Oficinas presenciais unem raciocínio lógico, desenvolvimento cognitivo e convivência em uma iniciativa aberta a toda a comunidade
Mais de quatro décadas após sua criação, o cubo mágico continua desafiando milhões de pessoas ao redor do mundo. Estima-se que mais de 450 milhões de unidades do quebra-cabeça já tenham sido vendidas desde os anos 1980, tornando-o um dos brinquedos mais populares da história. O que para muitos parece apenas um passatempo é uma ótima ferramenta de desenvolvimento cognitivo, aprendizagem e interação social.
Foi a partir dessa perspectiva que nasceu o Projeto Cubo Mágico – UFMS, iniciativa extensionista que promove oficinas e encontros mensais presenciais voltados à aprendizagem e ao aperfeiçoamento das técnicas de resolução do quebra-cabeça. A proposta reúne ensino, lazer e ciência para estimular habilidades como raciocínio lógico, memória, concentração, coordenação motora fina e trabalho em equipe.
A coordenadora do projeto Sarah Jane Lemos de Melo conta que a ideia surgiu após uma aproximação com a comunidade de cubistas do estado. “Fui procurada pela Associação de Cubo Mágico para fazer uma competição na UFMS, e logo surgiu a ideia. Nossos parceiros toparam na hora. Notamos que o cubo tem um poder magnético: quando alguém começa a girar as camadas, outras pessoas se aproximam para olhar, dar palpites ou tentar resolver. Vimos ali uma potente ferramenta coletiva de integração, raciocínio e extensão universitária”, relata. Sarah é secretária de Projetos, Eventos Esportivos e de Lazer da Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Esporte da Universidade (Proece).
Segundo ela, o cubo mágico foi escolhido justamente por sua capacidade de aproximar pessoas com diferentes perfis. “O cubo mágico é um objeto democrático, de baixo custo e universal. Ele quebra barreiras de linguagem, idade e background acadêmico. Um estudante da Engenharia e um da Letras podem colaborar diante do mesmo desafio lógico. Como ferramenta de extensão, ele aproxima a comunidade, promove o raciocínio lógico e desmistifica a ideia de que a matemática ou a resolução de problemas complexos são um bicho-de-sete-cabeças”, destaca.
Além do entretenimento
As atividades são realizadas presencialmente no último sábado de cada mês, na Livraria da UFMS, localizada no AutoCine – Centro de Convivência e Empreendedorismo Estudantil da UFMS. Cada encontro tem duração média de duas a três horas e inclui apresentações sobre a história do cubo mágico, oficinas práticas, desafios progressivos, minicompetições amistosas e momentos de troca de experiências entre os participantes.
O projeto é aberto a iniciantes e também a pessoas que já possuem experiência com o quebra-cabeça. “Ver alguém que nunca conseguiu resolver o cubo dar as primeiras voltas e completar a primeira face, ou até mesmo o cubo inteiro, é o que mais nos move”, afirma Sarah.
Além do aspecto lúdico, a iniciativa foi concebida para atuar simultaneamente em competências cognitivas e socioemocionais. Entre os benefícios apontados pela coordenação estão o desenvolvimento da visão espacial, da memória de trabalho, da velocidade de processamento de informações, da persistência, da paciência e da tolerância à frustração.
“Quando o estudante encontra um espaço para brincar e aprender ao mesmo tempo, o vínculo dele com a universidade se fortalece. Essas atividades humanizam o câmpus, promovem saúde mental por meio de um lazer de qualidade e criam ambientes de acolhimento”, acrescenta a coordenadora.
Método, persistência e aprendizado
Para o delegado da World Cube Association (WCA) no Estado, Jefferson Feitosa, o principal desafio é desconstruir a ideia de que o cubo mágico é reservado a pessoas com habilidades extraordinárias.
“O principal mito é que apenas pessoas muito inteligentes ou com grande facilidade para matemática conseguem resolvê-lo. Na realidade, resolver o cubo não depende de genialidade, mas de aprender métodos e praticar. Assim como aprender a andar de bicicleta ou tocar um instrumento, qualquer pessoa pode aprender”, explica. Ele é um dos colaboradores do projeto
A relação de Jefferson com o cubo começou ainda no ensino fundamental, quando participou de um Clube de Matemática criado por seu professor Oilson Soares. “Foi nesse ambiente que surgiu minha paixão pelo cubo. Anos depois, quando entrei no curso de Licenciatura em Matemática, já carregava comigo a ideia de retribuir tudo o que havia aprendido e compartilhar esse conhecimento com outras pessoas”, relembra. Em 2024, ao lado de outros entusiastas, ajudou a viabilizar o primeiro campeonato oficial de cubo mágico realizado em Mato Grosso do Sul.
