E se jogar também fosse uma forma de resolver problemas da sociedade por meio da reflexão e produção de conhecimento aplicado? Essa é a premissa que tem orientado projetos de desenvolvimento de games digitais em universidades brasileiras, onde os games deixam de ser apenas experiências de entretenimento para se tornarem instrumentos de pesquisa (experimentação e produção de conhecimento), empreendedorismo, inovação e resolução de problemas da sociedade. No Laboratório de Engenharia de Software (Ledes), da Faculdade de Computação (Facom) na UFMS de Campo Grande, estudantes e professores estão desenvolvendo games digitais que vão além: promovem educação ambiental, melhoria da saúde com games acessíveis para pessoas cegas, inclusão de mulheres e, ao mesmo tempo, impulsionam o ecossistema e o setor de tecnologia para o avanço econômico da sociedade.
De acordo com o coordenador Ricardo Theis Geraldi, a iniciativa está estruturada em dois eixos complementares. “O Ledes Games abrange a entrega de resultados por meio de um projeto de extensão chamado Engenharia Criativa de Games Digitais e um projeto de pesquisa voltado à Modelagem de Sistemas de Softwares Modernos e Intensivos em Paradigmas Emergentes”, explica. Ele ressalta, no entanto, que a distinção não está nos produtos em si, mas nos resultados que os sustentam – a extensão gera inovação com novos games digitais (produtos aplicados) para problemas complexos da sociedade (pesquisa). A complexidade dos problemas é investigada e resolvida sistematicamente por meio da pesquisa científica.
Essa integração permite que os games desenvolvidos funcionem simultaneamente como soluções práticas e objetos de investigação acadêmica para a produção científica relevante na área de engenharia de games digitais. Os resultados, que já começam a despontar, remontam à iniciativa de dois estudantes: Gilvan Júnior e Miguel Albuquerque. “Em 2024, participamos do PET Sistemas e nos unimos para iniciar o desenvolvimento de dois games chamados Museu das Mulheres (Des)conhecidas e Pantanal World. Assim, o time surgiu a partir do nosso interesse pela área de desenvolvimento de games”, lembram. A criação inicial dos dois games mobilizou outros estudantes, que passaram a contribuir de forma multidisciplinar com aspectos de arte, design e som.
Em 2024 o projeto escalou quando o professor Ricardo Theis Geraldi assumiu a orientação das atividades, a partir de convite do professor Awdren Fontão. Desde então, o projeto foi formalizado e ampliado. Em 2025, passou a contar com estrutura institucional própria, articulando um projeto de pesquisa e um de extensão, além de incorporar novos integrantes por meio de competições para fomentar o desenvolvimento de games digitais como Game Jams e participação em eventos internacionais, como a GameJam+ (GJ+).
Além de Ricardo Theis, as professoras da Facom Débora Paiva e Maria Istela Cagnin colaboram com o time, bem como o professor da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (Faalc), Vitor Zan e professor Antonio Paranhos Filho do Programa de Pós-Graduação em Tecnologias Ambientais (PPGTA).
Mais do que formar desenvolvedores e artistas para o MS, o Ledes Games busca fomentar um ecossistema de empreendedorismo, inovação e economia. Segundo Theis, a proposta central é estimular o desenvolvimento de soluções para problemas reais da sociedade por meio dos games digitais. Ele destaca que os projetos abrangem temas com games digitais desenvolvidos para disseminar a educação ambiental, inclusão de mulheres, acessibilidade para pessoas cegas, educação no trânsito, saúde (no futuro, incluindo condições como discalculia, TDAH e autismo) e o Museu de Ciência e Tecnologia da UFMS.
Ao mesmo tempo, o projeto responde a uma demanda do mercado: “A engenharia de games ainda carece de mão de obra e grandes investidores que acreditem a longo prazo no poder emergente de crescimento econômico do Brasil, e é necessário ampliar incentivos para fortalecer esse setor em nível nacional e internacional. Estamos à procura de investimentos iniciais na faixa de R$ 10 milhões de reais para manter o time e evoluir os games com foco na resolução de problemas reais e crescimento econômico da sociedade. Sem investimentos nesta faixa de valores não há como evoluir internacionalmente e competir diretamente com mercados consolidados como: Estados Unidos, Japão e Europa (líderes nos setores). Por exemplo, games de entretenimento como GTA V, custaram cerca de US$ 200 milhões de dólares para produção. Neste sentido, por que não iniciar a idealização de um novo game que faça sentido para a sociedade, chamado Pantanal World 3D? Começamos a modelar o mundo do Pantanal 3D de maneira interativa e divertida para publicar isso internacionalmente. O professor Antonio Paranhos também está nos ajudando neste desafio!”, afirma.
