Laboratório avança na integração de novas tecnologias ao ensino de Arquitetura e Urbanismo

Imersão com pesquisadora referência na área direciona novas ações de ensino, pesquisa e extensão e fortalece a implementação do BIM na formação acadêmica

Depois de um período dedicado à implantação da estrutura, experimentações tecnológicas e desenvolvimento das primeiras pesquisas, o Laboratório de Modelagem da Informação da Construção (Lab.BIM) da UFMS entra em uma nova etapa. O grupo trabalha agora para consolidar as frentes de pesquisa, ensino e extensão e avançar na implementação do BIM na formação dos estudantes de Arquitetura e Urbanismo.

O movimento ganhou impulso com dois dias de imersão realizados em 20 e 21 de agosto. Pesquisadores do Laboratório estiveram reunidos para analisar o percurso já realizado, discutir os estudos em andamento e definir caminhos para os próximos ciclos de trabalho. As atividades tiveram a mentoria da professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Regina Coeli Ruschel. Regina é pesquisadora com ampla trajetória na área de BIM.

Para a coordenadora do Lab.BIM, professora Mayara Dias, o encontro permitiu olhar criticamente para o que já foi construído e, a partir disso, estabelecer novas perspectivas. “A imersão também foi um espaço para pensar coletivamente o futuro do Lab.BIM: quais caminhos seguir, quais pesquisas fortalecer, quais novas frentes explorar, como ampliar as conexões entre os pesquisadores e como transformar os resultados já alcançados em novas oportunidades de pesquisa, ensino, extensão e inovação, especialmente no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMS.”

Da experimentação à consolidação

Implantado na Cidade Universitária, o Lab.BIM reúne ensino, pesquisa e inovação e foi concebido para conectar graduação, pós-graduação, extensão e sociedade. O espaço dispõe de computadores de alto desempenho, impressora 3D, drone, kits Arduino e projetor, utilizados em modelagens, simulações, levantamentos, processamento de dados, prototipagem e outras experimentações.

BIM, sigla em inglês para Modelagem da Informação da Construção, compreende processos e tecnologias que permitem criar, utilizar, atualizar e compartilhar de maneira colaborativa modelos digitais de uma construção ao longo de seu ciclo de vida. Entre as possibilidades estão a integração de diferentes etapas e especialidades de um projeto e a identificação antecipada de problemas.

Desde a implantação, estudantes têm participado de reuniões, mentorias, projetos de pesquisa e atividades práticas. O Laboratório também desenvolve ações de extensão para ampliar o diálogo sobre BIM e transformação digital da construção civil e aproximar universidade, profissionais e setor produtivo.

A nova etapa, segundo Mayara, parte justamente dessa experiência acumulada. A mentoria possibilitou aprofundar as pesquisas e rever alguns dos caminhos que vinham sendo percorridos. “A professora Regina, com toda a sua experiência e olhar atento para o ensino, trouxe contribuições muito relevantes e, ao mesmo tempo, provocadoras. As discussões nos ajudaram a aprofundar nossas pesquisas, analisar de forma mais crítica o diagnóstico já realizado sobre as disciplinas do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMS e, principalmente, vislumbrar caminhos para a implementação do BIM em diferentes componentes curriculares. Sua experiência contribuiu também para ampliar nossa percepção sobre os desafios e as possibilidades dessa implementação, pensando o BIM não apenas como uma ferramenta, mas como uma abordagem capaz de promover maior integração entre as disciplinas e fortalecer a formação dos estudantes. Foi uma troca muito rica, que certamente vai reverberar nos próximos trabalhos e nas discussões sobre a inserção do BIM na graduação.”

BIM dentro da formação

Um dos eixos centrais do trabalho foi o desenvolvimento dos objetivos de aprendizagem BIM para as disciplinas que integram o plano de implementação curricular. Professores e estudantes trabalharam conjuntamente na estruturação de competências e quadros pedagógicos, relacionando os conceitos às práticas de projeto, representação digital e conforto ambiental.

Regina destaca que a participação dos estudantes foi um dos aspectos que mais chamaram sua atenção. “Essa prontidão em converter conceitos em propostas curriculares concretas demonstrou o preparo do grupo para a disseminação do ensino de BIM na instituição.”

A mentoria também possibilitou aproximar fundamentação metodológica e aplicação prática. Segundo a pesquisadora da Unicamp, a experiência contribui para estruturar problemas de pesquisa relacionados à incorporação do BIM no ensino de Arquitetura e elevar as competências dos integrantes do Laboratório. Para Regina, o trabalho desenvolvido na UFMS teve ainda outra dimensão: permitiu validar e aprimorar o protocolo de pesquisa que desenvolve, testando sua eficácia “em um ambiente acadêmico estruturado para replicação em escala nacional”.

