Saúde Pantaneira leva atendimento multiprofissional a comunidades de difícil acesso

Projeto reúne estudantes, professores e profissionais do SUS em ações de saúde e fortalece a formação acadêmica e o cuidado às populações que vivem no Pantanal

No Pantanal, a distância até um serviço de saúde não se mede apenas em quilômetros. Chuvas, condições das estradas, nível dos rios e longos deslocamentos podem dificultar até mesmo atendimentos preventivos e acompanhamentos periódicos. Para aproximar o cuidado de quem vive nessa realidade, o projeto de extensão Saúde Pantaneira leva equipes multiprofissionais até comunidades da região.

Coordenada pelos professores Jefferson Marion e Rafael Aiello, da Faculdade de Odontologia (Faodo) da UFMS, a iniciativa integra assistência, formação de estudantes e atuação conjunta com o Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da parceria firmada com os coordenadores de saúde bucal da Secretaria Municipal de Miranda Fernanda Zengerling Facchin, da Secretaria Municipal de Corumbá Luiz Antônio Leite Rocha e da Secretaria Estadual de Saúde Lucas Moura.

O projeto nasceu da necessidade de aproximar a Universidade das populações que vivem em regiões de difícil acesso no Pantanal e que, por razões geográficas, logísticas e sociais, encontram dificuldades para acessar regularmente os serviços de saúde. “A proposta é levar ações integradas de saúde diretamente a essas comunidades, articulando assistência, extensão universitária, formação profissional e, progressivamente, também pesquisa”, conta professor Aiello.

Em 2026, as atividades foram retomadas após sete anos de interrupção, com atendimentos mensais a partir de junho. A iniciativa dá continuidade à presença histórica da Universidade na região, especialmente por meio da Base de Estudos do Pantanal (BEP). “O Projeto Saúde Pantaneira procura fortalecer essa presença institucional, organizando as ações de saúde de maneira mais integrada, multiprofissional e contínua, aproximando diferentes cursos da área da saúde e os serviços públicos das comunidades locais”, reforça professor Marion. Para o ele, além da infraestrutura oferecida, a BEP representa “a possibilidade de uma atuação permanente da Universidade naquele território”.

Saúde que chega ao território

A distância é uma das principais barreiras enfrentadas pela população. Muitas famílias vivem longe dos centros urbanos e dependem de longos deslocamentos, estradas em condições variáveis e, em algumas localidades, transporte fluvial. Na Odontologia, segundo professor Aiello, essas dificuldades podem fazer com que problemas que seriam solucionados precocemente cheguem aos serviços somente quando já existe dor ou necessidade de tratamento mais complexo.

As características do território tornam a organização de cada ação particularmente complexa. “Precisamos transportar pessoas, equipamentos odontológicos, materiais, medicamentos e insumos, garantir energia, biossegurança, acondicionamento adequado dos materiais e condições para funcionamento dos equipamentos. Tudo isso em um território no qual as condições de deslocamento podem mudar”, explica.

Por isso, o trabalho começa muito antes da chegada ao Passo do Lontra. É preciso estimar a demanda, articular a participação dos municípios e do Estado, organizar profissionais e estudantes, transporte, infraestrutura, equipamentos e insumos. No local, os espaços são preparados para garantir a segurança dos atendimentos e, depois da ação, são organizados os registros e encaminhamentos necessários.

A intenção é ampliar gradualmente a abrangência para outras comunidades pantaneiras, conforme a capacidade logística e a articulação com os municípios e o Estado. Para isso, a mobilização envolve equipes e serviços de saúde locais, lideranças comunitárias e outros atores que conhecem o território e podem informar previamente as famílias sobre locais, datas e tipos de atendimento disponíveis.

O Saúde Pantaneira não se restringe à Odontologia. Graças à parceria firmada com a Secretaria Municipal de Corumbá, as ações podem reunir atendimentos de Medicina, Enfermagem e Farmácia e incluem ainda vacinação e testes rápidos para Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), além da possibilidade de incorporar outras áreas. “O objetivo é aproveitar a presença da equipe no território para identificar necessidades de forma ampla e fortalecer o vínculo dessas pessoas com a rede de atenção à saúde”, explica professor Marion.

Atendimento integrado

Com o auxílio de Unidades Odontológicas Móveis, cedidas pelas Secretarias de Saúde de Miranda e Corumbá, professores, estudantes da Faodo e profissionais cedidos pelas Secretarias de saúde realizam tratamento odontológico no campo da clínica geral. Os procedimentos incluem diagnóstico das principais doenças que acometem a boca, Tratamento Restaurador Atraumático (ART), aplicações tópicas de flúor e selantes, orientação sobre higiene bucal e intervenções nas áreas de Periodontia, Endodontia, Dentística e Cirurgia Oral Menor.

