Time Enactus de Chapadão do Sul promove empreendedorismo feminino e conquista reconhecimento nacional

Na abertura de uma série reportagens sobre os times Enactus da UFMS, conheça a iniciativa que fortalece pequenos negócios e amplia oportunidades para mulheres da comunidade

Vender amendoins nos estacionamentos de supermercados já fazia parte da rotina de Valquíria Monteiro Ferreira da Silva, mas ela ainda não se reconhecia como empreendedora. Essa percepção começou a mudar quando passou a participar do Mulheres que Crescem, projeto desenvolvido pelo Time Enactus da UFMS de Chapadão do Sul. Ao longo das atividades, ela aprimorou a apresentação dos produtos, ganhou uma marca e etiquetas para as embalagens, participou de eventos e passou a comprar amendoins em maior quantidade para sua produção.

A trajetória de Valquíria, que é pessoa com deficiência, representa uma das transformações acompanhadas pelos estudantes que integram o time. Criado para incentivar o empreendedorismo feminino e a geração de renda, o Mulheres que Crescem oferece capacitações e mentorias a mulheres que desejam iniciar um negócio ou fortalecer atividades que já desenvolvem.

Segundo a professora do curso de Administração e conselheira do Time Enactus, Narle Teixeira, o projeto busca não apenas transmitir conhecimentos sobre gestão e empreendedorismo, mas também estimular as participantes a reconhecer suas próprias capacidades.

A iniciativa integra as ações da Enactus, organização internacional sem fins lucrativos que mobiliza universitários para desenvolver projetos de empreendedorismo social, associando o conhecimento acadêmico à busca de soluções para problemas das comunidades. No Brasil, a rede encerrou o ciclo 2025-2026 com 129 times ativos e 3.154 estudantes, responsáveis por mais de 254 mil horas de trabalho voluntário, segundo dados da Enactus Brasil.

Esta reportagem abre uma série sobre a atuação dos times Enactus da UFMS. A iniciativa busca apresentar os projetos desenvolvidos pelos estudantes, os desafios enfrentados pelas equipes e os resultados alcançados nas comunidades. Integrados a um movimento que reúne universitários de diferentes instituições brasileiras, os times desenvolvem iniciativas voltadas a demandas locais, em áreas como geração de renda, sustentabilidade, inclusão social e desenvolvimento comunitário. A série também pretende mostrar como essas experiências contribuem para aproximar a Universidade da sociedade e fortalecer o protagonismo estudantil na construção de soluções para problemas reais.

Conhecimento que se transforma em oportunidade

O Mulheres que Crescem surgiu de uma pesquisa de campo realizada pelos estudantes para identificar dificuldades enfrentadas por mulheres interessadas em empreender. O levantamento apontou a existência de mães solo, mães de crianças com necessidades específicas e mulheres em situação de vulnerabilidade que possuíam habilidades para produzir ou oferecer serviços, mas encontravam obstáculos para transformar essas atividades em fonte de renda.

“Fizemos uma pesquisa de campo e percebemos que temos muitas mães solo, mães atípicas ou mulheres em vulnerabilidade que têm sonhos ou já sabem fazer algum produto ou serviço, porém não sabiam colocar isso no mercado”, explica a estudante de Administração e vice-presidente do time, Francielle de Souza Silva.

A partir das necessidades identificadas, os estudantes organizaram uma trilha de formação voltada ao desenvolvimento de competências para a gestão de pequenos negócios. Entre as principais dificuldades observadas estavam a separação entre as finanças pessoais e as do empreendimento e a elaboração de estratégias de divulgação para alcançar consumidores.

No primeiro ciclo, foram oferecidos quatro módulos, distribuídos em encontros mensais de quatro horas. As atividades incluíram materiais impressos, apresentações, exercícios práticos acompanhados pelos integrantes do time e palestras com convidados. Além das capacitações, as participantes receberam mentorias semanais para esclarecer dúvidas e aplicar os conhecimentos em seus negócios.

A mobilização das mulheres ocorreu por meio de visitas a instituições e espaços da cidade, como escolas técnicas, unidades do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e outros locais de atendimento à comunidade. O grupo também utilizou um programa de rádio para divulgar a iniciativa.

Para Francielle, os resultados começaram a aparecer quando as participantes passaram a colocar em prática o que aprenderam, desenvolvendo marcas, melhorando a divulgação dos produtos e estabelecendo novas formas de contato com os clientes. “Ver elas conseguindo tirar seus projetos do papel e realmente os colocando em prática, elaborando um marketing legal, inovando suas marcas e cativando seus públicos-alvo é algo que me deixa motivada a continuar”, afirma.

Ao todo, 33 mulheres ingressaram na primeira turma e 23 concluíram a trilha formativa. “A primeira turma de mulheres foi muito diversa, mas é visível o quanto elas se sentiram capazes e empoderadas no decorrer da trilha”, relata Narle.

Atualmente, o projeto está em seu segundo ciclo, com uma nova turma de mulheres. Nesta etapa, o time estabeleceu uma parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social para identificar potenciais participantes e ampliar o alcance das atividades.

Formação que ultrapassa a sala de aula

A atuação do Time Enactus de Chapadão do Sul foi retomada em 2025, após uma primeira tentativa de organização, em 2022, que não chegou a desenvolver projetos. A reestruturação ocorreu a partir de um convite da Agência de Inovação e Empreendedorismo (Aginova) da UFMS, que buscava fortalecer o empreendedorismo nas unidades universitárias.

