Passarinhada convida público a ver e ouvir a riqueza das aves entre árvores, trilhas e Lago do Amor

Durante a programação da COP15 POP, a passarinhada guiada transformou caminhos conhecidos em território de descoberta, revelando uma biodiversidade que, muitas vezes, passa despercebida. Em meio à rotina acelerada da cidade, a atividade faz um convite aos participantes: olhar para o alto, escutar com atenção e redescobrir a natureza que resiste — e floresce — na UFMS de Campo Grande.

“Aqui na UFMS a gente já tem registro de mais de 200 espécies. Tem aquelas errantes, que só passam ocasionalmente, mas, no geral, é uma diversidade muito grande”, explica o mestrando em Ecologia e Conservação Lucas Ribas Casanova.  “Nas trilhas que a gente faz, por exemplo, tem o Big Day, que é um evento internacional em que várias pessoas no mundo se juntam para fazer passarinhadas no mesmo dia. Aqui na UFMS, a gente já registrou 68 espécies em uma manhã — em outra ocasião chegaram a 72. É muita espécie”. Ele e o colega Matheus Almeida guiaram os participantes pela trilha de avistamento das aves, realizadas nas manhãs dos dias 24 e 26. Para eles, a passarinhada é uma experiência que vai além de simplesmente observar aves. Trata-se de aprender a perceber — com os olhos e, principalmente, com os ouvidos. “As aves vocalizam bastante, e isso é como se fosse o ‘CPF’ delas. Cada espécie tem o seu canto. Às vezes são muito parecidas visualmente, mas o som é diferente — e é isso que ajuda na identificação”, fala Lucas.

A trilha dura cerca de duas horas, com saída da Sala da COP15, no Corredor Onça-Pintada. No ponto de encontro Lucas e Matheus falam sobre a área a ser percorrida e dão orientações sobre hidratação, pontos de parada para descanso. “Inicialmente, apresentamos esta área, sobre a qual detalharemos em breve. Conhecida carinhosamente como “Cerradinho”, trata-se de uma reserva biológica com aproximadamente 50 hectares de vegetação nativa. O percurso proposto consiste em uma caminhada leve ao redor dessa área, passando pela região do Lago do Amor e finalizando o trajeto nesse mesmo ponto”, explicam.

Ao longo do percurso, um dos pontos centrais da atividade é entender como diferentes ambientes coexistem dentro do campus — e influenciam diretamente na presença das espécies. “A gente tem mata ciliar, perto do córrego, e áreas de cerrado mais seco, como perto do Lago do Amor. São ambientes diferentes, com espécies diferentes. Essa variedade ecológica permite que a universidade abrigue múltiplas comunidades de aves. Isso mostra que a vegetação da UFMS comporta espécies com necessidades distintas. E reforça a importância da preservação dessas áreas”, ressalta Lucas.

Segundo ele, no Lago do Amor, essa dinâmica se intensifica. “Criado artificialmente para conter alagamentos, o local hoje revela um novo cenário ecológico. Com o tempo, o lago sofreu assoreamento e acabou formando bancos de areia e áreas alagadas, como um brejo. Isso atrai outras espécies. O resultado é um mosaico de vida. Ali dá para ver garças, por exemplo. Esse ambiente novo cria oportunidades para diferentes aves”, acrescenta o mestrando.

Durante a caminhada, comportamentos curiosos também chamam a atenção — especialmente quando o assunto é sobrevivência. “Para fugir de predadores, as aves podem se esconder, fugir ou enfrentar. E, quando enfrentam, elas se unem — até entre espécies diferentes. Esse comportamento coletivo é conhecido como ‘tumulto’. Quando aparece um predador, como o caburé, várias aves se juntam para espantar. Elas voam em volta, bicam… é uma defesa coletiva”, destaca Lucas. O biólogo ressalta que, na briga, algumas espécies se destacam. “O bem-te-vi é um dos primeiros a atacar. Ele é bem briguento, vai para cima mesmo”.

A passarinhada também revela histórias curiosas — algumas científicas, outras culturais. Entre elas, a pomba-asa-branca, conhecida não apenas pela aparência. “Ela tem uma faixa branca na asa, que dá o nome. E foi essa espécie que inspirou a música ‘Asa Branca’, do Luiz Gonzaga”, conta Lucas. Outra descoberta frequente é o gavião-preto, comum no Pantanal, mas menos visto na cidade. “Aqui em Campo Grande ele não é tão comum, mas já foi registrado no Lago do Amor, inclusive com ninho e filhote”, diz.