Entre as discussões que considera mais promissoras, a professora ressalta a diferenciação e, ao mesmo tempo, a aproximação entre arquitetura digital e BIM. Enquanto a arquitetura digital está relacionada à geração da forma, otimização geométrica e fabricação digital, o BIM se volta à gestão da informação e à integração ao longo do ciclo de vida de um ativo.

“A convergência entre ambas exige um enfoque rigoroso na definição dos requisitos de informação e na validação de modelos. Essa perspectiva direciona a proposição do plano de implementação BIM curricular pelo grupo para um patamar de maturidade alinhado aos padrões e desafios contemporâneos da área”, afirma.

Diferentes olhares para um mesmo laboratório

Para os estudantes que integram o Lab.BIM, os dois dias também permitiram relacionar as pesquisas individuais aos objetivos mais amplos do grupo.

Mariana Oliveira Abrahão está no sexto semestre de Arquitetura e Urbanismo e conta que passou a compreender melhor o próprio propósito do Laboratório. “Pudemos discutir entre professores e alunos a implementação BIM no curso e perceber as dificuldades e os caminhos pela frente.” A estudante também passou a enxergar sua pesquisa para além da automação, percebendo possibilidades de utilização das tecnologias para facilitar a compreensão e a visualização de conteúdos e aproximar os alunos dessas ferramentas desde o primeiro ano do curso.

Para o estudante do décimo semestre, Robson Luiz Matiussi Junior, a experiência evidenciou as transformações que já ocorrem na atividade profissional. “A imersão nos deu um panorama geral das tendências do mercado de trabalho de arquitetura, engenharia e construção no que há de mais avançado tecnologicamente.” Segundo ele, as discussões também permitiram identificar certa distância entre ensino e prática profissional e pensar adaptações em conteúdos e metodologias das disciplinas.

Cursando o sexto semestre, Thiago de Souza Maram, destaca a possibilidade de compreender melhor as aplicações do BIM na formação acadêmica, da utilização de drones em levantamentos à prototipagem e à identificação de conflitos nas diferentes etapas de um projeto. A diferenciação entre arquitetura digital e BIM também foi um dos aprendizados que pretende incorporar à continuidade de sua pesquisa.

Pedro Dias Lourenço Gil está no quarto semestre do curso e considera que a experiência trouxe maior clareza sobre os objetivos do próprio trabalho. “Consegui alinhar completamente os propósitos da minha pesquisa e entender, com muito mais clareza, a direção que quero seguir daqui para frente.” Para ele, esse direcionamento alcança o grupo como um todo e permitirá desenvolver as pesquisas com maior eficiência.

A estudante do sexto semestre Yasmim Nunes da Cunha ressalta outra mudança de perspectiva. “O workshop ampliou meu olhar para além da perspectiva de usuária, permitindo entender como utilizar o BIM, quais ferramentas podem ser empregadas e por quem.” Segundo ela, a experiência mostrou ainda que o BIM vai muito além da utilização de softwares e ampliou a compreensão sobre suas possibilidades de implementação nas pesquisas acadêmicas.

Desafios para avançar

A consolidação desse processo, porém, envolve desafios que ultrapassam o próprio Laboratório. Regina aponta como questões fundamentais a ampliação do engajamento do corpo docente para que o BIM seja integrado transversalmente ao currículo, a renovação contínua da infraestrutura computacional, a incorporação de tecnologias da Construção 4.0 e a adequação dos espaços físicos para metodologias colaborativas e ativas de aprendizagem.

“A viabilização dessas transformações não é responsabilidade individual dos professores, mas sim um compromisso estratégico e estrutural da própria instituição”, enfatiza. Nesse cenário, a pesquisadora vê a oportunidade de o Lab.BIM atuar como catalisador da modernização, aproximando a formação acadêmica das transformações digitais da indústria da construção.

O Laboratório da UFMS integra o Projeto Célula BIM – Construa Brasil, iniciativa voltada a apoiar instituições de ensino superior na implementação e consolidação do BIM em seus cursos. Na Universidade, esse processo também dialoga com a atualização curricular da graduação em Arquitetura e Urbanismo e com pesquisas desenvolvidas na pós-graduação.

Para Mayara, os próximos passos já começam a ficar mais definidos. “Temos algumas frentes mais claras de pesquisa, ensino, extensão e articulação institucional, além de uma visão mais compartilhada sobre onde queremos chegar. A imersão abriu novos caminhos, mas, principalmente, fortaleceu a ideia de que o Lab.BIM precisa continuar crescendo de forma coletiva, integrada e conectada às demandas reais da Universidade e do setor”, finaliza.

 

Texto: Vanessa Amin

Fotos: Vanessa Amin/Acervo do Lab.BIM