Quando duas instituições públicas unem forças em prol de um objetivo comum, o resultado é alcançado de forma eficiente, limitações orçamentários e operacionais são superadas e os serviços oferecidos à sociedade são ampliados e melhorados. Esse é o caso da parceria firmada entre a UFMS e a Secretaria de Estado de Saúde (SES).
Desde 2019, pesquisadores, técnicos e estudantes da UFMS de Campo Grande, que atuam no Laboratório de Doenças Infecciosas e Parasitárias (Labdip), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas e Parasitárias (PPGDIP) da Faculdade de Medicina (Famed), realizam exames diagnósticos laboratoriais e pesquisas voltadas, especialmente, para doenças negligenciadas, alcançando uma demanda existente não coberta pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
“A parceria entre a SES e a UFMS foi formalizada em 2019, dois anos após a inauguração do Labdip. À época, o laboratório realizava apenas um exame diagnóstico para uma micose sistêmica e ocupacional, a paracoccidioidomicose. Com o amadurecimento dos projetos de pesquisa e a estruturação progressiva do laboratório, foi possível pactuar inicialmente a realização de três exames diagnósticos para atender demandas do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/Ebserh) e do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen). Esses exames, até então, eram enviados para outros estados, com atrasos de meses na liberação dos resultados. Tratava-se de uma parceria construída sem fomento específico naquele momento, baseada em cooperação técnica e institucional”, lembra o pesquisador responsável pelo Laboratório, James Venturini.
James recorda, ainda, que, durante a pandemia da Covid-19, a cooperação com a Secretaria foi ampliada de forma significativa, em especial na realização do diagnóstico molecular do vírus SARS-CoV-2, com a realização de aproximadamente 45 mil testes de RT-PCR. Atualmente, o fortalecimento do diagnóstico de micoses sistêmica representa o eixo principal de atuação do Labdip. “Com apoio de recursos da SES e de projetos financiados por agências de fomento, o Labdip oferece diferentes exames diagnósticos especializados. Esse histórico demonstra a relevância e a sustentabilidade da parceria, especialmente considerando que muitos desses exames não são ofertados rotineiramente pelo SUS. Assim, a perspectiva futura é a formalização de um novo acordo que amplie e consolide essa cooperação, garantindo continuidade, atualização tecnológica e expansão da capacidade diagnóstica em benefício da população sul-mato-grossense”, conta.
Para a professora da Famed e coordenadora do PPGDIP, Anamaria Paniago, a parceria permite transformar pesquisa em benefício direto para a população. “Essa cooperação é fundamental para a pesquisa aplicada à saúde pública, especialmente no diagnóstico de doenças negligenciadas, para as quais ainda não existem exames disponíveis no SUS. Com o apoio da SES, os laboratórios da Universidade contribuem diretamente para o diagnóstico das doenças infecciosas e parasitárias no Estado, beneficiando principalmente os pacientes em situação de maior vulnerabilidade”, afirma.
De acordo com a secretária-adjunta de Estado de Saúde, Christinne Maymone, a integração entre gestão pública e Universidade é essencial para fortalecer a rede de diagnóstico no Estado. “Essa parceria com a UFMS é estratégica para qualificar a vigilância em saúde em Mato Grosso do Sul. Ao integrar pesquisa, inovação e assistência, conseguimos ampliar o acesso a exames especializados, fortalecer o diagnóstico de doenças negligenciadas e oferecer uma resposta mais eficiente à população”, destaca.
Labdip
De acordo com Venturini, o Labdip realiza 20 exames diagnósticos especializados, sendo 15 voltados a cinco micoses sistêmicas de alta relevância clínica: paracoccidioidomicose, histoplasmose, aspergilose, criptococose e pneumocistose. Além disso, são ofertados dois exames específicos para tuberculose. O laboratório também realiza três diferentes exames de imunofenotipagem, fundamentais para a avaliação de pacientes imunocomprometidos. “Cabe ressaltar que a diversidade metodológica é essencial, pois as infecções fúngicas sistêmicas são doenças complexas, que frequentemente exigem a combinação de diferentes abordagens diagnósticas. Esse conjunto de exames coloca o laboratório entre os poucos centros no Brasil com essa capacidade integrada, e há um esforço contínuo para incorporar novas metodologias e tecnologias diagnósticas”, explica.
“Desde o início da parceria, em 2019, foram realizados 12.840 exames diagnósticos, o que corresponde a uma média histórica aproximada de 2 mil exames por ano. Ao longo desse período, 4.122 pessoas foram diretamente beneficiadas, principalmente no contexto diagnóstico de micoses sistêmicas e tuberculose, doenças que frequentemente apresentam atraso diagnóstico e elevado impacto clínico quando não identificadas precocemente”, completa o pesquisador.
Hoje, seis docentes do PPGDIP da UFMS possuem projetos vinculados diretamente ao Laboratório, além de dois técnicos, três pesquisadores de pós-doutorado e cerca de 40 estudantes, incluindo estudantes de graduação, mestrado e doutorado. Além disso, médicos residentes de infectologistas do Humap-UFMS/Ebserh realizam estágios no laboratório como parte da complementação de sua formação profissional.
“Essa parceria tem impacto direto e estruturante nas atividades de ensino, pesquisa e extensão, ao possibilitar a formação prática em diferentes metodologias diagnósticas, a qualificação de recursos humanos em nível avançado e o desenvolvimento de dissertações e teses alinhadas a demandas reais do Sistema Único de Saúde. Trata-se, ainda, de uma iniciativa com forte inserção social da pós-graduação, aspecto amplamente valorizado pela Capes, que contribuiu para a manutenção do Conceito 6 do PPGDIP no último quadriênio (2021–2024), reconhecido como de excelência”, finaliza o professor.
Texto: Vanessa Amin
Fotos: SES e arquivo da Agecom e do Labdip
