Foto: SOS Pantanal

Capes – PrInt: Ecologia investiga e debate os efeitos de mudanças climáticas e nos usos do solo sobre a biodiversidade

Exuberante, com uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta, regido pelas nuances da inundação e da seca, o bioma Pantanal sofre as consequências das ações antrópicas que ignoram sua biodiversidade e importância ecológica ímpares.

Essa realidade preocupante uniu cerca de 50 pesquisadores brasileiros e estrangeiros no Programa Institucional de Internacionalização (PrInt), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), no projeto de pesquisa “Mudanças climáticas e no uso do solo: em direção ao entendimento dos efeitos antrópicos e do aumento de temperatura na biodiversidade do Pantanal”, coordenado pelo Programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação (PPGEC) da UFMS.

A proposta é criar uma rede internacional de síntese e predição sobre o efeito das mudanças climáticas e de uso do solo sobre as diferentes escalas da organização biológica, orientada em quatro eixos independentes de síntese em ecologia:  “Limiares ecológicos taxonômicos e funcionais”, “Redes de interação entre espécies”, “Mudanças climáticas: predições micro-experimentais” e “Mudanças climáticas: extrapolação para paisagens”.

“A pergunta geral é como o homem está relacionado às mudanças do uso do solo, nas mudanças que promove na paisagem para a agricultura e, a partir daí, identificar como essas mudanças climáticas afetam esses quatro eixos”, explica o coordenador do projeto, professor Luiz Gustavo Rodrigues Oliveira Santos.

Na defesa do projeto, os pesquisadores apontam que a conversão de áreas naturais em paisagens antropizadas está criando um mosaico de ambientes com diferentes usos do solo e remanescentes de habitat naturais desconectados, suscetíveis as mudanças quanto às condições e aos recursos disponíveis. “Ao longo dos anos, tem se observado alterações bruscas quanto à perda de espécies em paisagens fragmentadas associadas especialmente às limitações impostas sobre as espécies e suas interações, com valores críticos de alteração além dos quais muitas espécies são perdidas”.

Outra importante perturbação, segundo os pesquisadores, é proveniente da mudança no clima do planeta. “Como um estressor crônico, mudanças climáticas podem alterar o comportamento e as características fisiológicas de espécies, com efeitos sobre a natureza e força das interações entre elas e sobre o funcionamento dos ecossistemas.  Em última instância, podem ocorrer colapsos de comunidades locais e mudanças de distribuição geográfica das espécies, que se deslocariam para novas zonas termicamente adequadas”.

O projeto prevê ainda a criação de um banco de dados de livre acesso sobre respostas de espécies e comunidades às mudanças climáticas e usos do solo na Bacia do Alto Paraguai.

Pelo banco de dados será possível “identificar sinais precoces que antecedem perdas funcionais ou a extinção local e regional de espécies na região da Bacia do Alto Paraguai. Do ponto de vista de avanços no entendimento de biodiversidade e serviços ecossistêmicos, os estudos provenientes desta base de dados poderão conectar diferentes áreas do conhecimento, como metacomunidades, filogeografia, genética de paisagem, ecologia de movimento, estequiometria ecológica, macroecologia, biogeografia, biologia da conservação e ecologia da restauração”.

Cada grupo será composto de diversos pesquisadores brasileiros e estrangeiros, além de doutorandos, que irão se reunir em 12 workshops, sendo oito no Brasil, um a cada semestre, quatro no exterior, dois nos Estados Unidos e dois na França.

Abrangência mundial das instituições em rede no projeto de síntese ecológica PrInt-UFMS-Ecologia. Arte: Luiz Gustavo Rodrigues Oliveira Santos

Irão compôs os grupos de trabalhos pesquisadores do Japão, Austrália, Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Argentina, África do Sul, Israel, França, Alemanha, Holanda, Reino Unido, Bélgica e Dinamarca.  “Somos muitos pesquisadores – 47 ao todo, porque a proposta da Ecologia vem com tendências mundiais de juntar pessoas com diferentes habilidades, sobre a mesma temática para fazer grupos de sínteses”, expõe.

Participam pelo PPGEC os professores Rafael Dettogni Guariento, Erich Arnold Fischer, Mauricio de Almeida Gomes, Diogo Borges Provete, Andréa Cardoso de Araujo, Letícia Couto Garcia, Geraldo Alves Damasceno Junior, Danilo Bandini Ribeiro, Fabio de Oliveira Roque, Franco Leandro de Souza, Luiz Eduardo Roland Tavares, Diego José Santana Silva e Fernando Paiva; da Pós Graduação em Bioquímica e Biologia Molecular, a professora Carla Santos de Oliveira e do Programa de Pós Graduação em Tecnologias Ambientais, Paulo Tarso Sanches de Oliveira e Johannes Gérson Janzen.

“A proposta é produzir sintetizes científicas com base em bancos de dados, direcionar e incorporar novas ações e gerar orientação teórica para propostas de investigação por alunos de doutorado e pesquisadores em estágios de pós-doutorado”, segundo o coordenador.