A estrutura levada ao Pantanal permite aos estudantes participar de atendimentos que vão além dos procedimentos mais simples. Gabriel Cenedesi Barbosa acompanhou atividades de Endodontia, Dentística e Periodontia e destaca os recursos utilizados pela equipe. “Foi bonito observar materiais levados pela equipe da Faodo associados a técnicas que avançaram nos últimos anos, com o uso de raio-X portátil, ultrassom, localizadores apicais e motores reciprocantes para tratamentos de canais”, conta.

Os casos de maior complexidade, que exigem intervenção especializada, são encaminhados à rede pública. “A ação não pode funcionar de maneira isolada da rede de saúde. Quando identificamos uma necessidade que não pode ser resolvida naquele momento, o objetivo é articular o encaminhamento com os serviços municipais, neste caso específico, Miranda ou Corumbá, e estaduais responsáveis”, explica o professor Aiello.

A integração entre as diferentes áreas também permite olhar para o paciente de maneira mais ampla. Uma pessoa que procura atendimento odontológico pode apresentar outras necessidades de saúde e o contrário também ocorre. Para o prof. Aiello, essa atuação articulada proporciona uma visão mais integral do usuário e aproxima os estudantes da própria lógica de funcionamento do SUS.

As experiências realizadas até agora indicam demanda pelos serviços e evidenciam, sobretudo, que as condições de acesso são diferentes daquelas encontradas nos centros urbanos. “O projeto evidencia como território e distância podem determinar oportunidades de cuidado. Isso reforça a necessidade de estratégias específicas para populações que vivem em regiões remotas”, comenta o professor Marion.

Um dos desafios para as próximas etapas é justamente garantir a continuidade do cuidado. A proposta é fortalecer os mecanismos que vinculem os moradores às equipes locais e permitam acompanhar aqueles que necessitam de tratamento adicional. “A sustentabilidade do projeto depende dessa integração entre ação itinerante e rede permanente”, avalia professor Aiello.

Nesse processo, são fundamentais as parcerias com o Estado e os municípios de Corumbá e Miranda. “A Universidade pode contribuir com conhecimento, estudantes, professores, pesquisa e inovação, mas a continuidade do cuidado depende do Sistema Único de Saúde. Estado e municípios conhecem o território, organizam a rede assistencial e são responsáveis pelo acompanhamento da população. O projeto só se torna sustentável quando existe essa construção conjunta”, acrescenta.

Formação além da clínica

Os estudantes participam desde a preparação das atividades até as ações no território, sempre sob supervisão docente. Além das competências clínicas, desenvolvem capacidade de adaptação, comunicação, trabalho em equipe, tomada de decisão e planejamento. Para os coordenadores, a experiência também favorece a compreensão das desigualdades de acesso à saúde.

“Na clínica universitária, trabalhamos em um ambiente estruturado e controlado. No Pantanal, o estudante percebe que o cuidado em saúde também depende de território, transporte, condições sociais, disponibilidade de serviços e organização da rede. Ele começa a compreender que produzir saúde significa muito mais do que realizar um bom procedimento clínico”, destaca o professor Marion.

Para Maria Fernanda Ferreira de Souza, bolsista do projeto, a experiência inverte uma lógica à qual os acadêmicos estão habituados. “Na rotina clínica, geralmente estamos acostumados a esperar que o paciente venha até nós. No Projeto Saúde Pantaneira, essa lógica se inverte: somos nós que vamos até os pacientes”. Segundo ela, estar no território permite conhecer de perto a realidade da comunidade e compreender as dificuldades que muitas vezes impedem o acesso aos serviços de saúde.

A dinâmica também exige adaptações nas condutas. O outro bolsista do projeto, o estudante, Vinícius Gianini Chítero explica que os princípios do atendimento são mantidos, mas o intervalo entre as ações precisa ser considerado na definição dos tratamentos. “Temos que encontrar alternativas e ponderar os tratamentos devido à impossibilidade de retorno tão cedo, adequando o necessário com o possível”, relata.

Na prática, os estudantes encontram pacientes de diferentes idades e necessidades. Lívia Areco relata que atendeu adultos e crianças e realizou desde profilaxia e Tratamento Restaurador Atraumático até restaurações. A diversidade dos pacientes, segundo ela, exigiu abordagens diferentes e maior capacidade de adaptação.

