Projetos desenvolvidos por estudantes de diferentes cursos fortalecem comunidades ribeirinhas e quilombolas, apoiam mulheres e ampliam a formação universitária por meio da construção coletiva de soluções
Um abraço deu outro significado às reuniões, aos planejamentos e às metas. Durante uma visita à comunidade atendida pelo projeto Fiandeiras, uma das participantes se aproximou da estudante Isabela Pires Mendonça, a abraçou e agradeceu pelo trabalho desenvolvido. Para a hoje presidente do Time Enactus da UFMS de Campo Grande, o gesto tornou visível o que nem sempre cabe em um relatório: as histórias, os sonhos e as expectativas das pessoas com quem a equipe trabalha.
“Pode parecer um gesto simples, mas foi algo que me marcou profundamente, porque naquele abraço eu consegui enxergar o verdadeiro significado de tudo aquilo que estávamos construindo”, recorda. A experiência também lhe mostrou que os efeitos de um projeto podem alcançar a autoestima, a confiança e as possibilidades que uma pessoa passa a reconhecer para o próprio futuro.
É com esse olhar que estudantes de diferentes cursos da UFMS se reúnem para desenvolver iniciativas de empreendedorismo social. Desde sua criação, em maio de 2022, o time de Campo Grande já desenvolveu cerca de nove projetos, com ações relacionadas à sustentabilidade, à geração de renda, à diversidade e à valorização de comunidades tradicionais. Ao longo dessa trajetória, algumas iniciativas foram encerradas e outras ganharam força, acompanhando o aprendizado da equipe e as necessidades dos públicos atendidos.
Segundo o professor e conselheiro do time, Geraldino Carneiro de Araujo, a inovação social e o território orientam o trabalho, que tem como propósito central a geração de renda e o fortalecimento da autonomia das comunidades. “Uma grande transformação é o protagonismo dos estudantes: são eles que tomam à frente das reuniões, da comunicação externa e das atividades desenvolvidas”, destaca.
Essa reportagem integra a série sobre os times Enactus da UFMS, que apresenta as experiências de estudantes e professores na construção de soluções junto às comunidades.
Da primeira conversa ao protagonismo estudantil
A mobilização para formar o time começou antes de sua criação oficial. Durante a Recepção de Calouros de 2021, uma fala de Joana Rudiger, então presidente da Enactus Brasil, despertou o interesse de estudantes em iniciar o movimento em suas unidades. Em Campo Grande, Geraldino coordenou as primeiras conversas, reuniu os interessados e auxiliou no esclarecimento de dúvidas e na discussão de possíveis projetos.
O primeiro desafio foi estruturar a equipe, compreender a dinâmica da Enactus e começar as ações. Desde então, o grupo cresceu em número de estudantes, projetos e atividades, em um processo que o professor descreve como gradual, sustentado pelo diálogo e pelo suporte da Enactus Brasil.
Para Isabela, estudante de Engenharia Ambiental, a entrada aconteceu a partir de uma abordagem no corredor central da Universidade, quando ainda era caloura. A possibilidade de levar o conhecimento acadêmico para além dos muros da instituição chamou sua atenção, embora ela ainda não imaginasse a dimensão que a experiência ganharia em sua vida.
“Entrei inicialmente pensando nas horas complementares e, hoje, quase quatro anos depois, continuo aqui por algo muito maior: o propósito”, conta.
Nesse percurso, Isabela participou de diferentes funções, aprendeu a liderar no Fiandeiras e assumiu a Diretoria de Projetos antes de chegar à presidência. A responsabilidade exigiu decisões, gestão de pessoas e disposição para enfrentar situações para as quais nem sempre se sentia preparada.
“Uma das maiores lições que tive foi entender que liderar não significa saber tudo ou fazer tudo sozinha. Liderar também é saber ouvir, confiar nas pessoas, reconhecer suas dificuldades e compreender que cada pessoa tem seu próprio tempo de desenvolvimento”, afirma.
Esse aprendizado acompanha a organização do time. Cada projeto tem sua equipe, suas lideranças e responsabilidades. As ideias podem partir de professores ou estudantes e são analisadas conforme sua relação com as diretrizes da Enactus Brasil e do grupo, a capacidade de execução e a validação junto às comunidades.
Saberes do Cerrado e oportunidades de renda
Na comunidade quilombola Chácara do Buriti, o projeto Zuri aproxima conhecimentos acadêmicos e saberes tradicionais para desenvolver alternativas de renda. As mulheres participantes já produzem pães e outros alimentos, e a proposta busca agregar valor a esse trabalho com ingredientes presentes no próprio território.
A partir de frutos nativos do Cerrado, como bocaiúva, baru e jatobá, a equipe começou a desenvolver misturas para bolos e uma base para cookies. Além da criação de produtos, o projeto procura valorizar os conhecimentos das mulheres, fortalecer sua autonomia e relacionar a biodiversidade a novas oportunidades econômicas.
