Na continuidade das ações do Festival Africanidades, a Cidade Universitária recebeu na quarta-feira, 12, o encontro África para os Africanos. Proposto e organizado pelo curso de História da Faculdade de Ciências Humanas (Fach), em parceria com a Pró-Reitoria de Cidadania e Sustentabilidade (Procids), e liderado pela socióloga marroquina Laila Aghil e por estudantes estrangeiros vindos de Cabo Verde e da Nigéria, o evento serviu de troca cultural entre os participantes por meio de palestras e mesa-redonda. A atividade foi realizada no auditório Arquiteto Jurandir S. Nogueira, com a participação de estudantes, professores, pesquisadores e interessados por temáticas relacionadas a africanidades.
A programação foi iniciada pela palestra da professora Laila Aghil, da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Ibn Tofaïl, em Kenitra, no Marrocos. Por meio de videoconferência, a convidada discursou sobre As figuras femininas do tempo moderno no Marrocos, com tradução do francês para a língua portuguesa pela professora do curso de Filosofia da Fach Maíra Borba e sob mediação da coordenadora do curso de História da Fach, Dilza Porto. A temática abordou desde a contextualização do que é ser mulher na cultura marroquina a reflexões contemporâneas de cientistas sociais africanos sobre o feminismo e a luta por igualdade de gênero no continente.
Na sequência, a estudante estrangeira da Faculdade de Medicina Giselle Vaz dos Reis Semedo e o estudante intercambista do curso de Doutorado em Bioquímica e Biologia Molecular do Instituto de Biociências Akeem Olayinka Busari apresentaram suas respectivas terras-natais, Cabo Verde e Nigéria, para os presentes, em duas conversas repletas de dados históricos e culturais, curiosidades, imagens e símbolos representativos, além de explicações para além do âmbito acadêmico. A atividade foi mediada pelo diretor da Agência de Internacionalização (Aginter), Gustavo Cancio, que também assumiu o papel de tradutor na mesa-redonda.
Para a pró-reitora da Procids, Vivina Sol, os encontros promovidos durante o Festival Africanidades acentuam o clima de travessia cultural. “É sairmos de Mato Grosso do Sul para o mundo e o mundo também vir até nós. Neste Mês da Consciência Negra, de homenagem a Zumbi dos Palmares, trazer essa discussão para a Universidade, para o âmbito acadêmico, é um ganho espetacular. Então, ouvir deles [palestrantes] questões e lutas que são muito parecidas com as nossas, saber como é ser mulher no Marrocos por uma marroquina, descobrir e conhecer Cabo Verde e Nigéria por quem é de lá, ter acesso a esses horizontes, é muito enriquecedor”, afirmou.
Ao abrir a mesa-redonda dos estudantes estrangeiros, o diretor da Aginter ressaltou a busca contínua por internacionalização dentro e fora da Universidade. “Claramente, isso é um desafio muito grande, mas a gente tem aqui hoje dois ótimos exemplos, a Giselle e o Akeem. A partir de suas apresentações, reforçamos a diversidade, a multiculturalidade e a interculturalidade que existe dentro da UFMS, o nosso compromisso de ampliar cada vez mais a internacionalização, de fazer novas e mais ações, até mesmo da perspectiva deles mesmos, dos nossos estudantes intercambistas africanos. Então, para a gente, é um orgulho tê-los aqui”, enfatizou Cancio.
O diretor da Fach, Cleverson Rodrigues, destacou a importância do diálogo voltado à conexão Brasil-África. “A gente já vem trabalhando há algum tempo na Fach essa questão das africanidades, seja no curso de História, com a obrigatoriedade da oferta da disciplina História da África, seja com a nossa aproximação com o Marrocos, com a professora Laila Aghil. Afinal, nossa proximidade com a África é histórica. Então, celebrar as africanidades é enaltecer essa ponte e falar em África pelos africanos é, no fim das contas, trazer à luz pautas que acontecem lá e que também acontecem aqui, uma reciprocidade para além-fronteiras”, pontuou.
A estudante do curso de Bacharelado em História Joana Escobar acompanhou a palestra da socióloga com bastante interesse. “Eu tenho várias amigas aqui [na UFMS] que são do Congo e da Ruanda, que são países que estão muito em guerra. Eu considero o feminismo africano mais comunitário, bem diferente do feminismo brasileiro. O que para gente é um extremo, às vezes, para elas, não precisar mais usar o hijab [vestimenta islâmica] já é um ganho muito grande. Desmistificar a mulher árabe é muito importante, até porque o mundo árabe fala muito com o Brasil”, opinou.
Também presente no encontro África para os Africanos, o bacharel em História pela Fach Matheus Lourenço citou o que em sua opinião foi mais relevante no evento. “Ter uma perspectiva sobre outro continente abre muito a nossa cabeça. Ver outras realidades que nós não temos convívio na Universidade, ter contato com uma visão que não estamos acostumados. Para nós, que somos do curso de História, o ensino obrigatório sobre a África é recente na grade curricular. Então, esse intercâmbio não é só acadêmico, mas também cultural. Isso dá uma segurança para nós também como Universidade, porque, ao trocar conhecimento, a gente promove a diversidade”, concluiu.
O Festival Africanidades continua nesta quarta-feira, 19, com uma edição especial da Sexta na Concha, às 17h, na Concha Acústica da Cidade Universitária, evento antecipado em razão do feriado do Dia Nacional de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra. As atrações convidadas são o músico Jorge Aluvaiá e sua banda O Capuz Negro, para uma performance cheia de energia, e o samba de Mistura das Minas. A gastronomia afro-brasileira também estará presente, por meio de expositores, assim como a feirinha de economia criativa com artistas das comunidades interna e externa.
Texto e fotos: Raul Delvizio











