Pesquisa é desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento e busca voluntários para participarem das avaliações
Sair da adolescência e entrar na vida adulta representa um turbilhão para os jovens. Ingresso na faculdade, início da carreira profissional, mudança na rotina e, muitas vezes, redução no tempo dedicado às atividades físicas e ao lazer podem afetar significativamente os hábitos de saúde e o bem-estar. “Nesta fase, padrões de comportamento relacionados à saúde tendem a se consolidar. Por isso, avaliar a competência motora nessa etapa ajuda a entender como essas habilidades se manifestam e como podem influenciar hábitos futuros de atividade física, saúde e funcionalidade”, explica o professor Marcelo Duarte.
Esse é o foco do estudo orientado por ele e desenvolvido pela mestranda em Ciências do Movimento, Isadora Almeida da Motta. “Nosso objetivo é verificar se um instrumento internacionalmente utilizado para avaliar a competência motora, o MABC-3, funciona de forma válida e confiável para jovens adultos brasileiros entre 18 e 25 anos. Em termos simples, queremos saber se ele mede corretamente aspectos como coordenação, equilíbrio e destreza manual nessa população, permitindo identificar dificuldades motoras que muitas vezes passam despercebidas”, explicam os pesquisadores.
O MABC-3, ou Movement Assessment Battery for Children – Third Edition, é uma bateria internacionalmente reconhecida para a avaliação da competência motora. “Apesar de o nome conter ‘Children’, a terceira edição ampliou sua faixa etária e passou a contemplar também jovens adultos de até 25 anos, o que abriu novas possibilidades de investigação científica nessa população. A bateria é organizada em três domínios que avaliam diferentes aspectos do desempenho motor”, fala Isadora.
Ela detalha que o primeiro é a destreza manual, que envolve tarefas de coordenação fina e precisão dos movimentos das mãos, como desenhar círculos, inverter pequenos pinos e encaixar cubos. O segundo domínio é o de arremessar e segurar, voltado para habilidades com bola, com tarefas como receber o objeto com uma mão, acertar alvos e realizar movimentos de arremesso e recepção com precisão. Já o terceiro domínio é o de equilíbrio e locomoção, que avalia o controle corporal e a estabilidade por meio de atividades como caminhar sobre uma trave, andar para trás e realizar saltos em zigue-zague.
“A partir do desempenho nessas tarefas, o teste gera escores padronizados que permitem identificar como está a competência motora do participante. Isso faz do MABC-3 uma ferramenta importante para entender o desempenho motor de forma objetiva e cientificamente fundamentada”, completa a mestranda.
O professor Marcelo ressalta que, atualmente, o MABC-3 ainda não é utilizado oficialmente no Brasil, justamente porque não possui validação para a população brasileira, especialmente para jovens adultos. “Embora seja uma bateria consolidada internacionalmente, um instrumento desse tipo não pode simplesmente ser aplicado em outro país sem que sejam investigadas suas propriedades psicométricas naquele contexto. Isso porque fatores culturais, educacionais, ambientais e até experiências motoras típicas de cada população podem influenciar o desempenho nas tarefas. É exatamente nesse ponto que nossa pesquisa entra. Nosso trabalho está produzindo evidências científicas para verificar se a estrutura teórica do MABC-3 também se sustenta quando aplicada a jovens adultos brasileiros. Em outras palavras, estamos trabalhando para responder: o teste mede aqui, da mesma forma e com a mesma precisão que mede na população em que foi originalmente desenvolvido?”, destaca.
“Se os resultados confirmarem isso, estaremos dando um passo importante para viabilizar o uso científico dessa bateria no Brasil. Para a UFMS, isso representa um avanço significativo porque fortalece a produção científica em avaliação motora, amplia as possibilidades de pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento e posiciona a universidade como referência nacional nessa linha de investigação”, considera o orientador.
