Projeto de extensão reúne espécies nativas e de outros ambientes em espaço de aprendizagem prática, educação ambiental e aproximação com escolas de Corumbá
Observar as diferenças entre plantas terrestres e aquáticas, conhecer espécies características do Pantanal, descobrir estruturas vegetais que muitas vezes passam despercebidas e compreender a importância das plantas para a manutenção da vida. Essas são algumas das experiências proporcionadas pelo Jardim Didático implantado na UFMS do Pantanal, em Corumbá. Desenvolvido por meio de um projeto de extensão, o espaço transforma o contato direto com a diversidade vegetal em uma oportunidade de aprendizagem para estudantes universitários, alunos da educação básica e visitantes da Universidade.
Localizado em frente ao Laboratório de Botânica, o jardim nasceu de uma ideia antiga da professora Vanessa Harthman, coordenadora do projeto de extensão. A proposta surgiu da necessidade de disponibilizar um espaço destinado ao cultivo e à exposição de diferentes espécies vegetais, que pudesse ser utilizado nas aulas práticas dos cursos de graduação e em atividades educativas.
“Desde que ingressei na UFMS como docente, sempre tive o desejo de criar um jardim didático. Como professora de Botânica, sentia falta de um espaço destinado ao cultivo e à exposição de diferentes espécies vegetais, que pudesse contribuir para o ensino da Botânica nos cursos de graduação, servindo como um recurso didático para as aulas práticas, minicursos e para aproximação dos estudantes com a diversidade vegetal”, explica.
Além da finalidade pedagógica, a professora destaca que o projeto foi pensado para valorizar o ambiente universitário, proporcionando um espaço organizado, bem cuidado e agradável para toda a comunidade acadêmica.
O jardim já está implantado e vem sendo utilizado em aulas de Botânica e nas visitas realizadas ao Laboratório. Atualmente, a equipe trabalha na catalogação das espécies cultivadas, etapa importante para ampliar as possibilidades de identificação, estudo e divulgação científica.
Um laboratório vivo para conhecer as plantas
A organização do jardim foi planejada para facilitar a observação das características e necessidades dos diferentes grupos vegetais. O espaço conta com setores destinados ao cultivo de monocotiledôneas e eudicotiledôneas adaptadas ao sol e à sombra, cactos, suculentas e plantas aromáticas. As espécies aquáticas estão distribuídas em dois tanques.
Segundo Vanessa, a seleção das plantas considera principalmente sua utilização nas disciplinas de Anatomia, Fisiologia e Sistemática Vegetal, além da valorização da flora pantaneira. A proximidade com o Laboratório de Botânica permite que os estudantes observem as espécies no jardim e, posteriormente, aprofundem os estudos de suas estruturas internas com o auxílio de microscópios.
“Um exemplo dessa abordagem pode ser observado na comparação entre plantas terrestres e aquáticas. Por viverem em ambientes distintos, essas plantas apresentam diferenças em suas características morfológicas externas e em sua estrutura anatômica interna, relacionadas às adaptações necessárias à sobrevivência em cada ambiente”, explica a professora.
A integração entre os dois espaços possibilita relacionar os conteúdos teóricos com as características observadas diretamente nas plantas. Durante as atividades, os estudantes podem identificar a presença ou ausência de flores, comparar estruturas vegetativas, reconhecer espécies e compreender suas adaptações aos diferentes ambientes.
A professora ressalta que um dos principais desafios do ensino de Botânica é contextualizar os conteúdos com o cotidiano dos estudantes. Para ela, visitas a jardins, praças e outros espaços verdes, assim como a observação de flores e estruturas vegetais, são estratégias importantes para tornar o aprendizado mais significativo.
“É importante que o ensino de Botânica não se restrinja à abordagem teórica, mas proporcione experiências práticas que tornem o aprendizado mais significativo. Ao vivenciarem e observarem as plantas em seu cotidiano, os estudantes conseguem estabelecer relações entre os conhecimentos científicos e o ambiente em que vivem, tornando as aulas mais dinâmicas, atrativas e contextualizadas”, afirma.
Enxergar o que muitas vezes passa despercebido
Outro objetivo do projeto é contribuir para superar um fenômeno conhecido como cegueira botânica, também denominado impercepção botânica, caracterizado pela dificuldade de perceber, reconhecer e valorizar as plantas presentes nos ambientes cotidianos.
Para explicar esse fenômeno, Vanessa propõe imaginar uma paisagem pantaneira com árvores, plantas aquáticas, onças, araras-azuis e jacarés. Ao descrever o cenário, muitas pessoas provavelmente mencionariam primeiro os animais, deixando a vegetação em segundo plano, apesar de sua importância para o equilíbrio do ecossistema.
“A cegueira botânica pode ser definida como a dificuldade ou incapacidade dos seres humanos de perceber e reconhecer as plantas presentes em seu próprio ambiente. Essa percepção limitada contribui para que muitas pessoas não compreendam plenamente a importância dos vegetais para a manutenção da biosfera e para o cotidiano humano”, esclarece.
