Pesquisa propõe inovação sustentável ao estudar o fenômeno da ação pelo bem maior

A premissa de que a sustentabilidade é essencial para os comportamentos e negócios, sejam eles pessoais, estatais ou corporativos, fixou-se com maior propriedade nos últimos anos e nas últimas gerações. Mas ainda há um grande gargalo entre o querer e o fazer.

No caso da sustentabilidade, indicadores apontam que cerca de 80% das pessoas concordam, aceitam ou a encorajam, porém 20% ou menos de fato tem um comportamento sustentável.

Professora Adriane, em palestra

“A lacuna entre consciência e ação é uma característica clássica observada no comportamento humano”, explica a professora Adriane Angélica Farias Santos Lopes de Queiroz, da Escola de Administração e Negócios (Esan) e do Programa de Pós-graduação em Eficiência Energética e Sustentabilidade, coordenadora do projeto de pesquisa “Capacidade de Inovação Sustentável”.

Recém-chegada do Pós-Doutorado na Universidade da Virgínia (Estados Unidos), a professora teve como problema inicial entender o porquê de muitas (e boas) ideias direcionadas para a sustentabilidade não resultarem em desempenhos satisfatórios quando postas em prática.

“Por que a implementação de soluções para o desenvolvimento sustentável não tem sido suficiente para uma mudança de fato no comportamento sustentável? Na engenharia, por exemplo, temos presenciado inúmeras soluções sendo levadas à prática por pesquisadores e profissionais engajados com a ideia de um mundo mais sustentável. São soluções tecnicamente melhores para o planeta, para as pessoas e que também consideram a viabilidade econômica; mas que não encontram adesão suficiente para uma mudança ou impacto significativos”, aponta a pesquisadora.

Por isso, se fez importante conhecer e melhor entender a capacidade de inovação sustentável e que fatores a influenciam. Na Universidade da Virgínia, a professora Adriane trabalhou em laboratório que tem como unificador de pesquisa a ciência do comportamento.

Laboratório de Inovação – University of Virginia – UVA

“Pude nessa oportunidade conhecer uma nova abordagem, uma nova forma de olhar para essa questão a partir da ciência do comportamento. Na primeira fase fui entender, conceitualmente, como grupos de pesquisa mais experientes do que os nossos estão discutindo os temas inovação sustentável e comportamento sustentável”, expõe.

Depois dessa primeira etapa, o projeto foi reconfigurado e o que surgiu de novo foi observar um fenômeno chamado pela pesquisadora de “ação pelo bem maior”.  “Comecei a olhar (para o processo de implementação da inovação sustentável) em um nível micro de análise. Indivíduos que, a partir do seu conhecimento na área de sustentabilidade, exercem influência na transformação para um estilo de vida mais sustentável”.

A proposta foi observar e entrevistar pessoas que, desvinculadas de organismos públicos ou grandes corporações, tomam a iniciativa para o bem maior “e entender o fenômeno a partir da experiência dos participantes”, afirma Adriane. São pessoas que procuram, de forma responsável, acrescentar valor nessa transição para a sustentabilidade.

E por que “ação para o bem maior”? Porque geralmente a sustentabilidade está muito associada a uma agenda social, segundo a pesquisadora, e estudar as condições sobre as quais soluções sustentáveis são implementadas, a partir de iniciativas da sociedade civil, pode ajudar na ampliação da pesquisa sobre transição para a sustentabilidade e gestão dos impactos sociais.

“Se olharmos para os 17 objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (ONU), vemos o foco no uso sustentável dos recursos finitos existente no planeta, mas vemos também junto com isso uma visão comum para a humanidade, uma agenda social a ser alcançada”, diz Adriane.

Para esse estudo, foi feito então um recorte da introdução da solução sustentável junto a comunidades vulneráveis. No pós-doutoral, a professora entrevistou, no Brasil e nos Estados Unidos, profissionais que têm domínio na área de sustentabilidade e que tiveram essa iniciativa de levar o seu conhecimento para adicionar valor junto a essas comunidades.

Foram entrevistados dois grupos de profissionais da sustentabilidade: jovens e maduros. Como exemplos, tem˗se o caso de uma engenheira aposentada de uma grande empresa norte americana, que se juntou a uma iniciativa missionária de levar amor e cuidado às comunidades vulneráveis em países mais pobres. Seu propósito era levar o seu conhecimento e experiência em construções sustentáveis para apoiar essas comunidades na transição para um modo de vida mais sustentável.

