No próximo dia 24, o Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (Fach) realiza aula inaugural com o professor da Universidade de Brasília Gabriele Cornelli. O tema da aula será Ensinar e convencer: o papel de quem faz filosofia no naufrágio da política.
“O Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMS foi implementado oficialmente no segundo semestre de 2025, quando recebemos nossa primeira turma, com 14 alunos e todas as vagas preenchidas já na primeira seleção. Um aspecto interessante é que, além de filósofos formados na própria UFMS, também contamos com estudantes de outras áreas, especialmente do Direito. No final de 2025 selecionamos a segunda turma, que ingressou agora no primeiro semestre de 2026, e entendemos que este seria o momento oportuno para realizar a aula inaugural do programa”, explica o professor e organizador do evento André Koutchin.
Sobre o convidado para ministrar a aula, André destaca que o professor Gabriele Cornelli é especialista em filosofia antiga e estudos clássicos, autor de numerosos trabalhos acadêmicos e responsável por uma recente tradução do diálogo Fédon, de Platão. “Cornelli também é professor colaborador do nosso programa e participou da construção da proposta de criação do mestrado em Filosofia na UFMS. A presença dele na aula inaugural cumpre dois objetivos: trazer um pesquisador de grande reconhecimento para um momento simbólico do programa e contar com alguém que já colaborou diretamente com a criação e o desenvolvimento do nosso mestrado”, relata.
“Na aula inaugural, o professor Gabriele Cornelli abordará uma passagem de A República, de Platão, para refletir sobre essa relação entre filosofia e política. A expectativa é reforçar a filosofia como um campo de estudo capaz de aprofundar a compreensão das questões políticas. A ideia é mostrar que a filosofia tem um caráter prático, aqui entendido como político, e não apenas especulativo ou contemplativo, como muitas vezes afirma-se de forma equivocada”, diz André.
André destaca que no PPG, inclusive, há uma linha de pesquisa em Ética e Filosofia Política, além de Epistemologia e Filosofia da Ciência. “Desenvolvemos pesquisas com rigor científico e honestidade intelectual sobre a política, entendida não apenas como o exercício de cargos representativos, mas como parte das nossas relações sociais cotidianas. Esperamos, assim, evidenciar que a filosofia sempre esteve vinculada à reflexão sobre a política. E, neste caso da aula inaugural, partimos de um dos maiores pensadores da tradição ocidental: Platão”, fala.
“Espero que o público compreenda melhor o caráter político — e originariamente político — da filosofia. Os primeiros pensadores considerados filósofos ocidentais também eram estadistas e legisladores que, com reflexões profundas, deram início ao pensamento filosófico na Grécia Antiga”, avalia.
A filosofia como ferramenta para compreender a política
“A ideia da minha aula inaugural também é uma homenagem ao professor Héctor Benoit, da Unicamp, que faleceu recentemente e foi uma das pessoas que mais contribuíram para os estudos de filosofia antiga no Brasil. A proposta da aula é pensar a filosofia como uma ferramenta para compreender a política. A política está em tudo, desde o preço do arroz até as decisões do STF. Há hoje uma sensação, entre muitos observadores, de que estamos vivendo uma espécie de naufrágio de sistemas políticos que antes pareciam estáveis, como certos rituais democráticos, a divisão de poderes e a relação entre público e privado”, afirma o professor Gabriele.
Segundo ele, diversos autores da filosofia política e das ciências políticas têm apontado um esvaziamento de algumas instituições democráticas. “Curiosamente, esse problema já havia sido percebido por Platão no século IV antes de Cristo, quando utiliza a famosa imagem do navio, na República, para refletir sobre como governar em meio a crises políticas. A ideia do governo dos filósofos, que vou discutir na aula, costuma ser interpretada de forma simplificada. Não significa que filósofos devam assumir diretamente o poder, mas que o poder precisa ser exercido em favor de toda a população e com conhecimento do que é bom para todos, algo que exige formação intelectual e sensibilidade ética”.
“Nesse sentido, a filosofia tem historicamente o papel de questionar o poder. Um exemplo famoso é a anedota do filósofo cínico Diógenes, que, ao ser visitado por Alexandre, o Grande, respondeu ao imperador que a única coisa que ele poderia fazer era sair da frente, porque estava tapando o sol. Essa atitude simboliza o papel crítico que a filosofia pode desempenhar diante dos poderosos”, destaca. “É verdade que, em alguns momentos da história, filósofos também serviram ao poder, mas essa não é, a meu ver, a tradição mais profunda da filosofia”, acrescenta.
O professor agradeceu o convite e espera que a oportunidade sirva como um momento de encontro e reflexão. “Mesmo em tempos de crise política, a universidade pública e o pensamento crítico podem representar formas importantes de resistência. Reunir pessoas para pensar juntas, os problemas do nosso tempo, nos lembra que não estamos sozinhos. E talvez esse seja o grande legado de Platão: a filosofia se faz em diálogo, e a verdade é algo que buscamos coletivamente”, finaliza.
Saiba mais
A aula inaugural será realizada às 19 horas, no auditório Arquiteto Jurandir Nogueira, na Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia. Haverá certificado de participação. Estudantes da graduação também estão convidados a participar. Mais informações podem ser obtidas aqui.
Texto: Vanessa Amin