O grupo iniciou suas atividades com 17 estudantes e, atualmente, reúne 22 integrantes, principalmente dos cursos de Administração e Agronomia. Para Narle, a participação de estudantes de diferentes áreas amplia as possibilidades de análise dos problemas e contribui para a construção coletiva de soluções.

“O objetivo do time é modelar e implementar um projeto de impacto social na comunidade a partir dos conceitos de liderança empreendedora e inovação”, explica.

Além dos resultados obtidos junto à comunidade, a professora destaca os efeitos da experiência na formação universitária. Ao participar do planejamento e da execução dos projetos, os estudantes precisam lidar com desafios relacionados à gestão de recursos, organização de equipes, comunicação, liderança e relacionamento com diferentes públicos.

“Ser um enactor é um grande laboratório. No projeto, os alunos lidam, em menor escala, com todos os desafios e conflitos de uma organização, além de todas as oportunidades de networking nacional e internacional”, avalia.

A professora considera que a participação no time fortalece competências técnicas e socioemocionais e amplia a compreensão dos estudantes sobre o papel social de suas futuras profissões. “A aplicação do ensino é imediata, a extensão é a alma do projeto, o aluno sai da sua bolha e se vê diante de situações que nem imaginava”, destaca.

Essa percepção é compartilhada por Francielle, que decidiu ingressar na Enactus pelo interesse em participar das atividades universitárias e pela possibilidade de contribuir diretamente para a vida de outras pessoas. Como vice-presidente, ela atua na elaboração do projeto e auxilia em atividades de gestão financeira e em outras demandas do grupo.

A experiência também modificou sua compreensão sobre a profissão que escolheu. “No meu caso, serei administradora e, para ser boa nisso, precisarei aprender a lidar com diversidade de pessoas, pensamentos divergentes, e o projeto me ajudou e me ajuda muito a ter essa visão”, conta.

Para a estudante, o contato com as participantes também mostrou que produzir resultados sociais exige continuidade, determinação e capacidade de compreender as necessidades das pessoas. “Para impactar vidas não basta apenas agir, tem que persistir e ter sabedoria para cativar pessoas e, além disso, inspirá-las”, afirma.

Ao pensar na profissional que deseja se tornar, Francielle destaca uma mudança de perspectiva: quer ser uma administradora capaz de enxergar, para além do produto ou serviço, as pessoas responsáveis por tornar cada empreendimento possível.

Reconhecimento nacional e novos desafios

Mesmo com pouco tempo de atuação, o Time Enactus de Chapadão do Sul já conquistou reconhecimento na rede nacional. No Evento Nacional Enactus Brasil (Eneb) 2026, realizado entre os dias 21 e 24 de julho, na UFMS, em Campo Grande, o grupo recebeu o troféu de Time Revelação 2026.

A equipe também conquistou uma insígnia de prata, reconhecimento relacionado à pontuação acumulada ao longo do ciclo Enactus pela participação em atividades e eventos da rede.

Para Narle, os resultados representam um estímulo ao desenvolvimento do grupo e demonstram a importância de iniciar projetos mesmo diante das dificuldades de estruturação. “Ser o Time Revelação coroou nossa coragem de iniciar mesmo sem ter tudo perfeito!”, comemora.

Francielle atribui a conquista ao envolvimento coletivo dos estudantes e ao acompanhamento da professora conselheira. Segundo ela, as avaliações recebidas ao longo das atividades, tanto positivas quanto negativas, foram importantes para o amadurecimento da equipe.

“Nosso time nasceu no ano passado e, desde então, vem dando o seu melhor. Com isso, podemos melhorar a cada dia e inovar ou até mesmo remodelar algo dentro do possível para atingirmos nossos objetivos, que são, de fato, impactar outras vidas através das nossas”, afirma.

A premiação ocorreu em um evento que reuniu estudantes, professores, representantes de empresas e integrantes de times Enactus de diferentes regiões do país. A realização do encontro na UFMS também proporcionou oportunidades de intercâmbio de experiências e contato com iniciativas de empreendedorismo social desenvolvidas em outras instituições.

Perspectivas para ampliar o impacto social

Na UFMS, a presença de times em unidades da Capital e em outros nove municípios amplia as possibilidades de desenvolvimento de projetos vinculados às características e necessidades de cada região do Estado. Em Chapadão do Sul, o empreendedorismo feminino foi escolhido como ponto de partida para essa atuação.

Apesar dos resultados já alcançados, Narle reconhece que o grupo ainda precisa avançar na estruturação de parcerias e na sistematização de indicadores que permitam avaliar o impacto das atividades. Essas informações são consideradas importantes para demonstrar os resultados dos projetos e atrair novos apoiadores.

Para o próximo ciclo, a expectativa é fortalecer a gestão interna, aperfeiçoar os processos de trabalho, ampliar a maturidade do Mulheres que Crescem e iniciar um segundo projeto de impacto social.

Enquanto planeja novas ações, o grupo mantém o acompanhamento das participantes e busca aperfeiçoar as capacitações. Para os estudantes, cada negócio que começa a se estruturar representa também uma oportunidade de aprendizagem.

A trajetória de Valquíria, que passou a reconhecer e valorizar sua atividade como empreendimento, sintetiza o propósito que mobiliza o time: transformar conhecimentos adquiridos na Universidade em oportunidades concretas para a comunidade, ao mesmo tempo em que forma profissionais mais atentos às pessoas e à realidade social em que estão inseridos.

 

Texto: Vanessa Amin

Fotos: Time Enactus de Chapadão do Sul