Hospital Universitário amplia cuidado e inclusão no atendimento à população trans

Assistência especializada promove dignidade, acolhimento e salva vidas

Iniciativas desenvolvidas em hospitais universitários da Rede Ebserh reforçam o compromisso do Sistema Único de Saúde (SUS) com a equidade, a humanização e o respeito à diversidade. Em diferentes regiões do país, programas e ambulatórios especializados vêm estruturando uma rede de cuidado integral voltada à população trans e não-binária.

Ambulatório do Humap-UFMS/Ebserh atende, em média, 45 pacientes por semana

Na região Centro-Oeste, o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/Ebserh), abriga o único ambulatório de referência para atendimento à população trans e não-binária em todo o estado. O serviço funciona desde 2017 e, em junho de 2024, foi oficialmente habilitado pelo Ministério da Saúde como “Atenção Especializada no Processo Transexualizador – Modalidade Ambulatorial”.

De acordo com a assistente social Patrícia Ferreira da Silva, integrante da equipe, o acesso ao ambulatório ocorre por meio do Sistema de Regulação (Sisreg), atendendo os 79 municípios do estado. São ofertadas 16 vagas novas por mês. A equipe multiprofissional inclui assistente social, enfermeira, fonoaudióloga, farmacêutica, ginecologista, urologista, mastologista e psiquiatra.

“As principais demandas envolvem acompanhamento em saúde, hormonização e busca por cirurgias de afirmação de gênero”, explica Patrícia. Segundo ela, a procura pelo serviço vem crescendo à medida que a população toma conhecimento da existência do ambulatório, o que reforça a importância da divulgação.

Avanços na área cirúrgica

Para construção de uma série histórica, de 2019 a 2024, o Humap-UFMS/Ebserh realizou mastectomias bilaterais em homens trans. Em 2025, foi realizada a primeira histerectomia com anexectomia em homem trans, procedimento cirúrgico que envolve a remoção do útero e dos anexos (ovários e trompas de falópio). A instituição busca agora a habilitação para o Processo Transexualizador na Modalidade Hospitalar, o que ampliaria o acesso e reduziria a necessidade de Tratamento Fora do Domicílio (TFD).

“Essa população enfrenta discriminação e dificuldades até mesmo para atendimentos considerados rotineiros. Garantir serviços especializados e humanizados é fundamental para reduzir riscos associados à automedicação e a procedimentos inadequados”, enfatiza Patrícia. O ambulatório também integra a pesquisa nacional Transbucal Brasil, que avalia condições de saúde bucal e o acesso aos serviços de saúde dessa população no SUS.

Projeto Transgesta

Um exemplo desse cuidado dentro da Rede Ebserh é o Projeto Transgesta, que possibilita o pré-natal especializado, implementado primeiramente na Maternidade Climério de Oliveira, da Universidade Federal da Bahia (MCO-UFBA), indicada como referência para o atendimento de pessoas trans no estado. O programa começou em 2021, por uma demanda do próprio público trans para a secretaria do Estado de Saúde. De lá pra cá, o serviço já acompanhou 14 pacientes.

Entre os casos, foram registrados transtornos psiquiátricos em parte dos pacientes, além de intercorrências comuns ao período gestacional, como alterações glicêmicas. “No entanto, esses transtornos não estão relacionados à identidade de gênero ou à disforia, mas, às violências, ao preconceito, à discriminação e às dificuldades de acesso a direitos e serviços, fatores que contribuem para o adoecimento emocional em uma sociedade ainda marcada pela transfobia”, aponta Fanny Barral, chefe do ambulatório e integrante do projeto Transgesta.

O programa também atua para reduzir barreiras no acesso à saúde, como falta de informação, preconceito e inadequação dos serviços ao atendimento de corpos que fogem ao padrão cis-heteronormativo. “Temos uma caderneta de acompanhamento específica de pré-natal para pessoas trans, reforçando o pertencimento e o reconhecimento de que homens trans e pessoas não binárias podem gestar e parir”, avalia Fanny.

Thamer foi acompanhado na Maternidade Escola da UFRJ

Desde 2024, o projeto Transgesta é realizado também na Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ME-UFRJ). Coordenado por Priscila Oliveira de Souza e Maria Isabel Cardoso, o programa recebe pacientes via regulação municipal e estadual e investe na sensibilização dos profissionais. Thamer da Silva Carneiro, 27 anos, pai parturiente de Bettina, fez o acompanhamento de sua gravidez na Maternidade Escola e guarda boas lembranças.

“A minha experiência superou todas as expectativas. Fui muito bem atendido, acolhido e respeitado, o que fez uma diferença enorme pra minha saúde mental, especialmente considerando que a gestação, por si só, já é um período de maior fragilidade e vulnerabilidade emocional”. Thamer teve acesso a uma equipe composta por fisioterapeuta, psicóloga, nutricionista, psiquiatra e endocrinologista.

“Sempre faço questão de compartilhar essa lembrança com outros homens trans que estão gestando ou pensam em gestar, pois agora acredito que sim, é possível e necessário, que esse seja um processo humanizado e respeitoso. Eu achava que gerar minha própria filha poderia ser uma experiência traumatizante, mas não foi, graças ao Transgesta. Atualmente, a Bettina está com quase oito meses e cheia de saúde!”, enfatiza Thamer.

HC-UFU atende população trans desde 2007

O Centro de Referência em Atenção Integral à Saúde Transespecífica (Craist), vinculado ao Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) foi criado em 2007. O Craist, também conhecido como Ambulatório para Travestis e Transexuais, atende pessoas que se autodeclaram trans, sem necessidade de encaminhamento prévio.

Segundo a médica Camila Toffoli Ribeiro, responsável técnica pelo serviço, após o acolhimento, o paciente é acompanhado por uma equipe multiprofissional. Entre os problemas de saúde mais prevalentes observados no Craist estão os transtornos de saúde mental, especialmente depressão e ansiedade, obesidade e alterações metabólicas relacionadas à terapia hormonal. Atualmente, o ambulatório realiza, em média, seis acolhimentos semanais. A principal procura é pelo tratamento hormonal de afirmação de gênero, seguido pelas demandas em saúde mental. “Embora não sejamos um centro cadastrado para cirurgias, a busca por procedimentos cirúrgicos também é significativa”, afirma a médica.

Camila destaca que o atendimento à população trans exige preparo técnico, sensibilidade e compromisso ético. “É completamente peculiar. O acolhimento, o respeito e o uso correto dos pronomes precisam ser prioridade absoluta. Além disso, o trabalho multidisciplinar e a troca constante entre os profissionais são essenciais, porque lidamos com casos frequentemente complexos”, ressalta.

Sobre a Ebserh

Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do SUS ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.

Texto: Coordenadoria de Comunicação Social/ Ebserh

Foto: Arquivo/Agecom