Professora Adriane em apresentação de resultados de pesquisa em workshop

Outro exemplo, um experiente executivo que decidiu migrar de sua carreira bem sucedida na área de qualidade e uso da água para levar sua experiência e conhecimento investindo na implementação de soluções sustentáveis no uso da água junto a comunidades vulneráveis na África.

Já dentre os jovens entrevistados, está o mobilizador de uma iniciativa relacionada à solução sustentável junto às populações que vivenciam os efeitos causados por desastres naturais, como furacões e tornados; este, um aluno de Doutorado em Engenharia, vencedor do título 30 under 30 (os 30 melhores com menos de 30 anos, escolhidos entre jovens potencialmente capazes de influenciar a mudança para a sustentabilidade).

Modelo mental

O estudo trata da necessidade de reconfigurar um modelo mental, por isso, trabalha-se na ciência do comportamento. Mesmo diante da preocupação com a sustentabilidade – seja nas empresas, corporações, governo, instituições – foi construído, de acordo com a pesquisadora, um distanciamento muito grande entre o que se pode fazer e o que de fato, lá na ponta, precisa ser feito, gerando um excesso de complexidade.

“Por isso escolhemos a comunidade vulnerável como objeto de estudo, talvez essa seja a unidade mais distante de toda a discussão sobre as melhores alternativas e abordagens para a implementação de soluções sustentáveis. Temos visto que o modelo mental que precisamos reconfigurar não vem fácil e exclusivamente dos esforços realizados em prol das inovações com foco em sustentabilidade, não basta a experiência técnica e especializada recomendar “faça assim porque é o certo”, porque muitos não irão fazer, especialmente grupos mais vulneráveis. Então estamos insistentemente buscando a resposta para a pergunta: o que tem por trás de fazer isso dar certo?  E parece que colocar o seu melhor a disposição do bem maior, realmente está sendo uma boa forma de responder à demanda global de transitar para um mundo mais sustentável, e esperamos que mais pessoas ponham isso em ação”.

Produtos

Professora Adriane com o grupo de pesquisa (CBSI) na UVA

A pesquisadora vislumbrou um horizonte de mais longo prazo para entender melhor essa questão, escolhendo a metodologia chamada Grounded Theory – em que se aprende observando o fenômeno a partir da experiência dos participantes; é assim que a teoria surge dos dados. “O primeiro produto foi uma discussão que estamos chamando de tentative model. Teoricamente, é uma tentativa de explicar como os participantes (especialistas em sustentabilidade) continuamente incorporam novas soluções em um modo de vida mais sustentável, gerando impacto social significativo. E, para melhor qualificar o desdobramento dos resultados, estamos buscando levantar recursos para atender a convites de participação em oficinas de trabalho que têm como foco a publicação de artigos em revistas científicas importantes na área, como o workshop da Organization Studies, que acontece em maio na Grécia”.

Vários grupos de fora da UFMS estão interessados em ouvir essa experiência – e já o fizeram como debates no Café com Negócios, no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul (Crea-MS) e no Living Lab (Sebrae). “São atores que estão buscando melhor compreender como causar impacto social, reconfigurando os seus negócios ou empreendendo, nascendo de uma forma justa, correta, sustentável”, diz Adriane.

Os resultados estão também alinhados com outros aspectos de interesse da UFMS, segundo a pesquisadora, como a internacionalização, a formação de network, reconfigurações nas disciplinas de graduação e pós-graduação.

Ao recém concluir o curso English as a Medium of Instruction (EMI), que tem como proposta fortalecer a internacionalização institucional, com aulas em língua inglesa na graduação e na pós-graduação, a professora quer inserir essa nova visão nas aulas que tratam de sustentabilidade.

“Também queremos abrir mais as portas para a sociedade. Para isso temos um projeto de extensão com a professora da Faeng Fabrícia Rossato, que tem como proposta auxiliar as organizações do terceiro setor. Além de um projeto de pesquisa sendo discutido com o centro de inovação da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A disciplina estratégia empresarial na graduação terá um novo formato com oficinas, em que o aluno terá a chance de desenvolver habilidades como a liderança responsável em um laboratório de estratégia”, explica.

Para Adriane, a nova geração já nasceu entendendo que a sustentabilidade faz parte da realidade. “A nossa intenção é amplificar essa ideia de que precisamos, indivíduos e organizações, adotar um comportamento sustentável, que reflita em benefícios para o outro e para o planeta, e que isso é possível quando indivíduos competentes e responsáveis tomam uma posição nessa direção”.

Paula Pimenta