Alunos do ensino médio vivenciam ciência na UFMS de Campo Grande

Projeto Trem do Pantanal levou estudantes de escola estadual para uma imersão em experimentos, perguntas, hipóteses e descobertas na Universidade

Microscópios, lâminas, corantes, microrganismos, perguntas, hipóteses e experimentos passaram a fazer parte da rotina de 26 estudantes de uma escola pública de Campo Grande durante uma semana na UFMS. Longe da sala de aula e, para muitos, pela primeira vez dentro de um laboratório universitário, os jovens assumiram o papel de “cientistas” de primeira viagem: observaram, investigaram, testaram ideias e descobriram, na prática, como o conhecimento científico é construído.

Realizada de 10 a 14 de agosto, a sexta edição do curso Trem do Pantanal: trilhando o caminho do bioma e das doenças tropicais reuniu alunos da Escola Estadual Manoel Bonifácio Nunes da Cunha em uma imersão no universo da pesquisa. Eles participaram de atividades práticas, conheceram laboratórios e outros espaços da Universidade e tiveram contato com pesquisadores e estudantes de pós-graduação que vivenciam diariamente o fazer científico.

O curso é uma iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas e Parasitárias (PPGDIP), da Faculdade de Medicina (Famed) da UFMS de Campo Grande e da Rede Nacional Leopoldo de Meis de Educação e Ciência (RNEC). Mais do que apresentar conteúdos sobre doenças infecciosas, saúde, ambiente e biodiversidade, a proposta colocou os estudantes no centro da investigação.

De acordo com o professor da Famed e atual coordenador nacional da RNEC, James Venturini, os alunos foram estimulados a fazer perguntas, formular hipóteses, realizar experimentos e buscar respostas, percorrendo etapas semelhantes às enfrentadas pelos próprios pesquisadores. “Não queremos simplesmente ensinar ciência aos estudantes. Queremos criar condições para que eles façam perguntas, construam hipóteses e procurem, eles próprios, maneiras de respondê-las. A ciência começa justamente na curiosidade e na capacidade de perguntar”, destaca James.

Quando a ciência sai do quadro

Durante a semana, os alunos participaram de atividades nos laboratórios de Doenças Infecciosas e Parasitárias, na Famed, no Hospital Dia Professora Esterina Corsini e Agência Transfusional, nos Laboratórios de Microbiologia e Parasitologia Humana no Instituto de Biociências, além de teatro, dinâmicas, jogos e tour pela Universidade.

Para João Lucas Macedo, de 15 anos, a diferença ficou evidente justamente na possibilidade de participar. Acostumado a aprender determinados conteúdos por meio de imagens, textos e explicações em sala de aula, ele encontrou na Universidade a oportunidade de observar de perto aquilo que antes conhecia principalmente pela teoria.

“Já tinha participado de outras atividades, mas de um jeito interativo assim é a primeira vez. Inclusive, passar a semana inteira aqui foi uma coisa diferente para mim. De zero a dez, eu daria nota onze! É muito, muito legal, porque tem a participação dos alunos. Não é só uma coisa escrita no quadro que você copia e aprende. Aqui você vive, você vivencia isso. Usamos o microscópio, por exemplo, em vez de só ver imagens ou copiar alguma coisa do quadro”, conta.

Entre as experiências que mais chamaram sua atenção esteve a observação de microrganismos. “Usamos até fogo, corante e, no final, conseguimos observar células e bactérias. É uma coisa muito interessante, muito legal, que eu gostei pra caramba”.

A descoberta da ciência pela prática também marcou a semana de Yasmin Oliveira. Pela primeira vez participando de uma atividade desse tipo, ela destacou o contato direto com o ambiente e os materiais de laboratório. “Não é todo dia que a gente pode ter esse tipo de experiência, então acho que é uma experiência única”.

Para Yasmin, a vivência pode ajudar ainda os estudantes a enxergarem com mais clareza as possibilidades de formação profissional. “Acho que ajuda, principalmente quem gosta mais de laboratório e pensa em fazer Medicina ou algum curso nessa área. Às vezes, a pessoa tem curiosidade, pensa em fazer uma faculdade assim, mas ainda não tem muita certeza. Com essa experiência, acho que começa a ter mais certeza se é isso mesmo que quer fazer ou não”.

E descobrir que determinada profissão talvez não seja a escolha futura também faz parte da experiência. Sandilly Dominique da Silva aproveitou a semana para conhecer um universo ao qual dificilmente teria acesso na escola. “Na escola é bem difícil ter uma atividade de laboratório assim, até porque não temos esses equipamentos. Aqui é uma oportunidade de ver na prática aquilo que a gente aprende lá. No laboratório, por exemplo, conseguimos observar uma solitária; na escola, a gente só vê por foto”.

Depois da experiência, Sandilly diz que provavelmente não escolheria Biologia como profissão — entre outros motivos, pelo receio de lidar com animais —, mas reconhece justamente aí outro valor da iniciativa: conhecer melhor uma área antes de decidir qual caminho seguir. “Acho que essa experiência ajuda também nisso, porque a gente conhece melhor a área e vê como as coisas funcionam na prática”.

Protagonistas da experiência

A empolgação percebida nos depoimentos também foi acompanhada por quem convive diariamente com a turma. Professor de Informática da Escola Estadual Manoel Bonifácio, Leandro da Silva Gonçalves viu na aproximação com os laboratórios da UFMS uma oportunidade de despertar a curiosidade dos estudantes.

“Primeiro, eu acho que desperta a curiosidade deles. E também permite que conheçam procedimentos que são utilizados na vida real, como na identificação de bactérias e em outros processos. Acho importante porque eles conseguem ver, na prática, coisas que normalmente conhecem mais pela teoria”, afirma.