Ao conhecerem características morfológicas, anatômicas e fisiológicas das plantas, os estudantes também descobrem suas diferentes aplicações, como os usos alimentícios, aromáticos e medicinais, e aprendem a reconhecer espécies invasoras. Esse conhecimento contribui para ampliar a percepção sobre a importância dos vegetais e incentivar sua conservação.
A estudante Carla Martins considera que o jardim pode estimular uma mudança na maneira como as pessoas observam a vegetação. “Esperamos que o jardim didático possa contribuir para o conhecimento dos alunos em relação à Botânica, não só dos alunos, como também de todos os visitantes. Além disso, inspirar pessoas a gostar, cuidar e enxergar as plantas como um ser vivo é fundamental para minimizar a impercepção botânica”, destaca.
Construção coletiva e protagonismo estudantil
A implantação e a manutenção do jardim são resultado do trabalho conjunto de estudantes e servidores da UFMS do Pantanal. Desde as primeiras etapas, os estudantes participam da preparação do terreno, organização dos canteiros, plantio, irrigação e cuidados necessários à conservação das espécies.
Nalanda Duarte foi uma das que acompanhou praticamente todas as fases de implantação do espaço, desde a limpeza inicial e a demarcação da área até a organização para o plantio. Atualmente, a estudante participa das atividades de manutenção, incluindo retirada de ervas daninhas, podas, conservação das cercas e remoção de galhos que caem após as chuvas. Ela também contribui com mudas cultivadas em casa, ampliando a diversidade vegetal disponível para as atividades didáticas.
“Antes de termos o sistema de irrigação, também ajudava na rega, fazendo escala com o pessoal. Então, na prática, eu acabo ajudando em praticamente todas as etapas do jardim, desde a criação até os cuidados e a manutenção do dia a dia”, relata.
A manutenção é realizada semanalmente e inclui a incorporação de resíduos orgânicos à composteira, o plantio de novas mudas e o acompanhamento das condições das espécies. Carla Martins explica que a instalação do sistema automatizado de irrigação facilitou parte desses cuidados.
A estudante Antonielly Dique tmbém participou da construção do jardim, em atividades de limpeza, organização e plantio. Atualmente, colabora com as manutenções semanais, os cuidados com as plantas e a elaboração de certificados para os estudantes que participam do projeto.
Já Leonel Lucas Moreira da Silva destaca a diversidade das tarefas desenvolvidas pelos integrantes da equipe. Além dos trabalhos de manutenção, irrigação e compostagem, ele participa de apresentações, nas quais compartilha informações sobre o jardim e esclarece dúvidas dos visitantes.
O biólogo e servidor da UFMS do Pantanal, Marcus Urquiza, acompanha as atividades práticas e incentiva os acadêmicos a desenvolverem a curiosidade científica. Entre suas contribuições estão a organização dos trabalhos de limpeza, remoção de plantas invasoras, doação de novos exemplares, rega e preparação da compostagem.
Ele explica que até mesmo plantas comuns nos quintais das residências podem apresentar características importantes para atividades didáticas e de pesquisa. A participação no projeto também ampliou sua própria percepção sobre a diversidade vegetal.
“Antes eu me limitava a estudar e valorizar mais as plantas nativas do Pantanal e Cerrado, que têm sido meu objeto de estudo ao longo da carreira. Trabalhar no jardim didático tem me estimulado a observar as plantas também em seu potencial ornamental; olhar detalhes que podem ser importantes para aulas, como glândulas, tricomas, cores diferenciadas, odores característicos em plantas”, relata.
Marcus acrescenta que passou a reconhecer também a relevância de espécies exóticas para o desenvolvimento de atividades didáticas. Segundo ele, a participação dos acadêmicos vai além do cultivo, pois exige conhecimento sobre a classificação das plantas e sua distribuição adequada nos setores do jardim.
“As plantas são inseridas no jardim pelos próprios acadêmicos e elas não são colocadas aleatoriamente, é preciso que eles saibam a classificação delas para plantá-las no espaço certo. Atualmente, iniciamos a identificação de cada espécie e eles serão ainda mais estimulados academicamente, pois irão entrar em contato com a identificação em famílias, gênero e espécie”, explica.
Para o biólogo, outro resultado importante é o sentimento de pertencimento desenvolvido pelos participantes. “Tenho percebido também que os acadêmicos criaram uma espécie de apego ao espaço e têm se tornado fiscalizadores e cuidadores do jardim. Entendo que cada vez mais os estudantes tornam-se protagonistas do projeto.”
Desafios para a preservação do espaço
Apesar dos avanços, manter o jardim como espaço permanente de ensino e visitação exige cuidados contínuos. Entre os desafios apontados pelos estudantes estão a disponibilidade de recursos para aquisição de materiais de jardinagem, a adaptação de algumas espécies às condições ambientais e a necessidade de conscientização sobre a preservação das plantas.
Leonel relata que algumas mudas não conseguem se adaptar ao ambiente e acabam morrendo, o que exige paciência e acompanhamento constante. Ele também menciona situações de descarte de lixo, pisoteio e retirada indevida de plantas, que comprometem o trabalho desenvolvido.
