Desenvolvida pela Faculdade de Computação em parceria com a startup Óleoponto, tecnologia utiliza inteligência artificial para tornar a coleta de óleo de cozinha mais eficiente, rastreável e acessível. Projeto conquistou o 3º lugar no Desafio Inovação Pantanal Tech 2026
Todos os dias, milhares de litros de óleo de cozinha são descartados de forma inadequada no Brasil, contaminando cursos d’água, comprometendo redes de esgoto e desperdiçando uma matéria-prima que poderia ser reaproveitada na produção de biocombustíveis. Para enfrentar esse desafio, uma tecnologia desenvolvida em parceria entre a Faculdade de Computação (Facom), da UFMS de Campo Grande, e a startup Óleoponto utiliza inteligência artificial para tornar a coleta mais eficiente, rastreável e acessível.
Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), um único litro de óleo descartado incorretamente pode contaminar até 25 mil litros de água. “Não existe uma infraestrutura eficiente e escalável voltada para a coleta residencial. Os sistemas tradicionais dependem de postos de entrega voluntária sem tecnologia, sem rastreabilidade e sem incentivo ao cidadão. O resultado é previsível: baixíssima adesão. A Óleoponto foi criada para resolver isso de forma estrutural, como ecossistema tecnológico completo”, explica o professor da Facom Dionísio Machado Leite Filho.
Na Universidade, ele coordena o desenvolvimento do ÓleoBot, módulo de inteligência artificial responsável por prever o volume de óleo gerado em cada ponto de coleta e otimizar as rotas de recolhimento. Desenvolvido em parceria com o fundador e CEO da Óleoponto, Zadrik José Pereira Mendonça, a proposta foi uma das selecionadas no Desafio Inovação Pantanal Tech 2026.
De acordo com Dionísio, o ÓleoBot tem duas funções centrais: prever o volume de óleo que cada ponto de coleta vai gerar nos próximos 30 dias, permitindo programar as coletas de forma proativa, e calcular as rotas logísticas mais eficientes para as empresas responsáveis pelo recolhimento, com a meta de superar em pelo menos 85% a eficiência dos modelos convencionais.
“O desafio que pretendemos resolver, portanto, não é apenas coletar óleo. É criar a infraestrutura digital e operacional que torne a coleta residencial viável, rastreável e escalável, transformando um passivo ambiental em matéria-prima para biodiesel e em dados para políticas públicas”, destaca.
Mais do que parceira institucional, a Facom participa diretamente do desenvolvimento e da validação dos algoritmos de inteligência artificial responsáveis pela previsão de volume, otimização logística e arquitetura de dados da plataforma. O trabalho evidencia como a pesquisa acadêmica pode gerar soluções com impacto ambiental e econômico.
Cinco camadas para uma coleta inteligente
Por trás dos totens de coleta existe uma infraestrutura tecnológica muito mais ampla. A tecnologia reúne inteligência artificial, internet das coisas (IoT), computação em nuvem, rastreabilidade e um sistema de recompensas para estimular a participação da população. Integrada, a plataforma é estruturada em cinco camadas que conectam o descarte do óleo ao seu destino final.
A primeira delas é a infraestrutura física, composta por totens IoT de autoatendimento instalados em locais de grande circulação, como supermercados. O cidadão deposita o óleo de cozinha usado no equipamento, que realiza automaticamente a pesagem e o registro do material. Cada totem conta com sensores e um painel LCD que também funciona como canal de comunicação com os usuários.
A segunda camada é a plataforma digital em nuvem, que conecta, processa e registra todas as informações do momento do descarte até a emissão de relatórios de impacto ambiental. Após o descarte, o usuário recebe automaticamente uma mensagem via WhatsApp com acesso ao seu painel pessoal, sem necessidade de baixar nenhum aplicativo. Nesse painel, ele acompanha seus pontos, histórico de descartes, indicadores ambientais individuais e o mapa de pontos parceiros para resgate de recompensas.
“A terceira camada é o ÓleoBot o módulo de IA que estamos desenvolvendo. A quarta é o sistema de recompensas, que converte o descarte em benefícios tangíveis hoje, por exemplo, o usuário troca pontos por óleo de soja novo, fornecido pela ADM do Brasil. E a quinta camada é a inteligência de dados: cada litro depositado gera dados rastreáveis sobre origem, volume, data, usuário e destino”, explica Dionísio.
Todo o óleo coletado também passa por um sistema de rastreabilidade. Segundo Dionísio, o chamado Passaporte Digital do Óleo acompanha o material desde o descarte até o destino final, atendendo aos requisitos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio).
“A coleta física e a comercialização do óleo são realizadas por parceiros licenciados no caso da operação inicial em Campo Grande, pela Katu Oil, que detém todas as licenças ambientais necessárias. A Óleoponto é, explicitamente, uma empresa de tecnologia e rastreabilidade, não uma coletora ou comercializadora de resíduos”, diz Zadrik.
Muito além de um ponto de coleta
Mais do que uma solução para o descarte correto do óleo de cozinha, a Óleoponto foi concebida dentro do conceito de cidades inteligentes. Na avaliação da equipe responsável pelo projeto, a plataforma integra infraestrutura urbana, inteligência artificial e logística reversa, permitindo que os dados gerados pela operação sejam incorporados aos sistemas de gestão ambiental e saneamento dos municípios.
Entre os diferenciais está o modelo de autoatendimento. Os totens funcionam sem a necessidade de operadores e registram todas as etapas do descarte. “Enquanto os ecopontos tradicionais não registram quem descartou, quanto descartou nem para onde o material foi, a plataforma Óleoponto gera um registro auditável de cada transação”, explica Zadrik.