Como funciona
A avaliação acontece individualmente no Laboratório 2 do bloco 8 da Faculdade de Educação da UFMS, em Campo Grande, em um ambiente previamente organizado para garantir padronização e segurança durante toda a aplicação. De acordo com os pesquisadores, o participante realiza uma sequência de tarefas motoras orientadas pelas avaliadoras, sempre com instruções claras antes de cada atividade. A avaliação dura, em média, 30 minutos, incluindo as explicações iniciais e a execução completa das tarefas.
“Quanto à vestimenta, não exigimos roupa de ginástica, mas fazemos algumas recomendações importantes para garantir conforto e precisão na execução: roupas leves que permitam liberdade de movimento; unhas curtas, principalmente porque algumas tarefas de destreza manual exigem manipulação fina de pequenos objetos; e tênis de solado reto, que oferece melhor estabilidade nas tarefas de equilíbrio e locomoção. A ideia é que o participante esteja o mais confortável possível para que o teste avalie realmente sua competência motora, sem interferências externas”, aconselham.
Isadora explica que, para participar, não é necessário ser atleta ou praticar atividades físicas regulares. “A pesquisa busca justamente avaliar jovens adultos com perfis variados. Qualquer pessoa dentro da faixa etária e que atenda aos critérios de inclusão pode participar. O participante recebe informações gerais sobre seu desempenho motor, como sua classificação em relação aos parâmetros do teste e em quais áreas apresentou melhor desempenho ou possíveis dificuldades. Isso pode ajudar no autoconhecimento corporal e até orientar a busca por práticas que favoreçam o desenvolvimento motor e a saúde”, detalha a mestranda.
“As atividades são seguras, simples e compatíveis com a faixa etária investigada. O estudo piloto demonstrou boa percepção de segurança e confiança por parte dos participantes, sem relatos relevantes de desconforto ou risco durante a execução das tarefas, conforme apontado nos resultados de viabilidade”, explica o professor Marcelo. Porém, ele lembra que são excluídos participantes que apresentem condições que possam interferir diretamente no desempenho motor durante a avaliação, como lesões recentes, limitações físicas, alterações visuais graves não corrigidas ou qualquer condição que comprometa a execução segura das tarefas.
Até o momento, de acordo com os pesquisadores, foi concluído um estudo piloto com 60 participantes, que já trouxe informações importantes sobre a aplicabilidade do instrumento. “Os resultados preliminares mostraram predominância de desempenho dentro da faixa considerada típica, sem efeitos piso ou teto relevantes, indicando boa sensibilidade inicial do teste para essa população”, avaliam. “Esperamos confirmar que o MABC-3 apresenta evidências adequadas de validade da estrutura interna para jovens adultos brasileiros. Se isso for confirmado, teremos uma ferramenta cientificamente sustentada para avaliar a competência motora nessa faixa etária e ampliar as possibilidades de pesquisa, diagnóstico e intervenção”, complementam.
O trabalho também é vinculado ao Grupo de Pesquisa em Comportamento Motor e Psicologia da Motricidade Humana, contribuindo para o avanço das investigações sobre avaliação motora e desempenho funcional no início da vida adulta. Para a participação na pesquisa, é necessário realizar o agendamento prévio com a equipe responsável pelo estudo por meio dos canais oficiais da pesquisa (e-mail, Instagram ou WhatsApp: (67) 99633-5809).
“Participar da ciência é uma forma concreta de contribuir para a produção de conhecimento que pode gerar impacto real na sociedade. Muitas vezes, pequenas contribuições individuais ajudam a construir ferramentas e evidências que beneficiam muita gente no futuro. Para os jovens da UFMS e de Campo Grande, participar de pesquisas é também uma oportunidade de vivenciar a universidade como espaço de transformação, inovação e construção coletiva do conhecimento”, finalizam Isadora e Marcelo.
Texto: Vanessa Amin
Fotos: Acervo dos pesquisadores
