Projeto desenvolvido na UFMS busca reduzir o uso de antibióticos no tratamento da mastite bovina por meio de uma plataforma nanotecnológica bioinspirada. A pesquisa conquistou o 5º lugar no Desafio de Inovação Pantanal Tech 2026.
A mastite bovina está entre os principais desafios da pecuária leiteira em todo o mundo. Além de comprometer a saúde e o bem-estar dos animais, a doença reduz a produtividade, provoca prejuízos econômicos aos produtores e mantém o setor entre os maiores consumidores de antibióticos na produção animal. Em um cenário de crescente preocupação com a resistência antimicrobiana e a busca por sistemas de produção mais sustentáveis, encontrar alternativas capazes de tornar os tratamentos mais eficientes tornou-se uma das prioridades da pesquisa científica.
É nesse contexto que pesquisadores do Laboratório de Purificação de Proteínas e suas Funções Biológicas (LPPFB), da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Alimentos e Nutrição (Facfan), desenvolveram o projeto AcroNano. A proposta combina nanotecnologia e biotecnologia. A inovação conquistou o 5º lugar no Desafio de Inovação Pantanal Tech 2026
A equipe é integrada pela coordenadora do LPPFB Maria Lígia Rodrigues Macedo, pelo mestrando do programa de pós-graduação em Biotecnologia Guilherme Aparecido de Oliveira Cardoso e pela doutoranda do programa de pós-graduação em Biotecnologia Yasmin Lany Ventura Said. “É um projeto que só existe porque cada um trouxe um olhar complementar: a base biotecnológica, a nanotecnologia e a visão de mercado. Essa combinação é o que torna o AcroNano completo”, destaca Lígia.
Para a coordenadora, a proposta nasceu da necessidade de desenvolver soluções que unam inovação científica e aplicação prática no campo. “Nosso objetivo foi desenvolver uma plataforma nanotecnológica que aumente a eficiência do tratamento da mastite bovina, reduzindo a quantidade de antibióticos utilizada e contribuindo para uma produção mais sustentável”.
Da natureza ao laboratório
Segundo Maria Lígia, essa integração de diferentes áreas do conhecimento ocorreu desde as primeiras etapas da pesquisa. “Nós unimos um peptídeo bioinspirado, desenvolvido a partir de estudos conduzidos no nosso laboratório, a uma plataforma nanotecnológica capaz de protegê-lo e potencializar sua ação”, diz Maria Lígia.
A escolha da molécula também explica o nome do projeto. AcroNano reúne duas características centrais da pesquisa: “Acro”, em referência à espécie Acrocomia aculeata, a bocaiúva, planta nativa amplamente distribuída no Cerrado brasileiro e fonte de inspiração para os estudos desenvolvidos pelo grupo; e “Nano”, em alusão à plataforma nanotecnológica utilizada para transportar e proteger o composto bioativo. O nome sintetiza a proposta de conectar a biodiversidade brasileira às ferramentas mais avançadas da nanotecnologia.
Segundo a coordenadora, o peptídeo utilizado no projeto é considerado bioinspirado porque foi desenvolvido a partir da observação de moléculas encontradas na natureza. Em vez de utilizar diretamente um composto natural, os pesquisadores estudam suas características estruturais e funcionais para desenvolver moléculas com propriedades semelhantes, mas otimizadas para aplicações biotecnológicas.
“Os peptídeos bioinspirados permitem explorar o potencial da biodiversidade de forma sustentável. Eles podem ser projetados para apresentar maior estabilidade, maior atividade biológica e características específicas para determinada aplicação, sem a necessidade de exploração contínua dos recursos naturais”, fala Lígia.
Essa estratégia representa uma das principais vantagens da pesquisa. Além de ampliar as possibilidades de desenvolvimento de novos tratamentos, permite produzir moléculas de forma controlada e reprodutível, mantendo as características desejadas e reduzindo impactos sobre o meio ambiente. Para a equipe, esse conceito demonstra como a riqueza biológica do Cerrado pode inspirar soluções inovadoras em saúde animal, agregando conhecimento científico, conservação e desenvolvimento tecnológico.