Nesse contexto, os games digitais são compreendidos como ferramentas de engajamento e interação ativas. Diferentemente de mídias tradicionais passivas (filmes e músicas), games digitais permitem às pessoas interagirem diretamente com o conteúdo, o que potencializa o aprendizado e resolução de problemas complexos. Theis observa que essas características favorecem a construção de conhecimento de forma mais envolvente e significativa, especialmente quando associada a temáticas de problemas complexos e relevantes da sociedade. “Os games favorecem a interação ativa das pessoas como formas de educá-las sobre problemas reais de maneira leve e, principalmente, muito divertida. Por exemplo, o game Pantanal World favorece o aprendizado do público infanto-juvenil sobre meio ambiente, o game Theuseus’ Odyssey favorece a inclusão de pessoas cegas em um contexto histórico-cultural, bem como o game Museu das Mulheres (Des)conhecidas conta a história de mulheres do centro-oeste que sofreram ao longo do tempo”.
Ciência e multidisciplinaridade
A base desse processo está na aplicação de metodologias científicas ao desenvolvimento dos games. O coordenador Ricardo Theis explica que uma das principais abordagens adotadas é a Design Science Research (DSR), que orienta a identificação de problemas e a criação de soluções por meio da criação de artefatos principais — neste caso, games digitais inovadores, divertidos e disruptivos para problemas reais. O processo inclui etapas contínuas de avaliação e aprimoramento, com participação de usuários e especialistas, permitindo ajustes progressivos e geração de novos conhecimentos para a área. “O game criado será avaliado e melhorado continuamente pelas pessoas ou especialistas da área para atender seu público alvo da melhor maneira. Além disso, é possível emergir descobertas com as avaliações para otimizar métodos de desenvolvimento de games, criação de artes ou algoritmos computacionais na engenharia de games digitais”, detalha Theis.
A complexidade desse modelo exige uma atuação multidisciplinar. O desenvolvimento dos games envolve conhecimentos que abrangem a grande área da Computação, Artes, Música, Meio Ambiente, Educação, Psicologia, Saúde e Ciências Sociais. Essa diversidade se reflete na composição do time, formado majoritariamente por estudantes da Computação, mas com participação de estudantes de outras áreas, como Artes e Comunicação, engenharia ambiental, da música, além de professores colaboradores com diferentes especialidades.
Projetos em destaque e perspectivas de expansão
Entre os projetos em desenvolvimento, o Pantanal World se destaca pelo foco em educação ambiental. Segundo Miguel Albuquerque e Gilvan Júnior, o game foi concebido para o público infanto-juvenil e busca conscientizar sobre a fauna do Pantanal e do Cerrado. Eles explicam que o jogador percorre cenários inspirados na natureza brasileira, interagindo com mais de 27 espécies de animais. Ao mesmo tempo, o game incorpora mecânicas voltadas à alfabetização, letramento e à escrita, com níveis de dificuldade adaptáveis e interface intuitiva. O reconhecimento institucional já começou a aparecer: o projeto foi indicado à premiação na trilha da COP-15 durante o Integra 2025 da UFMS, evidenciando seu potencial de impacto socioambiental.
Outro exemplo é o Theseus’ Odyssey, que aposta na acessibilidade de pessoas cegas como elemento central. De acordo com Arthur Barbosa, o game é uma adaptação do mito de Teseu em formato RPG de ação, permitindo ao jogador explorar diferentes estratégias ao longo da narrativa. O diferencial está na implementação de tecnologias assistivas voltadas a pessoas cegas, com uso de feedbacks sonoros que garantem autonomia durante a experiência. Além disso, o game estimula habilidades cognitivas relacionadas à estratégia e apresenta elementos da cultura grega de forma integrada ao enredo.
Mesmo em fase de desenvolvimento, os games já vêm sendo testados em eventos institucionais, como o Integra UFMS e a COP15 POP. Segundo Theis, a recepção do público tem sido positiva, com alto nível de engajamento e interesse em acessar os games fora do ambiente acadêmico. As avaliações realizadas até o momento focaram principalmente na usabilidade, mas novas etapas de validação — com abordagens qualitativas e quantitativas — estão previstas para aprofundar a análise dos impactos educacionais e sociais.
