Na Semana Santa, Movimento Concerto traz música e arte sacra

Na segunda-feira, dia 30, às 20h, será realizada a primeira edição do Movimento Concerto de 2026. A abertura da agenda de apresentações do ano começará com um programa musical inusitado, com obras brasileiras e portuguesas dos séculos 16 a 19 inspiradas na Páscoa.

 

De acordo com coordenador do projeto Movimento Concerto, o professor do curso de Música da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação, Marcelo Fernandes, o evento também reúne a exposição de imagens do artista plástico português Santiago Belacqua.

“Ao longo do ano, contaremos com dez concertos programados. As apresentações são gratuitas e ocorrem tanto no Teatro Glauce Rocha quanto em outros espaços da Universidade, promovendo uma diversificação das atividades. Teremos a honra de receber artistas convidados de outras localidades, além de talentos do nosso estado”, explica Fernandes.

Essa primeira edição será realizada no Teatro Glauce Rocha e conta com a participação da Camerata Madeiras Dedilhadas da UFMS, do Coro Lírico Cantarte, declamações de Geraldo Vicente Martins, dos solistas Ana Lúcia Gaborim, Angelica Jado, Eliseba Manhães, Erik Vinícius e Isaque Ferraz; e, ainda, com a presença do artista Santiago Belacqua.

“Acredito que a principal contribuição do Movimento Concerto tem sido o diálogo entre o presente e o passado, refletindo sobre experiências pretéritas e aspirando ao futuro. Tomemos como exemplo este concerto, que apresenta músicas portuguesas e brasileiras dos séculos 16 ao 19. Essa seleção possibilita uma interlocução entre nossa tradição colonial, período em que estivemos intimamente ligados à cultura portuguesa, e a produção musical europeia, especialmente a de Portugal, inserida em seu contexto histórico”, aponta Marcelo.

Para ele, a partir disso é possível obter uma perspectiva singular sobre a espiritualidade praticada no Brasil e em Portugal nesse período. “Essa iniciativa reflete um traço cultural marcante e relevante da cultura brasileira, que se estende dos séculos anteriores ao tempo presente. É como se estivéssemos abrindo um portal. A contribuição reside na possibilidade de refletir sobre o passado e vislumbrar o futuro, especialmente considerando a presença de música contemporânea nos concertos atuais”, acrescenta.

Sobre o concerto

O programa do concerto conta com clássicos da música sacra. “Começa com uma obra festiva de Henrique Lobo de Mesquita, compositor mineiro de São João del-Rei, que retrata a entrada de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos, momento em que a multidão o aclamou com ramos, saudando-o como rei. Em seguida, será executado o Miserere do Padre José Maurício Nunes Garcia, tradicionalmente associado ao período da Quaresma”, detalha Marcelo.

“O Miserere corresponde ao Salmo 51 da Bíblia na versão Septuaginta, e ao Salmo 50 na Vulgata, abordando o tema do arrependimento de Davi por seus pecados, o que o torna pertinente ao contexto pascal. A composição de Padre José Maurício é notável por sua piedade e luminosidade, dialogando com a estética pictórica. Essa peça possui aproximadamente vinte minutos de duração”, fala.

Em seguida, será executada uma seleção de compositores portugueses, apresentando obras em estilo polifônico, no qual todas as vozes atuam simultaneamente, caracterizando uma complexidade sonora. “O repertório incluirá Ave Maria e duas peças intituladas Caligaverunt, que adaptam poeticamente trechos de Lamentações de Jeremias, refletindo a temática da ausência de Deus e da escuridão, aspectos relevantes para o período da Semana Santa. A Salve Regina, por sua vez, é uma saudação à Virgem Maria, que antecipa a anunciação da vinda de Jesus, com um caráter mais celebrativo. Adicionalmente, será apresentado um Graduale, obra vocal sem texto, executada por coral silábico, que representa uma reinterpretação musical a partir de material gregoriano, em um estilo renascentista”, explica Fernandes.