A inteligência artificial é outro componente estratégico da solução. De acordo com Dionísio, o ÓleoBot transforma a logística de coleta ao prever quando cada reservatório atingirá sua capacidade e calcular automaticamente as rotas mais eficientes para o recolhimento do óleo. O sistema também estimula a participação da população por meio de um programa de recompensas. “Quando o cidadão percebe valor no processo, ele participa”, resume.
Outro diferencial é a produção de indicadores ambientais em tempo real. A plataforma acompanha o volume de óleo coletado, a quantidade estimada de água preservada e as emissões de CO₂ evitadas, informações que podem subsidiar painéis de gestão pública, relatórios ESG e prestações de contas. “Esse é o componente de cidade inteligente: transformar uma operação ambiental em um serviço urbano conectado, mensurável e auditável”, comentam Dionísio e Zadrik.
O que essa tecnologia pode representar para o Pantanal?
Embora o descarte aconteça nas cidades, seus impactos ultrapassam o ambiente urbano. Em Mato Grosso do Sul, onde as bacias hidrográficas alimentam diretamente o Pantanal, o óleo de cozinha descartado de forma inadequada pode alcançar rios e córregos que sustentam um dos biomas mais importantes do planeta.
Para dimensionar esse potencial, Dionísio explica que Campo Grande gera aproximadamente 250 mil litros de óleo de cozinha por mês. Na operação em funcionamento na Capital, uma única máquina já coletou mais de 700 litros de óleo residencial, resultado equivalente à preservação de mais de 18 milhões de litros de água e à redução de mais de 1,3 mil quilos de emissões de dióxido de carbono (CO₂).
Segundo os pesquisadores, o impacto tende a crescer com a expansão da rede de coleta. A proposta em análise pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) prevê a implantação de 15 totens inteligentes em Campo Grande, ampliando significativamente o volume de óleo recolhido e sua destinação para a produção de biodiesel. A expectativa é transformar um resíduo que hoje representa um passivo ambiental em matéria-prima para a geração de biocombustíveis.
Esse cenário também acompanha a evolução da legislação brasileira. Publicada em maio deste ano, a Portaria nº 3 dos ministérios de Minas e Energia e do Meio Ambiente, estabelece a utilização mínima de óleo residual na produção de biocombustíveis a partir de 2028. Para Dionísio, a plataforma reúne os elementos necessários para atender a essa nova demanda, ao combinar coleta, rastreabilidade e inteligência de dados em uma única infraestrutura tecnológica.
O cidadão no centro da solução
Se a tecnologia é responsável por tornar a coleta mais inteligente, o sucesso da iniciativa depende da participação da população. Por isso, a plataforma incorpora um sistema de recompensas que busca estimular o descarte correto do óleo de cozinha e estimular a participação contínua da população.
A cada descarte realizado nos totens, o cidadão acumula pontos proporcionais ao volume de óleo entregue. Os créditos podem ser trocados por benefícios oferecidos por empresas parceiras, por exemplo, óleo de soja novo como já acontece na operação atual. Todo o processo acontece pelo WhatsApp, sem necessidade de instalar aplicativos. Após cada descarte, o usuário recebe automaticamente uma mensagem com acesso ao histórico de entregas, saldo de pontos e indicadores ambientais individuais.
Para Dionísio, esse modelo representa uma mudança de paradigma em relação aos sistemas convencionais de coleta. “Sem adesão residencial, não há volume. Sem volume, não há viabilidade logística. Sem viabilidade logística, não há matéria-prima para biodiesel”, afirma. Segundo ele, os ecopontos tradicionais dependem exclusivamente da iniciativa espontânea da população, enquanto a plataforma cria um incentivo permanente para que o descarte correto se torne um hábito.
Os resultados iniciais reforçam essa estratégia. Na operação inicial em Campo Grande, cerca de 80% dos cupons emitidos foram convertidos em recompensas, indicando que a maioria dos usuários retorna aos totens para novos descartes. “O descarte deixa de ser apenas um dever cívico e passa a ser uma troca com valor tangível”, resume Zadrik, destacando que esse ciclo contínuo é um dos fatores que garantem a sustentabilidade da iniciativa.
Do reconhecimento aos próximos passos
Os resultados alcançados até agora renderam ao projeto o terceiro lugar no Desafio Inovação Pantanal Tech 2026, reconhecimento que, segundo o professor da Facom, reforça o potencial da parceria entre a Universidade e a startup Óleoponto para transformar conhecimento científico em soluções voltadas à sustentabilidade.
O reconhecimento obtido no Pantanal Tech também abriu caminho para uma nova etapa de desenvolvimento da plataforma. Com a premiação, a equipe pretende acelerar o desenvolvimento do ÓleoBot, especialmente dos algoritmos responsáveis pela previsão do volume de óleo coletado e pela otimização das rotas logísticas. Outra frente é a validação da tecnologia em escala regional por meio da proposta encaminhada à Finep.
No médio prazo, a expectativa é consolidar a Óleoponto como uma plataforma de referência na coleta e rastreabilidade de óleo de cozinha residencial. Além da expansão para municípios brasileiros, o modelo foi concebido para atender empresas e órgãos públicos por meio de indicadores ambientais auditáveis e integração com sistemas de gestão. A tecnologia também começa a despertar interesse internacional, com negociações em andamento para o licenciamento da plataforma em Portugal.
Texto: Vanessa Amin
Fotos e imagens: Envato/Zadrik José Pereira Mendonça