Proteção em escala nano
Se o peptídeo bioinspirado representa o princípio ativo da plataforma, a nanotecnologia é responsável por garantir que ele consiga desempenhar sua função da forma mais eficiente possível. Para isso, os pesquisadores desenvolveram uma formulação baseada em nanopartículas de quitosana, um material biodegradável e biocompatível, capaz de proteger o composto durante seu percurso até o local onde deverá atuar.
Yasmin, responsável pelo desenvolvimento e caracterização das nanopartículas, explica que o funcionamento da tecnologia pode ser compreendido por meio de uma comparação simples. “O peptídeo funciona como um pequeno ‘remédio’ com ação contra bactérias, e a nanopartícula funciona como uma embalagem extremamente pequena, feita de quitosana, um material biodegradável, que protege esse peptídeo durante o percurso até o local onde ele deve atuar. Além de protegê-lo, essa embalagem também permite que ele seja liberado aos poucos, de forma gradual, em vez de ser disponibilizado de uma só vez”.
Segundo ela, é justamente essa proteção que diferencia a plataforma desenvolvida pela equipe. “É como transformar um ingrediente sensível em uma cápsula de liberação controlada: a nanopartícula garante que o peptídeo chegue inteiro e continue agindo por mais tempo”.
A formulação nanotecnológica entra, portanto, como uma estratégia para proteger o peptídeo, aumentar sua estabilidade e promover uma liberação gradual, favorecendo sua atuação. O AcroNano utiliza nanopartículas de quitosana obtidas por um processo denominado gelificação iônica com tripolifosfato (TPP), técnica que resulta em partículas biocompatíveis e biodegradáveis.
Yasmin destaca que, sem essa proteção, o peptídeo poderia ser degradado antes mesmo de alcançar o local onde deveria agir. “Sem essa proteção, o peptídeo poderia ser degradado antes de chegar ao local de ação. A nanopartícula funciona como um veículo que preserva sua atividade e prolonga o efeito.”
Embora o foco atual seja a saúde animal, especialmente o tratamento da mastite bovina, os pesquisadores avaliam que a plataforma nanotecnológica apresenta potencial para adaptações futuras. Novas aplicações veterinárias e até mesmo em outras áreas da saúde poderão ser estudadas, desde que pesquisas adicionais comprovem sua segurança e eficácia para cada finalidade.
Muito além do tratamento
O desenvolvimento do AcroNano foi motivado por um problema que acompanha a pecuária leiteira há décadas. A mastite bovina está entre as doenças de maior impacto para a atividade, comprometendo a saúde e o bem-estar dos animais, reduzindo a produtividade e provocando prejuízos econômicos significativos aos produtores. Além disso, figura entre as principais razões para o uso de antibióticos na produção de leite.
De acordo com Lígia, esse cenário evidencia a necessidade de desenvolver novas estratégias terapêuticas. “Buscamos uma alternativa que pudesse contribuir para o controle dessa doença sem aumentar a pressão sobre o uso de antibióticos, que é uma preocupação crescente também para a saúde pública”.
A pesquisadora observa que os peptídeos bioinspirados oferecem uma oportunidade importante nesse contexto. Desenvolvidos a partir de sequências encontradas na natureza, eles podem ser modificados para potencializar suas características biológicas, preservando propriedades desejáveis e ampliando seu potencial de aplicação.
No caso do AcroNano, o peptídeo foi desenvolvido a partir da proteína D2 do fotossistema II da Acrocomia aculeata, buscando preservar e reforçar características que favoreçam sua atividade antimicrobiana. A principal vantagem em relação às tecnologias convencionais é justamente contribuir para reduzir a dependência dos antibióticos no tratamento da mastite.