O orçamento abarcará passagens e diárias para os pesquisadores para realização dos grupos de trabalho, tanto de estrangeiros como brasileiros, além de bolsas sanduíche para estudantes de doutorado.

Início dos trabalhos

No próximo mês de maio será realizado o workshop “Transições sustentáveis de sistemas socioecológicos em interfaces de áreas protegidas e não-protegidas – troca de experiências entre países do Hemisfério Sul” com recursos do PrInt, CASEST (https://casest.hypotheses.org) e da Capes-Cofecub (Brasil – França), organizado pela UFMS e a Université d’Angers.

O workshop reunirá pesquisadores do Brasil, França, Colômbia, Zimbábue e África do Sul. “Esse evento surgiu de uma parceria que já temos há algum tempo com pesquisadores da França, em projeto sobre como conciliar a produção de alimentos no mundo e a conservação da biodiversidade, com foco nas áreas neotropicais do planeta, basicamente em países do Hemisfério Sul”, explicam os professores Fabio de Oliveira Roque (UFMS) e Pierre Cyril Renaud (Université d’Angers), coordenadores do workshop.

Com a reunião dos pesquisadores no Inbio, será possível discutir frameworks sobre a possibilidade, ou não, da conciliação de produção de alimentos e conservação da biodiversidade. “Espera-se essa aproximação de pesquisa, a mobilidade de estudantes nesses países localizados no Hemisfério Sul, produção cientifica colaborativa e estreitamento dessas relações internacionais”, completa Fabio.

O workshop, com início em 27 de maio, trará palestras abertas ao público em geral e uma roda de conversa com algumas ONGs que trabalham nessa interface da produção de alimentos e conservação.

As palestras de abertura serão ministradas por Pierre-Cyril Renaud, da Université d’Angers, que abordará o projeto Casest, com compartilhamento de experiência sul-sul e Christo Fabricius da ONG World Wide Fund for Nature (WWF), com o tema “Interface e ciências da sustentabilidade: novidades para uma palavra em mudança”.  Haverá ainda conversas com convidados de ONGs como a WWF, Wetlands International, Homem Pantanairo, SOS-Pantanal, Neotropica do Brasil e um momento mais descontraído, com os pesquisadores debatendo suas pesquisas em um bar de Campo Grande. Alguns pesquisadores participarão ao final do encontro de viagem para campo, para o planalto da Bodoquena e Pantanal, em visita a áreas que estão sendo estudadas conjuntamente.

“Um dos objetivos é escrever artigos colaborativos. Temos grupos de trabalho dentro de cada eixo para tentar entender como as mudanças de uso do solo, paisagem, podem impactar a biodiversidade e como reverter isso, diminuir esse tipo de impacto. Particularmente, estamos interessados nessa conciliação de produção de alimentos e conservação da biodiversidade, que é talvez o grande desafio da humanidade”. Os pesquisadores discutem sobre as transições sustentáveis. Esse é um dos grandes temas transversais da universidade, aponta Fabio, já que Mato Grosso do Sul está em uma região onde a produção agropecuária é bastante intensa.

“Esse tema é importante não só pelo ponto de vista de pesquisa, mas de influência da informação na região. Às vezes, temos um parque nacional com áreas protegidas e no entorno áreas não protegidas, geralmente usadas para a produção agrícola, ou para áreas urbanas, ou outras atividades. Então, temos de entender melhor como se dá essa relação entre áreas protegidas e não, em termos de benefícios e também de serviços e desserviços”, completa o pesquisador.

Nesse eixo particular do uso de solo estão previstos pelo menos mais dois workshops – um que deverá focar mais em questões urbanas e biodiversidade e o outro no papel do fogo nessa diversidade ecológica.

“Estamos pegando as grandes pressões da humanidade na biodiversidade, como mudanças climáticas, questões urbanas, produção agrícola e de alimentos, entre outros. São questões dentro das metas de sustentabilidade das Nações Unidas para 2030. Por isso, é um workshop que está bem alinhado com as grandes demandas de sustentabilidade globais, não é só regional, e tem essa identidade Sul-Sul”, completa Fabio.

Em junho acontece a conferência  Movement Ecology Brazil 2019, (https://ecomovbrasil.wixsite.com/home) que terá como palestrantes principais Luca Borger, da University of Swansea (Reino Unido), James Forester, University of Minnesota (Estados Unidos) e Juan M. Morales, Universidad Nacional del Comahue (Argentina).

O evento começa com um curso de quatro dias em novos desenvolvimentos em ecologia do movimento, seguido de simpósio, de um dia, aberto a alunos, professores e outros participantes que poderão discutir as inovações na área.

Para finalizar a conferência, os professores do curso e palestrantes do simpósio se reunirão para um workshop exclusivo de três dias. Os participantes poderão apresentar dados e perguntas para trabalhar com os professores, abordando os problemas analíticos mais desafiadores da ecologia do movimento.

 Paula Pimenta