Segundo o professor, o programa também inclui obras clássicas, como Lágrimas de Mozart, que evoca o sofrimento de Jesus na cruz. Em seguida, será executada Jesus e a Igreja dos Homens. O concerto culmina com o coro do Messias de Haendel, uma composição de caráter apocalíptico que se baseia na tradição cristã sobre o retorno de Cristo. A seleção musical foi cuidadosamente elaborada para estabelecer uma conexão temática com a Páscoa, e as imagens projetadas sobre a orquestra complementam os temas musicais abordados”, acrescenta Marcelo.

Artes plásticas

“A música e a arte plástica surgem noutro contexto: a projeção de imagens em 6 colecções com a história de Jesus Cristo e a Mãe, sustentadas por música ao vivo. Trata-se de um formato inédito que cruza a pintura de Séc. 21 e a música de outras épocas e países, incluindo música clássica brasileira e portuguesa, sendo esta última oriunda da antiquíssima Sé de Braga”, fala Santiago. “Primeiramente, o convite da UFMS para participar na COP15 é uma honra extraordinária para mim. É uma grande satisfação que isto aconteça precisamente em Campo Grande, onde, fui agraciado com o título de Visitante Ilustre pela Câmara Municipal”, completa o artista.

Segundo ele, a ideia do projeto audiovisual intitulado Stabat Mater surgiu há alguns anos atrás. “Pensei que seria difícil apresentar a maior parte das obras em formato físico numa exposição em simultâneo, desenvolvi o projeto audiovisual Stabat Mater. Em 2023, em São Paulo, tive a felicidade de o apresentar à minha amiga Delasnieve Daspet, visionária e ilustre cidadã de Campo Grande. E assim, sem qualquer ansiedade, conseguimos esse objetivo comum que vamos realizar no dia 27 na Igreja de São José e no dia 30 no Teatro Glauce Rocha num encontro perfeito de Edineide Dias de Oliveira e  Cant’Art e o Maestro Marcelo Fernandes e a Camerata de Madeiras Dedilhadas da UFMS, dois amigos que admiro muito”, confessa Santiago.

“Poder contribuir em linguagem pictórica contemporânea na sensibilização da temática das Espécies Migratórias foi um desafio enorme, apresentando as Amarras. Essa colecção pretende mostrar a dependência dos animais perante o ser humano…e que essas amarras desapareçam. Procurei representar espécies migratórias de todos os cantos do mundo com o cuidado especial de uma espécie iconizada em Mato Grosso do Sul, o Tuiuiú, a arara azul, o cavalo pantaneiro e a onça pintada do Pantanal, não sendo estes três últimos animais migratórios…e que nunca o sejam!”, diz Santiago.

De acordo com o artista, Stabat Mater é, ao dia de hoje, o único evento estruturado para apresentação em audiovisual. “Em um só ato conseguimos o improvável: Um concerto numa igreja e outro numa sala emblemática de espectáculos. Tudo isto sob a régie de Delasnieve Daspet”, ressalta.

Sobre o Movimento Concerto

O Movimento Concerto é promovido pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, por meio de emenda parlamentar do deputado Vander Loubet, em parceria com a Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul, que conta com o da Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura- MS. “Temos também patrocínio da Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Esportes, a quem externamos nossos agradecimentos, assim como à nossa Reitoria, pelo apoio às artes. O evento tem entrada gratuita mas é aconselhável chegar com 15 minutos de antecedência”, adverte Marcelo.

“Os concertos de Gláucio Rocha foram amplamente apreciados, com uma média de 600 pessoas por apresentação. Os concertos realizados no curso de música também alcançaram grande sucesso, com quase todas as apresentações lotando o teatro, que possui capacidade para 120 lugares. A média de público tem sido de 100 pessoas por evento, o que é muito positivo. A expectativa para este ano é ampliar ainda mais o alcance e a disseminação, levando as apresentações às diversas unidades. Essa é uma mudança significativa para este ano”, finaliza Fernandes.

Texto: Vanessa Amin