Laís Wink guarda na memória cenas da rotina montada no Pantanal. “Enquanto eu atendia, dava para ouvir o som das crianças brincando entre as árvores enquanto esperavam a vez delas. Fizemos de tudo um pouco, desde restaurações funcionais e estéticas até procedimentos mais complexos.” Conforme a estudante, a equipe se organizava de acordo com as necessidades encontradas. “Se a demanda era cirurgia, endodontia ou restauração, a gente se colocava à disposição para o que o paciente precisava”.

Para Maria Fernanda, uma das experiências mais marcantes ocorreu durante o atendimento a uma paciente que havia fraturado os dois dentes incisivos centrais superiores em um acidente de motocicleta, cerca de quatro anos antes. Depois da restauração, a estudante percebeu uma mudança no comportamento da paciente. “Ela saiu sorridente e muito mais comunicativa. Esse momento me fez perceber que, embora uma restauração em resina seja um procedimento comum na rotina odontológica, para o paciente ela pode representar muito mais, contribuindo para sua autoestima, bem-estar e qualidade de vida”.

A experiência fora da estrutura habitual da Universidade também aproxima os estudantes da realidade profissional. Para Vinícius, que está no último ano do curso, participar do projeto representa um processo de amadurecimento. “O projeto com certeza irá me ajudar a chegar mais pé no chão fora da Faculdade, já que são dois mundos diferentes e, durante a graduação, vivemos em uma espécie de bolha, algo que o projeto com certeza ultrapassa”, afirma.

No caso de Maria Fernanda, a vivência possui ainda um significado pessoal. Por ter crescido em contato com o Pantanal e continuar frequentando a região, ela associa a participação no projeto à própria relação com o território. “Participar do projeto representa, de certa forma, contribuir para a melhoria do que considero o ‘meu lar’”, diz.

Caick Alves resume outra dimensão dessa experiência: “Aprendi que, antes de qualquer procedimento, existe um encontro entre pessoas, e que saber acolher também faz parte do cuidado”. Em seu relato, o estudante associa a experiência ao desenvolvimento de responsabilidade, adaptação, comunicação, sensibilidade e trabalho em equipe.

Do atendimento ao conhecimento

Além de ampliar os atendimentos, os coordenadores pretendem produzir informações mais sistemáticas sobre as condições de saúde das populações pantaneiras. Os registros das ações já realizadas ainda precisam ser consolidados de maneira padronizada antes da divulgação de números oficiais sobre pessoas atendidas, procedimentos e encaminhamentos.

A proposta é avançar para levantamentos estruturados que permitam conhecer prevalências, necessidades acumuladas, acesso aos serviços e fatores sociais e territoriais. “Não queremos apenas atender; queremos produzir um diagnóstico que subsidie políticas e estratégias permanentes”, afirma o professor Aiello.

Essas informações também poderão subsidiar pesquisas sobre saúde bucal, condições gerais de saúde, acesso aos serviços, determinantes sociais e avaliação das estratégias utilizadas para levar o cuidado às comunidades. “A proposta é integrar ensino, pesquisa e extensão de forma cada vez mais estruturada”, diz.

A perspectiva também é ampliar gradualmente as comunidades atendidas e incorporar diferentes cursos e programas da UFMS, além de aproximar programas de pós-graduação e grupos de pesquisa. A intenção é que o Saúde Pantaneira se consolide como uma plataforma de assistência, formação, extensão e produção de conhecimento sobre a saúde das populações pantaneiras.

Para os coordenadores, o objetivo de longo prazo é contribuir para um modelo de atenção adaptado às características do território, com equipes multiprofissionais, unidades móveis, prevenção, acompanhamento e mecanismos de referência para casos de maior complexidade. “O cenário ideal é que o morador do Pantanal não precise escolher entre permanecer em sua comunidade ou ter acesso à saúde”, sintetiza o professor Aiello.

Próximas ações

Neste ano, os atendimentos foram iniciados em junho, com edições mensais. Em outubro, serão realizados nos dias 24 e 25; e, em novembro, nos dias 28 e 29. Aos sábados, o horário é das 7h30 às 18h e, aos domingos, das 7h30 às 11h, sempre na Base de Estudos do Pantanal da UFMS. Acompanhe aqui as atividades do Projeto Saúde Pantaneira.

Texto: Vanessa Amin

Fotos: Acervo do Projeto Saúde Pantaneira