Mais do que o interesse pelas atividades, Leandro percebeu uma mudança na maneira como os próprios estudantes se colocavam diante da experiência. “Eles estão muito empolgados. A gente percebeu isso durante a semana inteira, inclusive pelas falas nos grupos de que participamos. Eles estão felizes, estão se sentindo importantes, protagonistas mesmo dessa experiência”.

Dos dois lados da bancada

Se, de um lado, os alunos do ensino médio tiveram a oportunidade de descobrir como a ciência é feita, do outro estavam jovens que já escolheram esse caminho. Mestrandos e doutorandos do PPGDIP participaram das atividades e compartilharam não apenas conhecimentos, mas a própria experiência de quem vive a pesquisa no cotidiano da Universidade.

Para a mestranda Luana Burgato Viana, o contato ainda no ensino médio pode fazer diferença inclusive no momento de escolher uma profissão. “Eu acho que é uma oportunidade muito boa. Se tivesse tido uma experiência assim quando estava na idade deles, acho que teria sido fundamental para a minha escolha da graduação e da profissão. E vejo que eles gostam muito, porque isso apresenta uma realidade que muitos nem imaginavam que poderia fazer parte da vida deles”.

Segundo Luana, a aproximação ajuda também a romper uma barreira que nem sempre é física. “Muitos deles nem imaginam que podem estudar em uma universidade federal, que podem fazer ciência. Às vezes, nem sabem qual é o caminho para se tornar um cientista. Então, estar aqui, conhecer a Universidade e participar dessas atividades mostra que essa também pode ser uma possibilidade para eles”.

O doutorando Weslley Stefanes já esteve do outro lado dessa relação: foi professor dos ensinos fundamental e médio. Para ele, aproximar os adolescentes da ciência antes mesmo do ingresso na Universidade ajuda a transformar uma ideia muitas vezes abstrata em experiência concreta. “Acho essa atividade enriquecedora pelo simples fato de os adolescentes entrarem em contato com a ciência antes mesmo de chegar à Universidade. Muitas vezes, eles não têm interesse pela ciência ou por uma carreira que envolva ciência porque ainda não tiveram esse contato. Então, o projeto é também uma forma de aproximar a Universidade desses estudantes”, avalia.

Para quem acompanhou a turma durante os cinco dias, a troca também deixou aprendizados. “A reação dessa turma tem sido muito positiva. Eles são muito curiosos, extremamente inteligentes e participativos. Então, para nós também está sendo uma experiência muito enriquecedora”, completa Weslley.

Aprender a perguntar

Por trás das experiências realizadas durante a semana está uma proposta que vai além de ensinar conteúdos científicos. O objetivo é fazer com que os estudantes compreendam como o conhecimento é construído — e percebam que uma investigação pode começar justamente com uma dúvida.

Ao longo das atividades, os participantes receberam subsídios para elaborar perguntas, formular hipóteses, planejar experimentos e buscar respostas. Em vez de encontrar conclusões prontas, foram convidados a percorrer etapas semelhantes às vivenciadas pelos pesquisadores em uma investigação científica.

É nesse percurso que também entram a tentativa, o erro e a necessidade de repensar caminhos — elementos que fazem parte do trabalho de quem produz conhecimento. “Queremos que eles percebam que ciência não é simplesmente um conjunto de informações que alguém já descobriu. Ciência é uma maneira de perguntar, investigar, testar ideias, errar, rever hipóteses e construir conhecimento”, destaca Venturini.

Uma rede de aproximação com a ciência

A experiência realizada na UFMS integra uma trajetória de quatro décadas de aproximação entre ciência, educação e sociedade. Inspirada na atuação de Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que defendia a vivência do método científico como forma de estimular a curiosidade, a criatividade e o pensamento crítico, a RNEC reúne atualmente 30 grupos de diferentes instituições brasileiras, formados por pesquisadores que compartilham a proposta de levar a ciência para mais perto, especialmente, dos jovens estudantes.

A UFMS integra a Rede desde 2015 e consolidou essa participação por meio de iniciativas como o Trem do Pantanal, que chegou neste ano à sexta edição. No Trem do Pantanal, a experimentação se combina ainda a jogos, dinâmicas e diferentes manifestações artísticas, criando outras formas de aproximação dos jovens com a ciência.

Um lugar também para eles

Depois de cinco dias entre laboratórios, experimentos, perguntas e descobertas, o resultado do Trem do Pantanal não precisa ser medido pelo número de estudantes que decidirão seguir uma carreira científica. Para James Venturini, há uma transformação anterior: compreender como a ciência é construída e perceber que a Universidade também pode fazer parte de seus caminhos.

“Se esse estudante sair daqui fazendo mais perguntas do que fazia quando chegou, entendendo melhor como o conhecimento científico é construído e percebendo que a universidade também pode ser um espaço para ele, já alcançamos uma parte muito importante do nosso objetivo”, afirma.

Durante uma semana, aquilo que poderia parecer distante ganhou forma nas bancadas dos laboratórios, nas lentes dos microscópios e no contato direto com pesquisadores. A Universidade passou a ter espaços conhecidos, rostos e experiências compartilhadas. E a ciência, antes encontrada principalmente nos livros, ganhou a dimensão de algo que também pode ser feito por eles.

“O jovem precisa poder olhar para um laboratório, para um pesquisador ou para uma universidade e pensar: ‘eu também posso estar aqui’. Talvez ele se torne cientista, talvez siga outro caminho. Mas queremos que ele compreenda a ciência, mantenha sua curiosidade e saiba que esse espaço também pode ser ocupado por ele”, conclui Venturini.

Texto: Vanessa Amin

Fotos: Acervo do PPGDIP