Carla lembra que, no início, a equipe enfrentou dificuldades relacionadas à falta de materiais e à retirada de mudas sem autorização, possivelmente porque o local ainda não era reconhecido pela comunidade como um espaço organizado de cultivo e estudo.
Para Nalanda, que acompanha o projeto há mais de um ano, a conscientização da comunidade acadêmica é fundamental para garantir sua continuidade.
“Um dos maiores desafios é fazer com que as pessoas entendam que ele não é só mais um espaço da faculdade com algumas plantas, mas um espaço didático que faz parte de um projeto e precisa ser preservado. Às vezes alguém pode pegar uma mudinha pequena sem pensar que ela pode ser a única que conseguimos daquela espécie e que faz falta para a nossa coleção”, observa.
A estudante destaca que o cuidado coletivo e o respeito ao espaço são tão importantes quanto o trabalho realizado pela equipe. Antonielly também aponta a necessidade de maior apoio para aquisição de materiais que contribuam para a manutenção permanente do jardim.
Aproximação com escolas e comunidade
Além de atender às atividades de graduação, o jardim integra as visitas educativas realizadas por escolas de Corumbá aos laboratórios do curso de Ciências Biológicas. As parcerias são estabelecidas por contato direto com as instituições de ensino, por meio de e-mails e ofícios, e também a partir da procura espontânea de escolas interessadas em conhecer a Universidade.
Vanessa explica que essas atividades permitem aos estudantes da educação básica observar as plantas diretamente, identificar suas particularidades e estabelecer relações entre os conteúdos escolares e o ambiente natural.
As visitas também proporcionam experiências que nem sempre são possíveis no cotidiano das escolas. O contato com as espécies e com os espaços de pesquisa e ensino da Universidade amplia as oportunidades de aprendizagem e desperta o interesse pela ciência.
Segundo a professora, o jardim também pode contribuir com ações de educação ambiental realizadas em datas comemorativas, como a Semana do Meio Ambiente, fortalecendo a conexão entre a UFMS, as escolas e a comunidade.
Nalanda destaca que o espaço já vem proporcionando experiências importantes para os visitantes e para os acadêmicos de Ciências Biológicas. “Para os alunos da Universidade, ele é muito importante principalmente nas aulas práticas, porque permite conhecer as plantas de perto, inclusive espécies nativas do Pantanal, plantas aromáticas, aquáticas e uma diversidade grande de grupos. Para as escolas, ele proporciona esse contato mais próximo com as plantas e desperta a curiosidade”, afirma.
A estudante ressalta ainda que a localização em frente ao Laboratório de Botânica possibilita apresentar aos visitantes uma coleção didática viva, que complementa outros acervos utilizados nas atividades acadêmicas, como as exsicatas, a xiloteca e o laminário.
Antonielly espera que o espaço continue contribuindo para as disciplinas de Botânica e os minicursos oferecidos pelo Laboratório, além de despertar a curiosidade dos estudantes das escolas e da comunidade local.
Leonel também destaca o potencial do jardim como recurso didático para aulas de Botânica, apresentações do Laboratório e atividades de Estágio Obrigatório, ampliando as possibilidades de formação dos futuros profissionais.
Um projeto em permanente construção
Embora o jardim já esteja em funcionamento, a equipe considera que sua implantação é um processo contínuo. A catalogação das espécies representa uma das etapas atuais, com perspectivas de ampliação da diversidade vegetal e aprimoramento das atividades educativas.
Vanessa explica que o reconhecimento e a identificação de espécies e famílias botânicas já são trabalhados na disciplina de Sistemática Vegetal. A intenção é ampliar gradualmente as possibilidades de utilização do espaço como recurso para o ensino e a divulgação científica.
A avaliação sistemática dos resultados do projeto também deverá integrar as próximas etapas de planejamento. Por enquanto, a professora destaca que os benefícios já podem ser percebidos na praticidade de disponibilizar espécies para aulas e minicursos e, principalmente, nas reações dos estudantes diante das descobertas.
“Observar as expressões de felicidade e surpresa dos estudantes ao conhecerem, pessoalmente, uma planta que até então conheciam apenas pelo nome ou por relatos é uma experiência extremamente gratificante. Ainda há muito a percorrer, aprimorar e organizar, mas o primeiro passo já foi dado”, afirma.
Para o futuro, a expectativa é que o jardim se consolide como um espaço de referência para o ensino de Botânica, a valorização da biodiversidade regional e a educação ambiental, contribuindo também para fortalecer o vínculo dos estudantes com a Universidade.
“A longo prazo, esperamos que o jardim didático se torne um espaço marcante na trajetória acadêmica dos estudantes, proporcionando boas lembranças e experiências significativas de aprendizado e contato com o mundo vegetal. Além de contribuir para o ensino de Botânica, desejamos que esse espaço desperte o interesse, o afeto e o cuidado com o meio ambiente”, conclui Vanessa.
Texto: Vanessa Amin
Fotos: Acervo do projeto