Além dos resultados externos, o projeto tem impacto direto na formação dos estudantes envolvidos. Theis destaca que a participação no Ledes Games exige atualização constante de competências comportamentais e técnicas (soft and hard skills). Os estudantes desenvolvem habilidades como comunicação, liderança e proatividade, ao mesmo tempo em que aprendem novas tecnologias e metodologias de desenvolvimento. Esse conjunto de competências os prepara tanto para a continuidade na vida acadêmica quanto para atuação no mercado de trabalho.
O projeto avança na construção de parcerias com organizações privadas (fomento externo), instituições de ensino e iniciativas da área de tecnologia, ampliando seu alcance e potencial de aplicação. Dentre os parceiros estão o Bruno Pereira e André Santee da Asantee Games, que possuem uma game com cerca de 50 milhões de download, chamado Magic Rampage. “Esta empresa é de Campo Grande, foi idealizada na incubadora da UFMS, apoia o Ledes Games fortemente, possui visibilidade internacional e inspiração para todos nós do time”, ressalta Theis. Ainda neste ecossistema do MS está a Associação de Jogos de Mato Grosso do Sul, o Senac Hub Academy com o curso Técnico em Programação de Jogos Digitais, a loja referência geek de Campo Grande, chamada Meninus Games, além do professor Yuri Karan do IFMS.
“Todos nós trabalhamos juntos para evoluir o ecossistema de desenvolvimento de games no MS. Entre os nossos próximos passos o time já está sendo expandido, há o desenvolvimento de novos games e a consolidação ao longo do tempo do Ledes como um studio de engenharia criativa de games digitais com atuação em pesquisa, desenvolvimento e inovação dentro da UFMS. A perspectiva de crescimento inclui novos títulos em desenvolvimento, como uma versão 3D do Pantanal World (Pantanal World 3D), além de games voltados à educação no trânsito e para a área da saúde. Paralelamente, os games já existentes devem ganhar versões completas e novas funcionalidades, acompanhando a evolução das pesquisas científicas”, destalha Ricardo.
Para o coordenador, a principal transformação promovida pelo projeto está na mudança de papel dos games na sociedade contemporânea. “A mudança vem no sentido da Inovação, que deixou de ser passiva e agora é ativa (interativa). Essa é uma exigência da nova geração de pessoas da sociedade 5.0. O design de interação (ativo na sociedade 5.0) possibilita novos aprendizados das pessoas e imersão em novos mundos. Esses novos mundos (fornecidos via games digitais) auxiliam as pessoas a refletirem e se conscientizarem sobre os problemas da sociedade de forma lúdica e divertida. Não é apenas ser uma pessoa passiva e assistir a um filme ou ler um livro, mas sim participar do filme, agora totalmente interativo. Muito além disso, criar um mundo digital para a pessoa imergir no problema e ter empatia reflexiva para mudar o mundo real a sua volta, seja por desafios que são enfrentados por ela a todo momento no convívio em comunidade. Portanto, sabemos que viver em comunidade é desafiador culturalmente no Brasil, pretendemos mudar isso e possibilitar o crescimento econômico ao mesmo tempo via games digitais e pesquisa científica”, comenta Theis.
Essa ideia é reforçada por Nathan Rezende, que sintetiza o potencial dos games como instrumentos de mudança. Para ele, o game se torna uma ferramenta de inovação quando consegue estabelecer uma conexão real com o jogador, promovendo imersão por meio de elementos como narrativa, trilha sonora e design visual.
Atualmente, o Pantanal World já pode ser baixado na Play Store. Os demais games do Ledes podem ser acessados por meio da página oficial do projeto: facom.ufms.br/ledesgames. Há a previsão de lançamento de outros jogos nas plataformas mundiais. O time investe em estratégias de divulgação presencial, como a criação de um fliperama itinerante em parceria com o time de robótica da UFMS, Ararabots, levando os games digitais para eventos e espaços públicos.
Entre códigos e desafios interativos, o Ledes Games se consolida como um exemplo de como a universidade pode integrar ensino, pesquisa, extensão, inovação e empreendedorismo para desenvolver soluções capazes de dialogar com problemas reais da sociedade e contribuir para mudar o mundo real aliado a formação de uma nova geração de profissionais.
Texto e fotos: Vanessa Amin

