Iniciativa simplifica a ciência e conecta universitários e estudantes da região na preservação ambiental
Alunos do ensino fundamental e médio de Três Lagoas e região estão aprendendo que organismos aquáticos podem revelar muito sobre a saúde da água, da vegetação e do equilíbrio ambiental. Isso se tornou possível por meio do projeto de extensão Bioindicadores ambientais: popularizando a ciência para conservar os recursos naturais. Coordenado pelo professor da UFMS de Três Lagoas Luiz Ubiratan Hepp, o projeto desenvolve ações de popularização e divulgação científica, como oficinas e visitas, junto a escolas das redes pública e privada.
“Vivemos em um estado rico em biodiversidade e com uma das maiores reservas hídricas do país, além de sermos um estado que passa por um intenso processo de desenvolvimento econômico, sobretudo na Costa Leste, com a ampliação das indústrias de celulose. Nesse sentido, as modificações que ocorrem na paisagem natural podem afetar os ambientes naturais e, consequentemente, a biodiversidade e a oferta de serviços ecossistêmicos”, ressalta o professor Luiz.
Segundo ele, os bioindicadores da qualidade ambiental são organismos que fornecem informações ecológicas precisas e relevantes, auxiliando o processo de tomada de decisão dos gestores em relação à promoção da sustentabilidade. Esses bioindicadores podem ser insetos, plantas, moluscos, crustáceos e peixes capazes de revelar alterações e impactos ambientais nos ecossistemas aquáticos. Eles funcionam como “termômetros da natureza”, pois são sensíveis à poluição, à falta de oxigênio, ao desmatamento e à contaminação da água e do solo.
O professor explica que o conhecimento sobre bioindicadores da qualidade ambiental é bastante trabalhado nos ambientes universitários, mas ainda pouco abordado nas escolas. “Nossas atividades consistem, basicamente, em oficinas e visitas guiadas, nas quais estudantes de graduação e pós-graduação desenvolvem ações de informação e sensibilização com crianças e adolescentes acerca dos conceitos básicos sobre bioindicadores, da importância da manutenção da qualidade ambiental e dos efeitos das atividades antrópicas sobre a natureza. Além de atender às escolas, também buscamos participar de ações promovidas por outros órgãos públicos e colaborar com instituições que solicitam apoio”, conta.
“Ao longo dos últimos 5 anos de atividade, a equipe do Laboratório de Indicadores Ambientais (Labind) já atendeu mais de 40 escolas da região, entre públicas e privadas, inclusive instituições oriundas do estado de São Paulo, a partir de visitas e participação em feiras. Estimamos que já atendemos entre mil e 1,5 mil estudantes do ensino fundamental”, destaca.
“A ideia é repassar nosso conhecimento técnico-científico em uma linguagem mais acessível e ‘palatável’ para pessoas que não fazem parte do meio acadêmico. É um ‘trabalho de formiguinha’, que exige paciência e perseverança, pois não se mudam ideias construídas ao longo de diferentes gerações com um projeto desenvolvido há apenas cinco anos. Para a próxima fase do projeto, pretendemos produzir e divulgar material didático destinado a professores e estudantes, que possa ser utilizado como fonte de capacitação e de apoio para atividades em sala de aula ou até mesmo em projetos dentro das escolas”, comenta.
Para realizar as atividades do projeto, o coordenador conta com o apoio e a participação de estudantes dos cursos de graduação em Ciências Biológicas — Licenciatura e Bacharelado — da UFMS de Três Lagoas, além de alunos dos programas de pós-graduação em Biologia Animal da UFMS e em Biodiversidade e Meio Ambiente da Universidade Federal da Grande Dourados.
Para a graduanda Rayssa Vitória de Paula, participar do projeto tem sido importante para sua trajetória acadêmica. “Esse projeto foi um divisor de águas na nossa vida acadêmica, pois permitiu observar as percepções dos alunos em relação ao que entendem por ciência, seja por experiências próprias ou por comentários feitos pelos pais. Pudemos perceber que eles ficavam animados e encantados com a riqueza do que observavam, além de compreenderem o papel que cada organismo desempenha no meio ambiente como bioindicador. Muitos comentavam, inclusive, que já haviam observado insetos semelhantes em casa ou na casa dos avós. Projetos de extensão como esse, que envolvem a comunidade local, permitem a conexão entre os membros do laboratório e a população. Dessa forma, tornam-se importantes não apenas para a formação acadêmica, mas também para a formação pessoal, promovendo trocas de conhecimento, experiências e aproximação entre universidade e comunidade”, afirma.
“A oportunidade de aproximar os estudantes da pesquisa científica, traduzindo nossas pesquisas para uma linguagem mais acessível, também é uma forma de comunicar a ciência e compartilhar o que estamos desenvolvendo em nossos mestrados e doutorados. Perceber que eles realmente compreendem, se interessam e participam das discussões, trazendo perguntas e reflexões, é algo que nos motiva a continuar. Além disso, essa troca não agrega apenas aos estudantes, mas também a nós. A cada visita, temos a oportunidade de aprimorar nossa comunicação, aprender a compartilhar melhor o conhecimento científico e fortalecer essa ponte entre universidade e comunidade”, avalia a doutoranda Mariana Nunes Menegat.
Além das atividades nas escolas, o projeto também realiza, anualmente, um workshop sobre qualidade ambiental dos recursos hídricos. De acordo com o professor Luiz, trata-se de um momento dedicado à discussão de questões teóricas e práticas relacionadas ao tema. Neste ano, a segunda edição concentrou as discussões no papel das mulheres na ciência limnológica, destacando suas conquistas e desafios na atuação científica.
“Ampliamos a visibilidade do evento e dos trabalhos do Laboratório, uma vez que tivemos a participação de pesquisadoras e estudantes da UFGD, da Universidade Estadual da Paraíba, da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e da Universidade Federal do Rio Grande, ambas do Rio Grande do Sul. O ponto forte foi a temática, que atraiu muitas estudantes interessadas em ouvir e compartilhar experiências com pesquisadoras em diferentes estágios da carreira e com diferentes histórias pessoais”, afirma Luiz.
O evento foi coordenado pela pesquisadora Silvia Vendrusculo Milesi. “A edição deste ano foi especial, principalmente pela temática central do encontro, que envolve a relevância das mulheres na e para a ciência. A equipe de estudantes e pesquisadoras do Labind é formada majoritariamente por mulheres, e essa representatividade merece destaque. Além disso, o Labind completa cinco anos de atividades de pesquisa, ensino e extensão, destacando-se na formação de recursos humanos na UFMS e contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento do Estado. Por fim, a realização do workshop sobre recursos hídricos, um bem natural precioso e fundamental, fortalece a divulgação do conhecimento e a consolidação das relações entre universidade e comunidade regional”, destaca.
Avaliação
O professor Luiz ressalta que, em uma nova fase do projeto, a proposta é avaliar como os alunos têm percebido a problemática ambiental após participarem das atividades. “No ano passado, realizamos um projeto chamado Meninas na Limnologia, no qual desenvolvemos atividades com um grupo de estudantes de uma escola estadual de Três Lagoas durante quatro meses. O resultado final foi muito positivo em termos de aprendizado. Agora, a ideia é criar um instrumento de avaliação que nos permita compreender melhor a efetividade das oficinas e do material que estamos produzindo para as redes sociais. Assim, podemos direcionar de forma mais adequada as demandas da sociedade, no que diz respeito à qualidade ambiental do nosso estado”, revela.
Texto: Vanessa Amin
Fotos: Acervo do Projeto