“O Zuri me fez enxergar como conhecimentos que adquirimos dentro da universidade podem se conectar com aquilo que as comunidades já sabem e fazem. Não se trata de chegar a um lugar acreditando que temos todas as soluções, mas de ouvir, compreender as necessidades e construir alternativas em conjunto”, explica Isabela.
A experiência também ampliou sua compreensão sobre a Engenharia Ambiental. Antes mais concentrada nos aspectos técnicos da profissão, a estudante passou a perceber de maneira mais próxima as relações entre conservação, cultura, renda e qualidade de vida.
“Hoje, entendo que não existe sustentabilidade ambiental sem considerar as pessoas que vivem e dependem daquele território. Não adianta desenvolver uma solução tecnicamente perfeita se ela não considera a realidade social, econômica e cultural da comunidade onde será aplicada”, avalia.
O reaproveitamento de materiais também esteve no centro do Fiandeiras, projeto que marcou sua trajetória. A iniciativa surgiu com a proposta de transformar tecidos que seriam descartados, principalmente jeans, em novos produtos, associando a redução de resíduos à capacitação em costura e à possibilidade de comercialização pelas mulheres participantes.
Para Isabela, a formação oferecida buscava ampliar tanto as habilidades quanto a confiança para empreender. “O projeto busca mostrar para essas mulheres que elas têm capacidade de empreender, conquistar sua independência financeira e enxergar novas possibilidades a partir daquilo que aprenderam.”
Do mel à energia solar
No Pantanal, a relação entre conservação e geração de renda orienta o Pantamel. Desenvolvido com uma comunidade ribeirinha de Miranda, o projeto busca fortalecer a apicultura como alternativa econômica diante dos impactos das secas e das queimadas na região.
As ações incluem capacitações, equipamentos e estratégias de valorização do mel produzido pela comunidade. O objetivo é melhorar a renda dos apicultores e reduzir a dependência de atravessadores. Como a produção depende da vegetação e as abelhas contribuem para a polinização, a atividade também evidencia a importância da conservação ambiental.
“Acredito que o Pantamel mostra justamente isso: que conservar o Pantanal também é valorizar as pessoas que vivem nele e mostrar que o bioma em pé pode gerar renda e oportunidades”, ressalta a presidente.
Outra frente em desenvolvimento é o Raizal, voltado a uma comunidade quilombola de Maracaju, onde, segundo Isabela, as famílias chegam a ficar até oito dias sem energia elétrica. A proposta é desenvolver um sistema de refrigeração alimentado por energia solar, buscando reduzir as perdas de alimentos e os impactos das interrupções no abastecimento.
A estudante destaca que a escolha da tecnologia precisa acompanhar a compreensão das condições locais. A construção das soluções depende da participação de quem vai utilizá-las e da adaptação às necessidades identificadas.
“Acredito que o papel da Enactus não é fazer pelas comunidades, mas fazer com elas. Porque, quando as pessoas participam da construção das soluções, elas deixam de ser apenas beneficiárias e passam a ser protagonistas da própria transformação”, afirma.
Convivência e formação de lideranças
No Elas do Cerrado, uma horta comunitária reúne mulheres da terceira idade em atividades que envolvem produção de hortaliças, convivência e troca de conhecimentos. A iniciativa busca fortalecer a autonomia e o sentimento de pertencimento, além de valorizar a contribuição dessas mulheres para a comunidade.
Para Isabela, um dos desafios é enfrentar a invisibilidade desse público e ampliar suas oportunidades de participação. “Quando criamos essa rede, estamos fortalecendo a autonomia, o sentimento de pertencimento e, principalmente, mostrando que essas mulheres ainda têm muito a ensinar e a conquistar.”
A vice-diretora de Gestão de Pessoas do time, Rerlyn Gomes da Silva, participa do proejto e encontrou no Enactus um espaço para desenvolver habilidades que também pretende levar à profissão. Estudante de Administração, ela relata que a convivência com pessoas de diferentes cursos, cidades e estados ampliou suas relações e ajudou a trabalhar a timidez. “Aprendi que, para ser um líder, não precisa nascer sendo, mas se tornar um. Na Enactus estou tendo essa oportunidade de trabalhar isso em minha vida acadêmica e pessoal”, conta.
Em um projeto anterior, Rerlyn acompanhou mulheres da comunidade na confecção de roupas de bebê destinadas a mães em situação de vulnerabilidade. A satisfação de quem recebia os kits tornou a experiência especialmente marcante para ela e ampliou sua percepção sobre os espaços em que a Administração pode contribuir.
Antes voltada principalmente às grandes empresas, a estudante passou a reconhecer possibilidades de atuação também em iniciativas menores, próximas das necessidades cotidianas das pessoas. O contato com diferentes culturas e histórias, acrescenta, ensina a adaptar as ações e a reconhecer o que cada comunidade pode compartilhar com o time.
Geraldino considera essa dimensão humana uma das principais contribuições da Enactus à formação universitária. Além de aplicar ferramentas de gestão, os estudantes conhecem outras realidades e participam da construção de alternativas com as pessoas atendidas. “Cada visita, cada conversa, cada atividade promove experiências humanas que agregam à formação dos estudantes”, observa.
