexandre Carollo (FACFAN).

A toxicidade aguda foi realizada pelo professor Edson Lucas dos Santos da UFGD, pelo método C. Elegans, helmintos (vermes endoparasitas) com capacidade de simular uma possível toxicidade. Enquanto as pessoas consomem o equivalente a 16 mg/kg do extrato por dia, os helmintos receberam até mil miligramas, em testes de 24 e 48 horas, não tendo sido registrada qualquer nível tóxico.

“Após este teste, escolhemos um tempo de extração, o terceiro dia, preparamos um extrato para testar nos animais por meio de gavagem, com o extrato liofilizado (remoção da água sem nenhuma degradação)”, explica a mestranda.

O teste em animais mostrou que o extrato podia inibir processos inflamatórios. “O processo inflamatório é um processo continuo celular, se conseguimos inibir esse processo de ocorrer, então inibimos ou minimizamos a inflamação que já ocorre no organismo”, afirma o orientador.

Mesmo com o permanência da raiz na garrafa de água por uma semana, a pesquisadora confirmou que não há aumento de concentração ou degradação dos compostos. Com 24 horas, a casca libera toda a sua capacidade e se mantém assim por sete dias.

“Temos um experimento que induz uma inflamação. Na utilização de um anti-inflamatório comercial há uma redução e quando se testa o extrato nas doses usadas pela população, vemos uma atividade similar ao produto comercial. Ou seja, estatisticamente está igual”, coloca o professor.

Da mesma forma, o extrato ainda reduziu em 60-70% contrações de dor nos animais, o que os pesquisadores descreveram como um excelente resultado.

Conhecimento

O professor Carlos Carollo enfatiza que o conhecimento tradicional se perde a cada dia. “Se essa senhora não tivesse tido a iniciativa de vir a Universidade, de relatar esse problema, tinha falecido e o conhecimento tinha se perdido”, expõe.

Carollo explica que o conhecimento popular acelera muito as descobertas. “Se formos pegar uma planta aleatoriamente para estudo, de cada cinco mil compostos isolados, conseguiremos gerar um novo medicamento (0,02%), mas quando usamos informações que vem da população esse número aumenta para 8%, então de cada 100 plantas, podem ser gerados oito novos medicamentos”, completa.

O conhecimento foi catalogado, comprovado e vai permanecer e transcender esse ciclo de utilização popular. “Por isso, sempre falamos da importância da etnobotânica e da farmacologia na preservação do conhecimento”, enfatiza o professor.

Contudo, o pesquisador lembra que apesar de as plantas terem grande aceitação pela população, por acreditarem que é algo muito seguro, é preciso se fazer um alerta, porque o fato de ser algo natural ou fitoterápico não implica completa segurança no consumo.

“Um próximo estudo é verificar como esse extrato é metabolizado, porque uma coisa é ver a atividade, outra é analisar o que foi realmente consumido, absorvido, aonde isso chegou e como foi eliminado, ou seja, ver a metabolização do extrato no organismo”, completa o professor.