“Não se trata de substituir o antibiótico em todas as situações, mas de oferecer uma alternativa adicional que ajude a reduzir esse uso”, reforça a coordenadora do projeto. Essa estratégia acompanha uma preocupação crescente da comunidade científica em todo o mundo: o enfrentamento da resistência antimicrobiana. Ao reduzir a pressão pelo uso contínuo de antibióticos, novas tecnologias podem contribuir para preservar a eficácia desses medicamentos e ampliar as alternativas terapêuticas disponíveis para a medicina veterinária.
Caso os resultados das próximas etapas continuem positivos, a expectativa da equipe é que a plataforma nanotecnológica ofereça uma nova alternativa para o tratamento da mastite bovina. Para os médicos-veterinários, isso poderá ampliar as opções terapêuticas disponíveis. Para os produtores, a perspectiva é contribuir para reduzir perdas relacionadas à doença, como a diminuição da produção de leite e os custos associados ao manejo, favorecendo também o bem-estar animal.
Do laboratório à sociedade
O reconhecimento conquistado no Desafio de Inovação Pantanal Tech 2026 representa um passo importante na trajetória do AcroNano. Mais do que uma premiação, ele confirma o potencial da tecnologia e amplia as oportunidades para que a pesquisa avance em direção à validação, à proteção intelectual e, futuramente, à aplicação no setor produtivo.
Os próximos desafios envolvem dar continuidade aos estudos, ampliar os testes da plataforma nanotecnológica e consolidar parcerias capazes de aproximar a pesquisa do mercado. Ao mesmo tempo, o projeto continua cumprindo outro papel fundamental dentro da universidade: formar novos pesquisadores em um ambiente multidisciplinar, onde biotecnologia, nanotecnologia, inovação e empreendedorismo caminham lado a lado.
Inclusive, a aproximação com o setor produtivo começou ainda durante o desenvolvimento da pesquisa. Segundo Guilherme, a decisão de participar do Desafio de Inovação Pantanal Tech 2026 surgiu da necessidade de apresentar a tecnologia para além do ambiente acadêmico. “Grande parte dos resultados obtidos em laboratório acaba restrita ao ambiente científico, e o desafio representava a chance de apresentar a tecnologia a avaliadores de diferentes áreas, testar a comunicação do projeto para um público não especializado e receber contribuições que nos ajudassem a pensar o AcroNano também como um produto, e não apenas como uma pesquisa”, explica.
Para Guilherme, a experiência permitiu validar não apenas a qualidade científica da proposta, mas também sua capacidade de aplicação. “Enxergamos o desafio como uma oportunidade de testar se a nossa tecnologia fazia sentido do ponto de vista de mercado, não só do ponto de vista científico”.
Esse processo também abriu caminho para as próximas etapas do projeto.
A tecnologia apresenta viabilidade de aplicação tanto para proteção intelectual quanto para futura transferência ao setor produtivo. O peptídeo bioinspirado já possui pedido de patente submetido, com apoio da Agência de Inovação (Aginova) da UFMS, enquanto a formulação nanotecnológica segue em desenvolvimento. Após a conclusão das etapas de validação, a expectativa da equipe é despertar o interesse de empresas do setor veterinário. “Também vemos a criação de uma startup como um caminho possível, e é uma das frentes que estamos amadurecendo com o apoio da Aginova”, afirma Guilherme.
Para a professora, esse é o verdadeiro compromisso da pesquisa científica. “Aprendemos que ciência de qualidade e capacidade de comunicação não competem entre si. Pelo contrário: quanto melhor conseguimos explicar o problema que queremos resolver e o impacto que nossa pesquisa pode gerar, maiores são as possibilidades de transformar conhecimento em inovação e fazer com que ele chegue à sociedade”, conclui.
Texto: Vanessa Amin
Fotos: Acervo dos pesquisadores do LPPFB