Nas oficinas da UFMS, os participantes aprendem um método para iniciantes, dividido em etapas simples e progressivas. Segundo Jefferson, muitas pessoas conseguem resolver o cubo pela primeira vez após apenas algumas horas de aprendizado e prática. “O que mais surpreende quem começa é perceber que o cubo não é resolvido por tentativa e erro. Existem métodos e algoritmos que qualquer pessoa pode aprender”, afirma.
Ele destaca ainda que o aprendizado exige persistência. “Muitas pessoas querem resolver o cubo rapidamente e acabam se frustrando quando cometem erros. Mas, com a prática, percebem que os erros fazem parte do processo. O cubo ensina que os resultados vêm por meio da dedicação, da disciplina e da constância.”
Da televisão aos campeonatos
O projeto também reúne participantes experientes que demonstram, na prática, o potencial educacional do cubo mágico. É o caso do doutorando em Ciência dos Materiais pela UFMS, Pablo Paixão. Seu interesse começou em 2009, após assistir a um programa sobre o tema na televisão.
“Sempre fui chegado às ciências exatas. Quando vi o Rafael Cinoto montando o cubo, corri para comprar um e comecei a treinar”, conta. Os primeiros aprendizados vieram por meio de vídeos disponíveis na internet. O hobby rapidamente se transformou em dedicação competitiva. Em 2015, Pablo participou do Campeonato Mundial de Cubo Mágico, experiência que considera inesquecível. “Foi uma experiência maravilhosa”, resume.
No mesmo ano, conquistou o primeiro lugar nas modalidades Cubo Mágico com os Pés e Megaminx — o cubo de 12 lados — em uma competição realizada em Curitiba. Também alcançou o terceiro lugar nas categorias Cubo Vendado e Cubo 2×2.
Pablo também é graduado em Física e mestre pela UFMS. Ele vê paralelos entre a formação acadêmica e a prática do cubo. “Meu treino é separado em parte teórica e prática. Procuro dedicar cerca de meia hora para cada cubo, aprendendo novos algoritmos e aplicando esses conhecimentos na montagem”, explica.
Recentemente, conquistou o primeiro lugar nas modalidades Clock e Pyraminx na UFMS Space Rubik 2026. “Gosto de treinar todas as modalidades. Cada uma tem desafios diferentes e exige habilidades específicas.”
Perspectivas e formação de comunidade
“Vamos iniciar o ensino de técnicas mais avançadas futuramente, como o método CFOP, utilizado pela maioria dos competidores. A partir de agosto, temos a intenção de iniciar o treinamento de BLD (Blindfolded), que consiste em resolver o cubo mágico vendado. Essa modalidade trabalha fortemente a memória, a concentração e o planejamento, sendo um dos maiores desafios dentro do cubo mágico”, fala Jefferson sobre as perspectivas do projeto.
Mais do que ensinar técnicas de resolução, pretende-se também construir uma comunidade permanente dentro da UFMS. “A integração acontece de forma imediata. Queremos que os participantes percebam que são capazes de superar desafios complexos por meio do método e da persistência, levando essa confiança para a vida acadêmica e pessoal”, afirma Sarah.
O projeto já vislumbra novos horizontes, incluindo campeonatos internos, a realização de mais competições oficiais da WCA em Mato Grosso do Sul e ações voltadas para escolas públicas. “Queremos levar o projeto para além dos muros da Universidade, utilizando o cubo mágico como ferramenta de inclusão, popularização da ciência e transformação social”, conclui a coordenadora.
Mais informações
As inscrições para os encontros e oficinas são divulgadas pelos canais oficiais da UFMS e da Proece. Embora haja emissão de certificados para os inscritos, a proposta também acolhe participantes que desejam apenas conhecer a atividade e dar os primeiros passos no universo do cubo mágico.
Texto: Vanessa Amin, com colaboração de Rúbia Pedra
Fotos: Rúbia Pedra
