Rodas de conversa abordaram temáticas indígenas na COP15 POP

Iniciativas na COP15 POP na UFMS, em Campo Grande, reuniram pesquisadores de diversas áreas e representantes das comunidades para discutir temáticas relacionadas aos indígenas. A relação com a natureza, a agroecologia, os territórios e a conservação da biodiversidade foram abordadas em duas rodas de conversa, com participação aberta a todos os interessados.

Relações com a natureza

O auditório Arquiteto Jurandir Nogueira sediou o evento Diálogos interculturais – Povos Indígenas e sua relação com a natureza. A organização foi feita pela coordenação e por integrantes do Programa Nacional de Apoio à Permanência, Diversidade e Visibilidade para Discentes na Área da Saúde, o AfirmaSUS Saúde Indígena UFMS.

Na abertura, o vice-reitor Albert Schiaveto agradeceu aos grupos pela programação e ressaltou a relevância do programa. “É um projeto do Governo Federal muito importante para que possamos ajudar nossos estudantes a permanecerem na Universidade, a se prepararem, principalmente na área da Saúde, para que possam voltar aos seus territórios e fazerem a diferença. Temos estudantes e também servidores indígenas, então pensamos de maneira transversal, queremos um ambiente cada vez melhor na UFMS para vocês. Parabéns pelo trabalho e por estarem na COP15”, disse.

A pró-reitora de Cidadania e Sustentabilidade (Procids), Vivina Sol, declarou a alegria de trabalhar em uma universidade que tem como lema a humanidade, a inovação e a sustentabilidade. “Como fazemos isso? Com inclusão. Pensando nisso, foi criada a Procids e tenho orgulho de ser pró-reitora e poder trabalhar com vocês. Dentro da nossa pró-reitoria temos o programa UFMS Indígena, esta é uma das ações deste programa. Os povos originários são nossos guardiões e é um privilégio ter vocês conosco e contar com vocês também na organização desse evento tão lindo que está abrilhantando nossa COP15 POP”, afirmou.

O responsável técnico de Saúde Bucal do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de MS, Henrique Ribeiro, explicou que o Distrito atende mais de 90 mil indígenas do estado e que é responsável pela oferta de atenção primária à saúde, com ações vinculadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Nada mais justo que estarmos aqui hoje nesse momento tão importante, para discutir a relação dos povos originários com a natureza, sempre fortalecendo esse conhecimento, esse diálogo que é fundamental. […] Quando trazemos a questão das medicinas tradicionais é nesse sentido de resgatar o que há de mais forte na cultura indígena, o conhecimento de vocês, aquilo que podemos transmitir não só por meio dos anciãos, mas que perdure pela vida inteira”, anunciou.

O estudante de Medicina Tauan Terena esteve à mesa representando a Rede Saberes, que agora se chama Rede Acadêmica Indígena. “Somos um coletivo de jovens sonhadores que vieram de suas terras justamente para desbravar esse meio acadêmico, e quando conversamos sobre o tema da COP15, aves migratórias, chegamos à conclusão de que, assim como elas, nós também desbravamos o mundo por meios que não conhecíamos, inclusive a Universidade. E, com a nossa presença aqui, conseguimos quebrar estereótipos. Os indígenas eram estudados apenas, nós passamos a ser estudantes e, assim, fortalecermos conhecimento, a ciência e, sobretudo, trazemos conhecimento tradicional para dentro da comunidade acadêmica”, declarou.

A professora da Faculdade de Educação (Faed), Shirley Vilhalva, que é representante da Década Internacional das Línguas Indígenas, destacou a importância da temática indígena. “Língua é saúde, seja falada, sinalizada ou escrita. […] Precisamos de profissionais na área da saúde habilitados nas três línguas. Eu sou surda e estou sendo acompanhada pela tecnologia, muitas vezes eu não olho para vocês, eu ouço pela tecnologia. Para quem não conhece isso parece uma pauta da educação, mas, na verdade, é saúde mental. Agora digo, onde estão as línguas indígenas na tecnologia? Como ter saúde mental se não há ainda as línguas indígenas na tecnologia?”, indagou.