Gestão e tecnologia para dar continuidade às ações
Para que as propostas avancem, o trabalho nas comunidades precisa ser acompanhado pela organização de recursos, parcerias e informações. Diretor financeiro do time, João Vitor Segatto atua na gestão de orçamentos e na estruturação de parcerias estratégicas para viabilizar as iniciativas.
Ele ingressou na Enactus pela possibilidade de aplicar conhecimentos de engenharia e gestão a problemas reais. Ao participar, percebeu que a continuidade dos projetos exige planejamento, organização e sustentabilidade financeira, além da integração entre diferentes áreas.
“Em sala de aula, resolvemos problemas com dados ideais; já na Enactus, aprendo a negociar com parceiros, otimizar custos operacionais em cenários de escassez e alinhar o rigor financeiro com a empatia e o propósito social”, relata.
Na avaliação do estudante, a autonomia econômica pode ser percebida quando os grupos acompanhados desenvolvem condições para gerir o próprio caixa, definir preços e planejar suas atividades. Por isso, a gestão dos recursos do time também procura assegurar que o dinheiro captado seja direcionado de maneira eficiente às ações.
A tecnologia é outra ferramenta para fortalecer os projetos. À frente da Diretoria de Inovação e Tecnologia, Giovanna Silva encontrou na Enactus a oportunidade de aplicar os conhecimentos desenvolvidos durante o curso e de compreender a dimensão de uma rede que, inicialmente, imaginava ser menor.
O contato com experiências apresentadas no Evento Nacional Enactus Brasil e na Enactus World Cup ampliou sua percepção sobre as possibilidades de atuação dos times. Para ela, a tecnologia pode apoiar empreendimentos de diferentes áreas e impulsionar as ações desenvolvidas.
Entre os objetivos de sua diretoria está a organização de sistemas que auxiliem os próximos integrantes, permitam acompanhar melhor os indicadores e preservem o conhecimento produzido pela equipe. “Gostaria de conseguir deixar sistemas que apoiassem os próximos membros no desenvolvimento de soluções para comunidades; ter maior controle das métricas, ter uma base sólida de conhecimentos para consultar no desenvolvimento de projetos”, explica.
Impacto que permanece
O acompanhamento dos projetos combina dados quantitativos e mudanças percebidas na vida das pessoas. A equipe observa o número de famílias beneficiadas, a produção, a geração de renda e a participação em capacitações, mas também procura compreender os avanços na autonomia e na continuidade das atividades.
No Pantamel, por exemplo, Isabela explica que a avaliação considera tanto a quantidade de mel produzida quanto as condições de comercialização e a renda dos apicultores. No Zuri, o olhar se volta à aquisição de conhecimentos e ao potencial dos produtos desenvolvidos para abrir novas oportunidades econômicas.
“Acredito que o verdadeiro impacto acontece quando a comunidade consegue dar continuidade àquilo que foi construído, sem depender da nossa presença”, afirma.
Esse compromisso também orienta a busca por parceiros. Segundo o professor Geraldino, o time tem ampliado a aproximação com empresas e instituições públicas para desenvolver parcerias e captar patrocínios. Embora já tenha realizado ações em escolas, atualmente concentra seu trabalho em outros públicos, com os quais mantém o diálogo para validar e construir as iniciativas.
Na UFMS, os Times Enactus estão organizados como programa de extensão e contam com o suporte da Aginova. Os participantes têm horas de extensão contabilizadas pela Enactus Brasil e também podem se envolver em atividades de ensino e pesquisa oferecidas pelos professores conselheiros, com projetos cadastrados nas áreas de empreendedorismo social, economia solidária e inovação social.
Manter essa trajetória diante da renovação dos integrantes é um dos desafios atuais. Para Geraldino, as mudanças de diretoria e a chegada de novos estudantes exigem atenção aos valores e às diretrizes do grupo. O objetivo é fortalecer a estrutura, os projetos e o reconhecimento do time.
Na área financeira, João Vitor aponta como próximo passo a criação de um CNPJ, acompanhada da consolidação de processos e de parcerias recorrentes que favoreçam a continuidade institucional e financeira. Na presidência, Isabela pretende fortalecer os projetos em diferentes fases de desenvolvimento e ampliar as oportunidades para que outros estudantes vivam a experiência.
Mais do que uma premiação, ela deseja que o reconhecimento seja consequência do trabalho realizado com as comunidades. O legado que espera construir envolve iniciativas duradouras e uma formação universitária comprometida com as realidades sociais.
“Quero que as comunidades se lembrem de nós não apenas pelos projetos que desenvolvemos, mas pelas oportunidades que construímos juntos. E que os estudantes que vierem depois de nós entendam que a Enactus não é apenas algo de que participamos durante a graduação, mas uma experiência que levamos para a vida inteira”, finaliza a presidente.
Texto: Vanessa Amin
Fotos: Time Enactus de Campo Grande