Em alguns momentos do percurso, os guias utilizaram o recurso do playback. “Tem que ter cuidado, porque isso pode acabar estressando os animais. Então, o uso de playback precisa ser sempre com respeito. A gente não toca perto de ninho, para não causar estresse, e também não usa por muito tempo. Normalmente, quando quer saber o que tem na região, a gente toca só um pouco para ver se alguma espécie responde. Algumas espécies já estão mais acostumadas, porque acabam competindo por território e vocalizam naturalmente. Então a gente usa o playback só por um momento, para confirmar a presença, e já para”, conta Matheus.

Em relação à escuta, o sabiá-laranjeira é um dos que se destaca pelo som. “O canto dele é bem melódico, geralmente no começo da manhã e no fim da tarde. É um dos mais marcantes”. Lucas e Matheus explicam aos participantes que queiram exercitar a escuta ativa de pássaros podem recorrer ao apoio da tecnologia. Aplicativos como o Merlin, desenvolvido por um laboratório de referência internacional, auxiliam na identificação por áudio — ainda que com ressalvas. “Ele ajuda bastante, mas sempre precisa conferir. Às vezes indica uma espécie que não está ali. Então a gente compara o canto, a aparência, para ter certeza”, aconselham.

“Algumas aves têm dimorfismo sexual, ou seja, macho e fêmea são diferentes visualmente. No caso do joão-de-barro, essa diferença não é tão evidente no corpo, mas aparece no canto. A fêmea canta de um jeito, mais suave, e o macho tem um canto mais acelerado. Dá para diferenciar os dois pela vocalização. Eles fazem o que a gente chama de dueto. É um canto em conjunto, que pode servir tanto para defesa de território quanto para manter o vínculo do casal — como se fosse uma ‘conversa’ entre eles”, fala Lucas. Durante a trilha, foi possível conferir de perto como isso ocorre, ao observar um casal da espécie em sua casa, no poste próximo ao Complexo Aquático. “Além da defesa, eles também usam o canto para se localizar quando estão separados e para manter esse contato constante entre o casal”.

Para quem participa, a experiência deixa marcas. Visitantes de fora do estado se surpreendem com o que encontram. “Estou maravilhada com a UFMS. É uma universidade muito acolhedora, confortável, receptiva. Estou encantada”, aponta Maria Elisa Queiroz. Ela está cursando pós-doutorado em Biotecnologia na UFMS e trouxe o marido e a filha para fazerem a passarinhada. A família é do Pará e está aproveitando a semana para participar da COP15. “Já estou aqui há dois meses — tenho achado uma cidade muito boa. Além da passarinhada, queremos ir ao planetário ainda hoje. Ontem, infelizmente, a chuva atrapalhou um pouco, porque íamos ao Cine COP. Vamos tentar participar do Festival da Juventude”, detalha.

Ao final do percurso, fica evidente que observar aves exige mais do que olhar — exige presença. “Quanto mais cedo você sai, mais vê. As aves são mais ativas no início da manhã”, diz Matheus. E, mais do que quantidade, a experiência propõe qualidade de atenção. “Em alguns lugares, como o Lago do Amor, você pode ficar parado observando. Em outros, precisa caminhar e ter um pouco de sorte”. Entre cantos, voos e silêncios, a passarinhada revela algo maior: a possibilidade de reconexão com o ambiente — mesmo em meio à cidade. E, como aprendem os participantes, basta um pouco de atenção para perceber que a natureza nunca deixou de estar ali.

Lucas e Matheus também são fundadores do Clube Acadêmico de Observação das Aves (Caoa UFMS). O Caoa foi criado com o objetivo de reunir a comunidade acadêmica para troca de conhecimentos acerca do mundo das aves e apreciação da natureza e sua importância, por meio da atividade de observação de aves de vida livre, a reaproximação das pessoas com a natureza. O Clube não visa ser um grupo com apenas biólogos ou especialistas em ornitologia, é um clube para qualquer pessoa que esteja buscando conhecer mais sobre o mundo das aves ou apenas realizar uma atividade ao ar livre e apreciar a natureza

Texto e fotos (passarinhada): Vanessa Amin

Fotos das aves: Lucas Ribas e Matheus Almeida