A coordenadora do AfirmaSUS Saúde Indígena UFMS, professora do Instituto Integrado de Saúde (Inisa), Gislaine Recaldes, explicou que a proposta foi ouvir diferentes etnias sobre suas relações com a natureza. “Assemelha-se à discussão da COP15 relacionada às aves migratórias porque eu acho que existe também um percurso migratório dos povos indígenas. Como foi colocado na mesa sobre os povos indígenas vivendo em contexto urbano, muitas vezes eles sofrem muito por saírem das aldeias para virem estudar e trabalhar. Então, a ideia foi ouvir representantes de etnias diferentes porque falar de povos indígenas é falar de muita diversidade, não dá pra generalizar”, refletiu.

A mesa foi composta pela pedagoga Maria Auxiliadora Bezerra, Terena, que já atuou como professora no Ensino Fundamental e como professora de Arte e Cultura Indígena; pela artista e estilista de moda autoral Benilda Vergílio, Kadiwéu, formada pelo Magistério Intercultural dos Povos do Pantanal, bacharel em Design pela Universidade Católica Dom Bosco e mestre em Antropologia Social pela UFMS; pelo pesquisador especialista em Engenharia Florestal, Weverton Lopes da Silva; e pelo diretor do Centro de Formação de Professores Indígenas de MS, Alexandre Jorge, Terena.

A roda de conversa seguiu a proposta de entender como as diferentes etnias se relacionam com a natureza e, consequentemente, o impacto que essa relação tem com a saúde. “Ficou muito nítido que existe um processo de adoecimento por conta dessa relação e por conta das condições vividas. Como disseram, a água é vida e muitas etnias têm sofrido com a falta dela. Quando chega é por meio de caminhão pipa então eles guardam, e aí começa um outro processo, o de reprodução e proliferação de mosquitos que podem causar doenças como dengue e a chikungunya, que é o que está acontecendo agora”, exemplificou. Entre as questões abordadas na mesa, estiveram ainda os impactos da relação do homem com a natureza também para os não-indígenas e o reforço à importância da conservação. 

Horta da Aldeia

Já no Multiuso 1, foi realizada a Roda de conversa Agroecologia, territórios indígenas e conservação da biodiversidade: experiências do projeto Horta da Aldeia. A iniciativa foi apresentada pelos professores da Faculdade de Ciências Humanas (Fach) André Fonseca e Vanderleia Mussi. 

O projeto, que tem como nome oficial Agricultura periurbana e comunidades tradicionais em situação de vulnerabilidade social, surgiu como uma resposta a problemas como insegurança alimentar, baixa diversidade produtiva e dependência externa em territórios indígenas e em comunidades em vulnerabilidade onde a UFMS já atuava na extensão. Construída em diálogo com as lideranças locais, a ação envolve 14 comunidades em oito municípios do estado e a produção é orientada por uma leitura socioantropológica dos territórios, tendo como ponto de partida os saberes, práticas e temporalidades das próprias comunidades. A construção de soluções é feita de maneira conjunta, respeitando a cultura, território e formas de vida.

Entre os assuntos abordados na apresentação feita pelos professores estiveram a agroecologia como eixo estruturante da ação; a conservação da biodiversidade na prática; a autonomia e a redução da dependência entre as comunidades; os vínculos e a transmissão de saberes e a conservação nos territórios. Foram apresentadas ainda três experiências desenvolvidas no projeto. 

“Foi uma tarde muito proveitosa na COP15 POP, tivemos um público variado composto por pessoas de fora da Universidade, de fora da cidade, estudantes de graduação, pós-graduação, professores da rede municipal e até pessoas sem vínculo com instituições de ensino. Para nós foi muito interessante por conta dos retornos diferenciados que essa diversidade proporcionou sobre nossas ações”, observou o professor André. 

Além de questionamentos sobre o projeto em si, os pesquisadores também receberam perguntas sobre a história e cultura indígena no Brasil. “A gente pôde sanar muitas curiosidades e fazer apontamentos a respeito dos aspectos gerais, então foi uma roda de conversa muitíssimo interessante. Saímos bastante satisfeitos, o tema pôde se desdobrar em assuntos mais estruturais e o público foi bastante receptivo e entusiasmado com os resultados que apresentamos”, conclui.

A programação científica da COP15 POP teve ainda debates, oficinas e apresentações de temáticas variadas como divulgação científica, sustentabilidade, inteligência artificial, educação ambiental, astronomia, turismo, economia criativa e culinária, entre outras. 

Texto: Ariane Comineti 

Fotos da roda de conversa Diálogos interculturais – Povos Indígenas e sua relação com a natureza: Ariane Comineti

Fotos do projeto Horta da Aldeia: Arquivo dos pesquisadores